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o EXPRESSO TRANSIBERIANO
Titulo original: TRANSSIBIRIEN-EXPRESS

Captulo primeiro

- Parece-me, meu caro camarada, que isto  um autntico pesadelo de comboio, 
verdadeiramente 
satnico. No entanto,
sinto-me orgulhoso de ser um dos seus revisores! - disse Bons Fedorovitch 
Mulanov a Fedja, o jovem 
empregado de mesa do
vago-restaurante.
Ambos estavam a fumar no corredor entre o vago-restaurante e uma carruagem-cama 
de 
segunda classe e iam olhando, pela janela, para a paisagem que corria,  espera 
de avistar as primeiras 
casas de Gorki.
Era um quadro montono: florestas de btulas e pinheiros por entre plancies e 
campos 
infindveis, antevendo-se algumas aldeias enterradas em socalcos, uma enorme 
propriedade com amplos 
armazns para guardar ferramentas, tanques e um pequeno riacho.
Conquanto fosse Primavera, o cu estava carregado de nuvens e desde h duas 
semanas que 
chovia ininterruptamente. No havia, por isso, mais nenhum caminho desempedido 
por essa regio, 
apenas um carreiro sinuoso e lamacento, atravs do qual os veculos tinham de 
aventurar-se - tal como 
h sculos.
Evidentemente que tambm havia estradas boas, amplas e slidas, autnticos osis 
no meio de 
tanta solido; mas para onde quer que nos virssemos aparecia de novo a paisagem 
campestre da velha 
e eterna Rssia, a qual se enterrava em lama duas vezes por ano: na Primavera e 
no Outono, quando a 
chuva fazia anunciar quer o calor abrasador do Vero, quer o frio glacial do 
Inverno.
-        Tu agora viajas muito - prosseguiu Mulanov, e expeliu o fumo na direco 
do tecto 
abaulado do vago. O percurso entre Moscovo e Vadivostoque  qualquer coisa! 
Atravessa metade do 
mundo! J no existem comboios assim em parte nenhuma. Apesar disso volto a 
dizer: este comboio  
demonaco!
-        E porqu, Boris Fedorovitch? - O jovem empregado de mesa esmagou o seu 
cigarro com 
o p.
O vago-restaurante estava quase vazio: apenas trs passageiros com ar entediado 
liam o jornal 
e bebiam ch.
-        Este  o comboio mais bonito de toda a Unio Sovitica. O transiberiano! 
Estou corado 
de tanta alegria, tal como ficaria uma rapariguinha. Exactamente como da 
primeira vez que aqui vim.
-        O comboio  realmente bonito. Mas as pessoas, Fedja, as pessoas! - Mulanov 
apontou 
para o primeiro aglomerado de casas de Gorki. A carruagem abrandou e comeou a 
deslizar suave e 
vagarosamente nos carris; uma enorme automotora passou por eles. - H j sete 
anos que fao este 
percurso, sem reclamaes. O camarada director da linha estendeu-me a mo e 
elogiou-me. A quem mais 
aconteceu isto, hen? - Mulanov, orgulhoso, encostou-se  parede.
Era um homem robusto, de estatura mediana, com um pequeno bigode e pouco cabelo. 
Usava o 
seu uniforme de ferrovirio como se de um general se tratasse e quando percorria 
e inspeccionava os 
corredores do "seu comboio", fazia-o como se passasse em revista uma guarda de 
honra.
-        Sabes o que  que isso significa? - Agora que j no havia mais paragens, 
Mulanov 
retomou o seu assunto predilecto. - Nenhuma reclamao, convivendo com estas 
pessoas neste comboio! 
Todas elas, pequenos diabinhos, digo-te eu. Vrias centenas de diabinhos sobre 
dois carris durante dez 
dias e dez noites, sempre atrs de ti, para onde quer que vs! "Camarada 
director", disse eu quando ele 
me apertou a mo, "eu tenho nervos de ao e do mais forte e resistente!" E ele 
riu-se tanto que a sua
barriga se mexeu e quase fez com que se engasgasse.

Mulanov coou a cabea, quase calva. -  preciso ser-se diplomata e psiclogo, 
Fedja. E tambm  
necessrio aprender a conhecer as pessoas, de imediato!  preciso conhec-las  
primeira vista quando 
embarcam contigo e se instalam nos seus compartimentos. V-se logo a maneira 
como elas cuidam das 
malas e como tiram os casacos. Tambm se v se cumprimentam os companheiros de 
viagem, se mandam 
nas suas mulheres, se gritam com os filhos, se refilam muito, se apresentam s 
bilhetes quando vamos 
fazer a inspeco... Alguns sadam-nos delicadamente com um ligeiro aceno de 
cabea; outros nem sequer 
olham, outros ainda procuram o bilhete e praguejam; h at quem descalce os 
sapatos, como se fosse ali 
que tivessem guardado os bilhetes, e outros seguem o exemplo, como se achassem 
que estamos ali para 
os servir! E isto durante dez dias e dez noites... s te digo, Fedja,  o mesmo 
que servir o Diabo no Inferno! 
Mas apesar disso, sinto-me orgulhoso de ser revisor...
Atravs da janela podia j ver-se os arredores de Gorki.
Primeiro distinguiam-se as velhas casas do tempo em que Gorki ainda se chamava 
Nijni 
Novgorod, em seguida os grandes blocos habitacionais em construo. Pareciam 
caixas de beto, todas 
iguais e incaractersticas, como tantas outras por esse mundo fora. "Caixotes" 
que se erguiam sob um 
cu nublado, produzindo um efeito ainda mais cinzento e sinistro do que de 
costume.
Finalmente, o expresso entrou na gigantesca estao e logo ficou rodeado de uma 
confuso de 
carris, cabos elctricos, depsitos e oficinas.
- Mais um par de crianas infernais que embarcou!
- Mulanov sacou do seu livrinho de apontamentos. Porque no nos avisaram antes? 
Segunda classe, no 
interessa! Primeira classe: dois funcionrios do Partido, quatro gelogos, um 
professor de fsica que 
queria ir at Irkutsk. Ah! E ali que temos!? - Mulanov mostrou o registo de 
passageiros ao jovem 
empregado de mesa.
Werner Forster, cabina trs, carruagem cinco.  um dos compartimentos do Estado, 
camarada. Tem 
apenas dois lugares... o espao  agora reservado, mas antigamente dava para 
seis pessoas. So os piores 
lugares, Fedja! E logo reservados para um ministrio! Temos de trat-los da 
melhor maneira possvel. 
Werner Forster, um alemo! Mulanov fechou o seu livrinho de apontamentos.
"Deve ser um homem importante. Vai at ao fim da linha, Vadivostoque. Gostaria 
de 
cumpriment-lo em alemo: Bom dia, camarada! Os estrangeiros so importantes, 
Fedja. O nosso 
comboio  o carto-de-visita da Unio Sovitica e aquilo que depois disserem de 
ns, repercurtir-se- por 
todo o pas.
O comboio parou. Boris Fedorovitch Mulanov voltou rapidamente a ajeitar o seu 
bon, abriu a 
porta com violncia e saltou para a plataforma.
Pelos altifalantes ainda ressoava o anncio da chegada do comboio. " Olga", 
pensou Mulanov. 
Olga com a sua voz apressada, mas clara e expressiva. Olga, com o seu traseiro 
generoso... A madona de 
Cas, cujos pormenores mais insignificantes eram conhecidos de todos desde h 
sete anos...
No era difcil reconhecer Werner Forster. Estava junto a dois enormes males de 
pele de porco, 
que j de si chamavam a ateno dos passageiros soviticos. E a roupa! O fato 
era de fazenda inglesa, 
cinzento-acastanhada com quadrados azuis. Os sapatos eram de tipo mocassina, de 
um couro macio e 
avermelhado. No brao tinha um casaco de pele de raposa - comprado em Moscovo -, 
uma mquina 
fotogrfica pendurada ao pescoo e ao outro ombro trazia uma maleta com uma 
correia comprida. No 
usava chapu...
Um homem assim obviamente que dava nas vistas, uma vez que na Rssia as pessoas 
eram 
diferentes.
Mulanov endireitou-se e dirigiu-se em passo de marcha ao alemo. Estacou a trs 
passos dele 
como se algum tivesse gritado "Alto!", e levou a mo  pala do bon, como que a 
fazer continncia.
- Bom dia, camarada - saudou ele. - Eu sou o seu revisor!
Werner Forster inclinou a cabea cordialmente. Fazer esta grande viagem era um 
sonho que 
acalentava desde rapazinho e agora tornara-se realidade. Procurou o bilhete, mas 
Mulanov, 
generosamente, interrompeu o seu gesto.

- Por favor, queira acompanhar-me.
Mulanov desejou que o alemo o tivesse compreendido e para seu espanto, Forster 
respondeu em 
russo:
- O senhor  muito amvel. Obrigado!
"Que pronncia horrorosa", pensou Mulanov. Falava uma espcie de russo misturado 
com 
sotaque alemo, mas dava para perceb-lo.
Haveria boas oportunidades de entabular conversa: a viagem durava dez dias at 
Vadivostoque.
Talvez se pudesse - com muito cuidado - chegar a saber como vivem os Alemes. 
Por exemplo, um 
revisor alemo, como ele! As comparaes so sempre teis.
Podia dizer-se que a famlia Mulanov vivia razoavelmente. Ele tinha uma mulher 
encantadora e 
dois filhos, ainda crianas, e um apartamento com duas divises, em Moscovo. Uma 
casa de banho para 
cada trs apartamentos - no se podia considerar bom? E at  data ainda no 
houvera reclamaes com 
a gua quente. O prdio do lado no tinha tanta sorte, porque andava sempre com 
problemas desse 
gnero. Era preciso utilizar uma grua, sempre que havia necessidade de usar a 
gua quente. Um msico 
que l vivia ainda outro dia dissera que tudo aquilo soava como uma nota em
l-bemol! E queria compor uma sonata sobre esse tema...
Mulanov fez uma coisa que estava um pouco abaixo da sua dignidade: agarrou numa 
das belas 
malas de pele de porco e
levou-a ao alemo, na carruagem cinco.
Ao passar pelas carruagens de segunda classe - compartimentos enormes para 
sessenta pessoas 
- os passageiros admiravam-se, arrumavam a sua bagagem de encontro  janela, 
entravam nas 
carruagens como piratas abordando galees, empurravam-se uns aos outros e 
comportavam-se tal como 
Mulanov esperava e sabia, por experincia prpria, desde h sete anos. Os 
passageiros de primeira classe 
j haviam embarcado. Tinham lugares marcados e procuravam-nos em silncio.
- Por favor, camarada - disse o revisor, indicando uma enorme janela fechada. - 
 este o seu 
compartimento. Apenas para duas pessoas. Faremos tudo para lhe agradar.
- Estou certo de que sim. - Forster seguiu o revisor at  larga porta de 
correr. No compartimento 
j estava sentado um passageiro que, assim que Mulanov e Forster entraram, se 
levantou de imediato.
- Posso ajud-lo em alguma coisa? - perguntou o homem.
- Oh! Obrigado, mas no  necessrio.
Werner Forster levantou a mala e p-la na bagageira, pendurou o casaco de peles 
num cabide, 
pousou a mquina fotogrfica e a capa no banco comprido e estofado.
Mulanov retirou uma mesinha debaixo da janela e estendeu uma toalha branca na 
mesa depois 
de armada.
Forster viajava num comboio sovitico de luxo pela primeira vez. At ento, 
visitara a Unio 
Sovitica de avio, ou de carro. E os pequenos comboios rsticos, que uma vez 
precisou de utilizar, 
fizeram-lhe lembrar os contos de Tolstoi ou de Gorki: eram ronceiros, oscilantes 
e ruidosos, mas tinham 
histria.
No cumprimento do seu dever, Mulanov voltou a fazer rapidamente o controlo dos 
bilhetes 
normais e dos especiais da carruagem do Estado. Fez uma saudao, muito direito, 
e deixou o 
compartimento.
Atravessou o enorme comboio at  segunda classe. A havia uma discusso por 
causa de um 
lugar  janela. Um idiota qualquer reservara o mesmo lugar duas vezes com o 
mesmo bilhete e agora 
estavam dois homens um contra o outro, como David e Golias, brigando por causa 
disso.
Um deles era um gigante, com uma bonita voz de baixo, mas ligeiramente gago, e o 
outro era 
pequeno como uma doninha e sem papas na lngua e era difcil fazer com que 
estivesse quieto.

- Silncio! gritou Mulanov. - Isto  o transiberiano, camaradas, e no um 
comboio qualquer! Dois 
nmeros iguais? E acham que a culpa  minha? Porque no se estabelece um acordo? 
Um dia senta-se 
um  janela, outro dia o outro, e assim vo alternando! Ser assim to difcil? 
Podemos comear pelo 
camarada mais pequeno...
- Mas por... porqu? - gritou logo o gigante, gaguejando. - Ele te.. tem lugar 
ao p das baga... 
gens!
- Um calhau sem miolos! - berrou de imediato o mais pequeno. - Camarada revisor, 
posso 
apresentar-lhe um atestado mdico! Est aqui na minha mala. H quatro anos que 
sofro de flatulncia 
crnica. Preciso sentar-me direito e estar recostado. Se me sentar torcido, pode 
acontecer sem querer...! 
Quer que seja mais claro, camarada? J sabe que sofro de flatulncia... Fica  
sua responsabilidade!
No seu compartimento, Werner Forster sentou-se junto  janela e olhou para fora. 
Atravs da 
extremidade aberta da plataforma avistou uma linha frrea, ligeiramente 
afastada. Ali havia composies 
de mquinas e carruagens, umas paradas, outras a chegar e algumas a serem 
limpas.
Essa gare estava vazia, observou Forster, j que um grande comboio com 
contentores de 
mercadorias fechados estava a ser vigiado por dois soldados da milcia. Traziam 
metralhadoras a tiracolo 
e faziam-se acompanhar de ces.
O homem que partilhava consigo o compartimento tossiu discretamente. Forster 
virou a cabea.
- Vamos conviver durante dez dias - disse o homem em russo, mas falando 
propositadamente 
devagar e com clareza. - Isso  bom para as pessoas se conhecerem. Chamo-me Pal 
Viktorvitch Karsanov 
e sou professor de agronomia.
Levantou-se e inclinou-se com cortesia. Forster cumprimentou-o de igual modo. 
Tal como tinha 
lido em Tolstoi, pensou ele de novo.
 este o mistrio da Rssia, com o qual se pasma. H mais de cinquenta anos que 
tudo na Rssia 
se encontrava em transformao e de tal maneira que determinou a nova face do 
mundo - mas no fundo 
a sua alma continuava russa, como sempre fora: enigmas humanos entre o cu e o 
Inferno!
Tal como este comboio! Acima de tudo falava-se de socialismo; todos os homens 
so iguais... mas 
havia uma segunda classe com sessenta lugares e compartimentos especiais s com 
dois lugares. Esses 
eram reservados aos oficiais superiores, funcionrios do Partido e convidados do 
Estado.
Quem  que pregou por uma sociedade sem classes? Teria sido Lenine?
- Chamo-me Werner Forster e sou engenheiro.
Posto isto sentaram-se um em frente do outro, olharam pela janela e tentaram 
encontrar assunto 
para o incio de uma conversa.
"Ele parece ser um honesto pai de famlia", pensou Forster. Devia ser bondoso, 
pacato; o cabelo, 
grisalho, j rareava no topo. Usava um fato com a etiqueta do armazm Stirallka, 
como todos 
costumavam usar. Estes fatos pareciam autnticos trapos depois de aguentarem 
chuvadas e remendos 
sucessivos. Os sapatos j tinham levado meias-solas muitas vezes; a camisa 
azulada estava amarrotada, 
apenas a gravata vermelha era nova.
Um "tio" simptico, um professor que conhecia melhor as suas frmulas do que 
sabia endireitar 
as dobras das calas.
- O senhor  alemo? - perguntou Karsanov.
- V-se logo, no ? - Forster riu-se como um garoto. O seu rosto franco parecia 
agora no ter 
idade. Tanto podia ter dezoito anos como trinta. Na verdade, tinha trinta e trs 
anos. - Tive muito 
trabalho para aprender a falar russo, de modo a poder fazer-me entender. Para um 
alemo, o russo  um 
pesadelo!
- Retribuo-lhe o cumprimento. - Karsanov ria igualmente. - Para os estrangeiros, 
o alemo  uma 
lngua em que uma pessoa parece ter seixos a rolar na boca
e d estalidos com a lngua. O senhor tambm vai at Vadivostoque?

- Sim. O meu sonho de criana tornou-se realidade. - Forster voltou a olhar pela 
janela. O 
comboio que estava l fora a fazer manobras interessava-o muito. Os milicianos 
com os ces estavam, 
aparentemente, a vedar toda aquela rea. Para alm deles no se via mais 
ningum. Nenhum trabalhador, 
nenhum maquinista e tambm nenhuma mulher com o seu leno desbotado na cabea, 
daquelas que 
lavavam as carruagens por fora com esfregonas compridas.
- Em Vadivostoque ainda tenho de apanhar um barco para casa.
- Uma viagem magnfica!
- O senhor trabalhou na Rssia?
- Sim. Na instalao de gasodutos, a partir da Alemanha. Era uma espcie de 
comandante. Havia 
l muito que organizar.
- Naturalmente, os gasodutos! Uma boa causa, meu caro senhor! Dois povos 
diferentes 
aproximam-se por fim, porque se chega  concluso de que precisamos todos uns 
dos outros. Como se 
chamava o seu pai?
Forster olhou para Karsanov atnito.
- Anton Forster. Porqu?
- Esplndido! - Karsanov sorriu amigavelmente.  mais fcil falar em russo 
quando se sabe. 
Permite-me que lhe chame Werner Antonovitch? Eu sou Pal Viktorovitch! Nos 
prximos dez dias iremos 
aprender a estimarmo-nos ou a odiarmo-nos. Poder uma pessoa saber isso de 
antemo?
No comboio fechado acontecia j qualquer coisa de estranho.
Atravs de algumas frechas agitavam-se lenos ao vento e pedaos de papel 
rodopiavam sobre 
os carris.
Os milicianos ficaram inquietos, aproximaram-se das carruagens e bateram l com 
os punhos. 
Os ces puxavam pelas trelas e ladravam, mas os lenos no desapareciam. 
Continuavam a esvoaar 
pelas fendas at que dois milicianos arrancaram os lencinhos com o cano das 
metralhadoras.
- Veja aquilo, Pal Viktorovitch - disse Forster. - Aquele vago de mercadorias 
ali! H lenos a 
esvoaar nos ventiladores. Os vages tambm transportam pessoas. A est a 
explicao para a presena 
da milcia com os ces... Julgava que j no havia disto na Unio Sovitica!
- Olhe para outro lado, Werner Antonovitch - rosnou Karsanov.
O tom da sua voz tinha mudado de repente. Soava irritada e mais dura do que 
antes.
- Faz trs dias que discuti este assunto com outras pessoas, em Moscovo.
Forster apontou na direco do vago de mercadorias. Os milicianos continuavam a 
bater com 
a coronha das armas nos vages fechados e vociferavam ao mesmo tempo.
- "Diro Sakharov e Soljenitsine a verdade?", - perguntei eu. - Fao parte de 
uma gerao que 
no final da guerra tinha quatro anos de idade. O que os nossos pais nos 
contavam, o que mais tarde lemos 
nos livros era to inacreditvel, e depois o que nos ensinavam na escola... Quem 
 que tem razo? Quando 
Soljenitsine...
- No pronuncie esse nome! - interrompeu Karsanov de mau modo. Estendeu as 
pernas robustas 
e pestanejou, mal-humorado, olhando na direco do comboio e dos milicianos. - 
H sempre dois lados 
de se verem as coisas. Por um lado, pode ir-se a uma casa de banho e admirarem-
se as instalaes na mais 
perfeita higiene, por outro lado e, em comparao, diz-se apenas: cheira que 
tresanda! Ambos tm razo. 
Para qu negar? De facto, ali fora est um vago com inimigos do Estado. No  o 
dever de uma nao 
zelar pela ordem? Exterminar todo e qualquer comeo de desordem? A Unio 
Sovitica  um pas 
pacfico. Naturalmente que ainda h dificuldades por todo o lado... O que 
durante mil anos foi descurado, 
no se pode endireitar em cinquenta! Quem no consegue ver isto...
Karsanov levantou-se e abotoou o casaco do seu fato. As calas tinham tomado o 
formato dos 
joelhos, a fazenda estava amarrotada nas costas. Werner Forster olhou para ele 
de baixo para cima.
- Tambm h deportaes para campos de concentrao?

- No seu pas, os condenados so transportados em coches dourados, por acaso? A 
Rssia tem 
outras dimenses, por isso os meios de transporte tambm tm de ser diferentes.
Karsanov abandonou o compartimento.
Forster viu quando ele se apeou e atravessou a plataforma com passos apressados. 
Dirigiu-se a 
um quiosque para comprar limonada e pastis, encontrou-se com um funcionrio da 
estao e dirigiu-se-
lhe.
Devia ser um dilogo bastante extenso e desagradvel, uma vez que o empregado 
tirava o bon 
nervosamente e Karsanov gesticulava com ambos os braos.
Karsanov dizia de facto:
- Quem  o responsvel por esta porcaria? No olhem assim para mim com esse ar 
aparvalhado, 
camaradas! Ali daquele lado est um vago com destino  Sibria, bem  vista, 
para quem quiser ver! 
Est ali, como se sabe, desde que o transiberiano chegou cheio de estrangeiros! 
E ainda se admiram em 
Moscovo de que a propaganda do Ocidente tenha tanta repercusso. Uma porcaria  
o que isto ! Onde 
est o pessoal competente?
Via-se que ningum tinha competncia.
Karsanov foi com o empregado  cabina telefnica dos escritrios da estao para 
fazer um 
telefonema para o
guarda-via, para o chefe da estao, para o comandante da milcia e, por fim, 
para o responsvel local 
da KGB. Todos achavam aquela avaria um disparate, chegou at a ser considerada 
sabotagem - mas 
ningum se considerava responsvel. Quem quer que deixou o comboio dos 
deportados em frente do 
Expresso Transiberiano no se acusava.
Algum telefonou e deu uma ordem  qual todos os tcnicos obedeceram. 
Electrificaram-se os 
carris, a milcia desfilou e cortou o movimento de trfego e, meia hora antes da 
chegada do transiberiano, 
as portas dos vages abriram-se e distribuiu-se a rao.
Centenas de pessoas assistiram, mas como eram todas russas no deixaram 
transparecer 
qualquer reaco. Afortunado aquele que conseguisse livrar-se daquela estao.
Karsanov atendeu furioso.
- Isto  de pr os nervos em franja! - exclamou ele em voz alta. - Sempre a 
mesma coisa! Cambada 
de incompetentes! Saibam que vou participar do acontecido a Moscovo, camaradas. 
S me admiro como 
permitiram que acontecesse o que aconteceu naquele comboio, e tudo isto 
passivamente.
Pelo altifalante ressoou de novo a voz clara da Olga do traseiro gordo:
- Queiram embarcar todos os passageiros e fechar todas as portas! O Expresso 
Transiberiano 
vai partir dentro de momentos!
Karsanov apressou-se em voltar para a sua carruagem.
Saltou para dentro muito direito e Mulanov fechou a porta aps a sua entrada. O 
estalido da 
porta a fechar-se soou como um tiro e Karsanov irritou-se ainda mais.
- Ento informou-se, Pal Viktorovitch? - perguntou-lhe Forster assim que 
Karsanov se atirou 
para cima do banco estofado, completamente ofegante e mal contendo a fria.
O comboio deu um solavanco e depressa se ps em andamento silenciosamente ao 
longo da 
enorme estao de Gorki. O chefe da estao ps-se em sentido, assim que o vago 
nmero cinco passou 
por ele.
Karsanov apertou os lbios e ignorou o gesto fervoroso do empregado: "Camarada, 
deixe-me em 
paz! Sou apenas um funcionrio menor que deixa partir o comboio... "
- Para onde vai aquele comboio?
- Werner Antonovitch, temos de nos entender j que vamos conviver durante dez 
dias - replicou 
Karsanov
com uma calma forada. - Crimes existem em todos os pases. Na vossa Amrica 
exemplar h mais do que, 
somando, no mundo inteiro! E sobre essas pessoas nem sequer se discute. Estamos 
entendidos?
- Em princpio, sim, Pal Viktorovitch.

- ptimo. - Karsanov tentou um sorriso, que lhe saiu pouco convincente. - 
Fiquemo-nos pela Rdio 
Erivan e as suas piadas. Se bem que tambm nos d uma imagem completamente 
errada...
Forster recostou-se no assento. L fora as casas passavam rapidamente.
Imagens iguais em toda a parte, de quando um comboio deixa uma cidade.
E daqui a alguns minutos voltaria a ver-se a terra toda enlameada e uma 
infinidade de campos, 
bosques e florestas encharcados pela chuva...
- No seria capaz de deixar esta terra, pois no?. - inquiriu Werner Forster, 
enquanto procurava 
um mao de cigarros no bolso do seu casaco de peles.
- Nunca! Eu sou russo! - Karsanov esticou o queixo para a frente. - Para mim, a 
ptria  sagrada.
Passadas duas horas, Forster saiu do compartimento para ir ao vago-restaurante. 
Boris 
Fedorovitch Mulanov passou novamente por ele, enfiou a cabea pela porta 
entreaberta e perguntou se 
estava tudo em ordem.
Como no obteve resposta, fechou de novo a porta com um gesto rpido. Ento 
percorreu todos 
os compartimentos e ps-se ao p de uma janela do corredor.
"Que situao crtica", meditou ele. "O "paizinho" bondoso e o alemo! Quem 
diria?" Era 
preciso ficar de olho neles.
Suspirou e preparou-se para pr  prova os seus nervos de ao nos prximos dez 
dias.
Forster e Karsanov no haviam trocado palavra nas ltimas duas horas. Pal 
Viktorovitch lia um 
livro, cujo titulo era Os Heris do Rio Sombrio e descrevia a maneira como 
quatro corajosos gelogos 
preambulavam no deserto de Kamchatka e por l descobriram riquezas no solo. Era 
um livro interessante 
sobre a colonizao da Sibria.
Forster olhava pela janela. O Sol tinha-se descoberto por entre as nuvens; a 
terra alagada 
parecia agora menos inspita. As aldeias que se viam pelo caminho tinham um 
aspecto algo fantstico: 
cabanas de madeira com portas esculpidas e pintadas. Os telhados eram de colmo e 
cobertos de musgo, 
ou ento pregados com tbuas ou carto alcatroado e com pedras fortes para 
aguentar as tempestades 
outonais. A e cercadas de jardins, trabalhavam mulheres com enxadas e que 
olhavam de relance o 
comboio luxuoso  sua passagem. Os seus lenos de cabea agitavam-se ao vento; 
nos vestidos desbotados 
havia como que uns resqucios de raios de sol, como se fosse possvel adquirirem 
novas cores mais alegres.
- Sempre imaginei que a Rssia fosse assim - disse uma vez Forster, mas Karsanov 
no lhe deu 
qualquer resposta.
"Isto  outro atrevimento", pensou ele apenas. Aquelas cabanas brevemente iriam 
desaparecer, 
na sequncia de um plano elaborado com um prazo de dez anos, para darem lugar a 
modernas quintas 
com depsitos centrais para albergarem toda a maquinaria. Aquelas cabanas eram 
tpicas da Rssia! S 
um alemo poderia pensar desse modo.
A Rssia era para ele velhas cabanas, camponeses pobres, raparigas de seios 
fartos, balalaicas, 
caviar e vodca.
Karsanov continuava a ler, ofendido, e apenas observava Forster de vez em quando 
pelo canto 
do olho.
"Ele devora tudo com os olhos", observava Karsanov. Mas tambm no percebia que 
este pas 
gigantesco no podia ser igual  sua regio do Reno: casa por casa, rua por rua?
No caminho para o vago-restaurante, Forster chocou com uma mulher, que, de 
repente, lhe 
barrou o caminho. No reparou que ela se aproximava na mesma direco e o choque 
foi to forte que 
ele cambaleou, no conseguindo equilibrar-se. Espalhou-se ao comprido ao tentar, 
em vo, agarrar-se 
a qualquer coisa firme. Em consequncia disso, as suas mos tremeram e ele 
apoiou-se, embaraado,  
parede do corredor.

Dois seios enormes, redondos e firmes, moldavam-se a uma blusa fina, que mal 
conseguia encobri-
los e um rosto de uma beleza provocante e selvagem, emoldurado por uma massa de 
cabelos vermelho-
fogo, riu-se para ele.
- Perdo - disse Forster embaraado. - Devia estar quase a dormir. No tive 
inteno...
A mulher, com os cabelos flamejantes e os lbios grossos pintados de uma cor 
berrante, parou. 
Tapava o caminho com a sua figura impressionante.
Para uma senhora, estava vestida e pintada de uma maneira estranha; e do modo 
como ela ali 
estava, o seu peito volumoso sobressaindo, as pernas algo abertas, um largo 
sorriso no seu rosto redondo, 
mas ainda bonito, fez lembrar a Forster uma rapariga de conduta duvidosa, que 
esperava  porta de uma 
casa num porto ou espreitava pela janela e que, em vez de falar do tempo, 
discutia o seu preo.
- Mais um estrangeiro! - exclamou ela, e examinou Forster dos ps  cabea. Para 
uma russa, ele, 
com o seu fato feito por medida, devia parecer um milionrio. - Americano?
- No, alemo.
- Vai at Vadivostoque?
- Adivinhou.
- Uma longa viagem, meu caro senhor!
Ela respirou fundo e o seu peito chamou a ateno. No podia deixar de ser! 
Forster comprovou-o 
como um rbitro que valida um golo.
- Podemos falar sobre dormir...
- Como disse? - perguntou Forster, admiradissimo.
- Ainda agora mesmo o senhor disse que vinha a dormir no caminho.
A ruiva apoiava-se com os braos a ambos os lados da parede do corredor. Todo o 
seu corpo se 
adivinhava esplndido atravs do tecido fino: as linhas do corpo, as coxas, as 
ancas pareciam estar 
expostas.
- No se adormece em lado nenhum quando existem outras oportunidades. Eu estou 
no 
compartimento vinte e trs. - A mulher riu-se para ele e o seu rosto pintado, no 
qual se adivinhavam 
melhores dias pretritos, tornou-se cmico e trgico ao mesmo tempo - como uma 
mscara de palhao. 
- Meu caro senhor, tem marcos alemes? Tem dez por cento de desconto em relao 
ao rublo!
Forster compreendeu e o encontro comeou a tornar-se divertido.
- Talvez mais tarde - disse ele. - Agora tenho sede.
Encostou-se  parede e ela assumiu uma tal postura que o seu peito farto, de 
novo, se fez notar. 
Nisto, suspirou profundamente e o seu olhar adquiriu uma expresso triste.
- Tenho bebidas no meu compartimento.
- A senhora tem um compartimento s para si? - perguntou Forster.
- O que  que o levou a pensar isso, meu caro senhor? H l mais trs 
passageiros comigo: um 
casal e uma rapariga.
- Mas no pode ser... - cogitou Forster duvidoso. - A senhora no pode...
- De noite cada um tem a sua cama! - A ruiva passou as mos pelo peito com um 
gesto lascivo. - 
O casal dorme. So j pessoas de idade,  preciso que se note. E a rapariga? A 
quem  que incomoda? Ou 
dorme tambm, ou aprende alguma coisa com o que vir. Quem  que vai 
escandalizar-se com isso? 
Digamos, pelas dez horas? Vou tomar nota.
- No, de maneira nenhuma! - Forster empurrou-a ao sair. S a ideia de ela 
gostar de 
espectadores fez com que um arrepio lhe percorresse as costas. - Parece-me que 
no vamos fazer negcio!
- Ento, quando quiser, camarada, irei ao seu compartimento!
Forster pensou em Karsanov e abanou a cabea com uma gargalhada. Ps-se no lugar 
de Pal 
Viktorovitch como testemunha ocular e auditiva de uma aventura nocturna, 
absolutamente louca.
- O meu companheiro de compartimento  uma pessoa muito distinta - riu-se ele. - 
Mas pode 
sempre perguntar-lhe. Carruagem cinco, compartimento nmero trs. Talvez ele lhe 
leia qualquer coisa 
de Lenine.

- Esses so os piores! - considerou a mulher. Baixou o peito para Forster poder 
passar.
No vago-restaurante ele mandou vir um ch e uma garrafa de gua mineral. Depois 
voltou a 
contemplar a paisagem russa.
"A prxima estao  Kirov", pensou. "Depois Perm, o passeio romntico atravs 
das florestas 
dos montes Urales e por fim Sverdlovsk. A j era a Sibria, o porto para um 
gigantesco mundo novo, 
pouco dominado pelo homem: a taiga.
Sverdlovsk...
Werner Forster tirou os culos de sol do seu casaco. O primeiro dia da Primavera 
estava a chegar 
ao fim: o Sol ps-se, ofuscando com o seu brilho. O que  que o pai lhe contava 
sobre Sverdlovsk?
A central de detidos, o acampamento exterior que se espalhava por toda a regio. 
Encontravam-
se a perto de sessenta mil alemes de Estalinegrado...
Tinha curiosidade em saber como era aquela regio, na qual jaziam tantos 
compatriotas 
desconhecidos...
"Todas as guerras so crimes", dizia o seu pai. "Todas elas, meu rapaz! Morrem 
pessoas aos 
milhes sem saber porqu. Ser que, pelo menos, h uma explicao lgica para 
tal derramamento de 
sangue? E com isto o mundo tornou-se melhor e mais inteligente? Nem por sombras, 
antes pelo contrrio!
Os contrastes so ainda maiores e as ideologias ainda mais fanticas, como se o 
sangue se tivesse 
transformado apenas em estrume para que a loucura crescesse mais exuberante...
Forster bebeu o ch e meia garrafa de gua, comprou ainda uma sanduche de 
carnes frias - po 
escuro com chourio de fgado - e voltou para o seu lugar.
Pouco depois, e  medida que se aproximava, ouviu uma enorme algazarra. Uma 
mulher gritava 
e nos intervalos gritava tambm Karsanov. Assim que Forster entreabriu a porta 
do compartimento, a 
exuberante ruiva esbarrou com ele. J no se notavam vestgios dos seus ares 
marcadamente erticos, 
antes reagia como uma verdadeira megera. Os seus olhos enfurecidos faiscavam.
- Um malcriado, o seu companheiro! - gritou ela para Forster. - Um eunuco 
nojento! Ah, a sua 
companhia deve ser uma maravilha! Dez dias com ele e eu entrava para um 
convento! Venha ter comigo! 
Para irrit-lo no lhe cobro nada!
- Um escndalo! - berrava tambm Karsanov, depois de ter dado pela presena de 
Forster. 
Estava vermelhissimo e tinha os cabelos completamente desalinhados de raiva, tal 
como um co raivoso. 
- Estas putas so sempre insolentes! Veio at aqui, sentou-se  minha frente, 
abriu o casaco, de modo a 
que eu pudesse ver-lhe tudo at ao rabo e disse: "Ento, velhote, no ests 
impressionado? Aproveita, 
no queres?" E eu dei logo um salto e comecei a gritar: "Fora daqui, sua grande 
cabra!" E ela ainda 
respondeu: "No abuses, velhote! No voltes a gritar comigo se  que queres 
manter o emprego. " O que 
 que se faz numa situao destas? Isto  uma afronta!
Karsanov deixou-se cair no banco, extenuado, encostou a cabea  almofada, 
ofegando 
ruidosamente.
- Essas mulherezinhas deviam ser apedrejadas! - declarou ele mais tarde, quando 
a mulher saiu 
do compartimento a vociferar e depois de ter conseguido acalmar-se um pouco. At 
aceitou um trago de 
conhaque russo do frasco de viagem que Forster lhe ofereceu, o qual lhe fez 
visivelmente bem. - Esta puta 
 particularmente impertinente. As outras so mais afveis.
- Como assim, as outras? Ento h mais no comboio?
- Fao esta viagem trs vezes por ano, Werner Antonovitch. - Karsanov serviu-se 
outra vez do 
frasco de conhaque. - H sempre uma ou outra.
- Ento h sempre prostitutas a bordo?

- Do que  que voc estava  espera? - Karsanov encolheu os ombros. - Proibem-se 
quando so 
detectadas, e so logo multadas. No entanto, apesar de tudo isso, elas continuam 
a vir. J quase fazem 
parte do pessoal que trabalha no comboio. Desconfio de que o revisor recebe uma 
percentagem. Tambm 
isto  um escndalo! Mas v l uma pessoa poder prov-lo!  evidente que tambm 
vou participar desse 
burro, posso jurar-lhe! "Velhote", chamou-me ela. Tenho quarenta anos. Ento um 
homem com quarenta 
anos  um velho? Ser que pareo um velho jarreta? Ainda estou muito bem, Werner 
Antonovitch. Vou 
mandar prender essa maldita assim que chegarmos a Vadivostoque.
- E logo em Vadivostoque porqu, Pal Viktorovitch? - perguntou Forster.
- Ento voc acha que eu quero ser despedaado pelos outros passageiros? - 
respondeu 
simplesmente Karsanov. - Dez dias e dez noites  muito tempo...

Algures no caminho houve um atraso. Por que razo, nem sequer Mulanov teve 
conhecimento.
Entre Perm e Sverdlovsk o comboio parou num desfiladeiro, no meio dos montes 
Urales, e assim 
que puderam continuar a viagem, o horrio j estava to alterado que s chegaram 
a Sverdlovsk ao 
princpio da noite.
Mulanov sentia-se comprometido, pois tinha de informar os viajantes importantes 
da carruagem 
cinco e no sabia o que dizer. Presumiu que algum sinal tivesse ficado preso na 
neve. Viram-se 
efectivamente passar alguns grupos de trabalhadores, disfarados nos seus 
grossos casacos de Inverno, 
que mais pareciam fantasmas ao andarem para c e para l por sobre os carris.
Nos Urales estava-se de novo no Inverno. A regio encontrava-se coberta por uma 
grossa camada 
de neve. Aqui no havia indcios da chegada da Primavera; neste lugar, em pleno 
ms de Maro, ainda 
imperava o frio mais intenso.
Forster estava perto da janela, quando finalmente entraram em Sverdlovsk.
Karsanov dormia no seu banco desarmado e aberto, o qual se podia transformar 
numa bela 
cama, e ressonava.
Nessa primeira noite que passaram juntos, ele j se tinha antecipadamente 
desculpado:
- Eu tenho o hbito de ressonar, Werner Antonovitch. Quando se sentir 
incomodado, d-me um 
aperto, ao de leve, no nariz. Ou ento assobie ou emita um som claro e 
prolongado. Creia que isso ajuda 
muito! A minha mulher faz sempre isso. No sei porque  que esse mtodo resulta 
para quem ressona, mas 
assobiar sempre ajuda!
Forster assobiou de novo e voltou a apertar o nariz de Karsanov. Resultou na 
perfeio e uma 
vez em Sverdlovsk, j ele estava satisfeito, porque Karsanov dormia profunda e 
pesadamente.
Estava, pois, Forster entregue aos seus prprios pensamentos. Continuava a 
cogitar nas palavras 
de seu pai. E parece que o ouvia a contar:
"Em Sverdlovsk construmos dois depsitos de gua, tipo romano. Ainda l 
estaro? Chegmos 
mesmo a misturar no cimento sal e acar, porque uma vez ouvi dizer que isso 
fazia o cimento mais 
consistente. Seria verdade? Naquela altura acreditvamos em tudo. Meu rapaz, 
estive um ano em 
Sverdlovsk. Fizemos uma comparao minuciosa com todos os outros depsitos. 
ramos invejados por 
todos os batalhes. Alguns tinham a trabalhar para si, na construo da estao, 
brigadas de trabalho 
constitudas por mulheres russas. E os outros depsitos, como eram? Meu rapaz, 
havia dias em que j 
no era possvel cavar mais buracos no cho para enterrar tantos corpos. 
Sverdlovsk era assim! "
A estao estava quase vazia.
Encontravam-se ali apenas dois passageiros para o transiberiano, cansados de 
tanto esperar, 
enregelados. O pobre Mulanov foi insultado e, no fundo, era quem menos culpa 
tinha do atraso do 
comboio.
E ento Forster viu-a...

Ao princpio era apenas um vulto encoberto na sombra do grande quiosque fechado, 
to 
encostado  parede que a luz do candeeiro da estao no conseguia abrang-lo.
Primeiro, os passageiros embarcaram e uma voz, de um funcionrio igualmente 
cansado, fez soar 
no altifalante o habitual anncio "fechar as portas". Enquanto isso, o mesmo 
vulto solitrio fez-se notar.
Forster distinguiu uma rapariga esbelta, a cabea envolta num leno desbotado, 
que lhe chegava 
aos ombros. Usava um casaco comprido, pespontado, e um casaco de linho 
cinzento.
A jovem no tinha qualquer bagagem consigo. Correu apressadamente desde o 
quiosque atravs 
da plataforma at ao comboio e, ainda com a porta aberta, saltou para dentro de 
uma das carruagens 
de segunda classe.
No mesmo instante, Mulanov percorreu a carruagerm, empurrou a porta ainda aberta 
e levantou 
o brao. O comboio aproximou-se, o revisor saltou para dentro e soprou nas mos.
- Que frio! Que terra esta, a Sibria!.
No Inverno era preciso usar abafos - ;pele de urso e no Vero apetecia andar nu.
Ao voltar para o seu posto de trabalho, Mulanov passou pelo nmero vinte e trs.
Abriu a porta devagarinho e escutou. O casal de idade dormia; o lugar que a 
rapariga ocupava, 
em cima  esquerda, tambm estava silencioso. Porm, em baixo  esquerda, 
reinava a maior animao. 
A cama rangia e estremecia.
- Tudo em ordem, Kiaschka?
- Bom dia, Bons Fedorovitch! - A voz de Kiaschka soou algo lasciva, sem que os 
ruidos fossem 
interrompidos. - Para ti quinze rublos!
Satisfeito, Mulanov fechou a porta atrs de si. Ele ai'dava a poupar para 
comprar um carro e 
para um simples revisor isso no era muito fcil de conseguir...

Werner Forster saiu do seu compartimento sem fazer barulho e foi s apalpadelas 
ao longo do 
corredor fracamente iluminado at  carruagem de segunda classe. "Quem ser a 
rapariga?", meditava 
ele. Por que razo se escondeu ela e saltou para o comboio apenas no ltimo 
instante? Sem bagagem, 
vestida como se tivesse saido directamente de um campo de trabalho?
Onde estaria ela?
O alemo vira o rosto da desconhecida durante menos de um segundo. Os seus olhos 
enormes, 
embora matreiros, estavam cheios de medo. Um olhar que o queimou.
"Ela tambm me viu", pensou ele. "Deve ter-me avistado pela janela aberta e num 
acesso de 
desespero atirou-se para dentro do comboio.  claro que ela tambm me tinha 
visto - com um olhar que 
quase me despedaou! Como pode algum estar assim to desesperado! "
Continuando a tactear, alcanou a segunda classe e comeou sistematicamente a 
examinar todos 
os passageiros. Sessenta em cada compartimento.
Um concerto de dorminhocos: nuvens de respirao... Reparou em corpos todos 
torcidos nos seus 
lugares, crianas nas bagageiras e pessoas embrulhadas em mantas e sobretudos, 
deitadas no meio dos 
corredores das enormes carruagens. Viu um bbedo que arrotou a dormir. Notou 
igualmente num casal 
jovem que fugiu, assustado, cada um para seu lado, mal Forster olhou para 
eles...
"Quem ser a rapariga?", continuava Forster a martelar. "Onde estar ela? O que 
 que ter 
acontecido para que tivesse aquele ar assim assustado?"

Captulo segundo

Nem todas as pessoas que Mulanov conhecia, para alm dele prprio, se indagavam 
com 
frequncia por que razo esta viagem irreal de dez dias e dez noites tinha 
apenas um revisor. Considerado 
excelente, teve o privilgio de apertar a mo ao director da linha e s lhe era 
permitido tirar uma soneca 
de vez em quando. E sempre que algum precisava dele, Mulanov encontrava-se no 
seu posto. Tambm 
l estava sempre, mesmo quando no era necessrio.
Pelos vistos, no podia dormir, enquanto o seu comboio percorria um continente 
quase de ponta 
a ponta. Talvez fosse por isso que ele tinha sob a sua responsabilidade todas as 
carruagens, desde a 
nmero trs  seis. Eram consideradas as melhores carruagens com os passageiros 
mais importantes de 
todo o comboio.
Tambm por isso, Werner Forster encontrou Mulanov inadvertidamente quando 
regressava da 
sua busca nocturna s carruagens de segunda classe,  medida que ia tacteando as 
paredes da carruagem 
mal iluminada.
- Est  procura de alguma coisa, camarada? - perguntou Boris Fedorovitch 
amigavelmente.
Tinha-se posto  vontade: no trazia bon, desabotoara o casaco e abrira a 
camisa at  cintura.
As carruagens estavam agradavelmente aquecidas. Enquanto l fora o gelo fazia 
estalar os ramos 
das rvores, por aqui o suor corria pelo pescoo.
- No - retorquiu Forster, cansado. - Apenas me perdi. De repente, dei por mim 
na segunda classe.
-  um problema, camarada. Aquela segunda classe , de facto, um grande 
problema.
Mulanov abotoou os botes de baixo do casaco, para no estar completamente 
desmazelado 
perante um importante convidado do Estado.
Algum sabia, por acaso, qual era, na verdade, o seu papel? Um alemo que 
viajava na cabina 
reservada unicamente a altos funcionrios e generais - dava que pensar!
Talvez fosse algum poltico famoso da Alemanha Ocidental, ainda que no relatrio 
da central 
estivesse registado como "engenheiro".  possvel que as personalidades 
importantes viajem incgnitas, 
hoje em dia.
Nunca se saberia...
Uma boa informao sobre o revisor Mulanov s pessoas certas e estaria, 
provavelmente,  vista 
uma nova promoo.
- As pessoas esto para ali espalhadas, empestam a carruagem, comportam-se como 
rebanhos 
de carneiros e at ao fim da linha discutem umas com as outras e envolvem-se em 
brigas centenas de 
vezes. S se devia permitir que houvesse primeira classe neste comboio, 
camarada. E, por outro lado, 
deveria haver um segundo comboio para os camponeses e trabalhadores. No que 
sejamos 
discriminatrios, mas ser um favor que fazemos aos passageiros com menos 
cultura, junt-los num 
mesmo comboio com os outros mais instrudos? De forma nenhuma! Eles sentem-se 
inibidos, prejudicados 
nas suas vidas e  com certeza um tormento serem forados a comportar-se de uma 
maneira que para eles 
s existe nos livros!
Mulanov olhou para baixo, para o corredor, na mesma direco de onde tinha vindo 
Forster a 
subir.
- Precisou de alguma coisa, camarada?
"Isso no te posso dizer", pensou Werner Forster. "Procuro dois olhos 
amedrontados e 
esbugalhados de pnico. O comboio  comprido - mas hei-de achar a rapariga 
nalgum lugar..."
- Tinha ido ao vago-restaurante - respondeu Forster evasivo.
Mulanov admirou-se.
-  exactamente no lado oposto, camarada!  logo por detrs do vago quatro.
Forster sorriu de soslaio.

- Talvez j estivesse a cair de sono. Est algum no
vago-restaurante a estas horas?
- Fedja est sempre l. Os cozinheiros, no entanto, j esto a dormir h muito 
tempo. Uma pessoa 
tem de saber cozinhar, camarada. Num horrio de trabalho fixo, s  preciso 
saber pegar nuns tachos ou 
fritar qualquer coisa numa frigideira. Comem-se umas gorduras e ainda se ganham 
uns poucos rublos 
com isso.
O revisor Mulanov ps-se em movimento. Era seu dever acompanhar de volta os 
viajantes 
importantes aos seus compartimentos.
Forster seguiu-o. Por hoje dava a busca por terminada.
- Ouvi dizer que Kiaschka o importunou.  verdade?
-        indagou Boris Fedorovitch.
- Quem  Kiaschka? - replicou Forster de imediato. Estava a pensar na rapariga 
desconhecida 
que tinha saltado para o comboio como uma raposa assustada.
- Ora, ento no sabe, camarada? - Mulanov piscou os olhos.
- Aquela mulherona ruiva?
- Os passageiros reagem ao assunto de maneiras diferentes. O seu companheiro, 
Pal Viktorovitch 
ficou profundamente ofendido. Mas a maioria at gosta de usufruir de uns 
momentos de distraco. Entre 
Tjumen e Omsk, o percurso  aborrecido. S se avistam rvores. E entre 
Krasnoiarsk e Irkutsk  s 
floresta e mais floresta! Depois por detrs de Tchita, ao longo de Amur... 
podemos ver ursos sobre os 
carris que choram de solido, como se de gente se tratasse. Uma pessoa pode 
chegar a sentir-se 
melanclica, camarada, e por isso  que a K'aschka  necessria. Uma necessidade 
fisiolgica que se 
impe para afastar perturbaes psquicas. Posso, no entanto, cuidar para que 
ela no volte a entrar no 
seu compartimento.
- Agradeo-lhe.
Forster ansiava pela sua cama. A verbosidade de Mulanov complicava-lhe com os 
nervos.
"Ela no tinha qualquer bagagem", pensou ele. E a maneira como saltara para o 
comboio - at 
parecia que no tinha bilhete. Um passageiro clandestino a bordo do Expresso 
Transiberiano? Como  
que era possvel esconder-se?
Sob o olhar vigilante de Mulanov, isso parecia impossvel e alm do mais seria 
muito esquisito que 
o revisor no mencionasse qualquer rapariga com uma atitude to descarada: 
atravessar a Unio 
Sovitica sem bilhete...
No seu compartimento, Karsanov sentou-se na cama e mirou-se de mau humor. Usava 
um 
daqueles pijamas s riscas, tipicamente russo, que se encontra em toda a parte.
Karsanov deu por falta de Forster. Respirou aliviado quando, ao abrir a porta de 
correr, o 
revisor fez Forster entrar cortesmente.
- Ei-lo de volta, Werner Antonovitch! - exclamou Karsanov.
Esperou que a porta voltasse a fechar-se e que o revisor regressasse ao seu 
posto.
- Diga-me s isto: foi fazer uma visita ao quarto daquela mulher ruiva, no  
verdade? Uma 
tentao, temos de admitir, mas perigosa, muito perigosa! Gostaria de alert-lo 
em relao quela 
prostituta!  um erro chamar  sfilis a doena francesa,  antes de mais uma 
doena russa.  um facto 
histrico comprovado! Em mais lado nenhum h tantos idiotas e mutilados como na 
velha Rssia. Mas 
j est melhor, muito melhor! Varremos tudo com vassouras de ferro. Proibimos a 
prostituio, mas 
ainda existe clandestinamente; como a poderemos controlar? Como poderemos acabar 
com isso de vez? 
E vigaristas como esse Boris Fedorovitch ainda ganham com o negcio!
- Est preocupado comigo sem necessidade, Pal Viktorovitch.
Forster despiu-se, enfiou-se no seu pijama francs, para o qual Karsanov olhava 
atentamente. 
Podia ler-se nitidamente nos seus olhos que o russo pensava na decadncia do 
Ocidente.

Forster deitou-se na sua cama. No se tapou, porque o compartimento estava 
superaquecido. O 
ar era pesado e a transpirao de Karsanov cheirava a azedo.
- Voc  casado? - perguntou o russo de repente.
Forster fechou os olhos e pensou: "Cala-te, camarada.
Vi uma rapariga que no me sai do pensamento.
- No - respondeu ele apenas.
-E porque no?
- No tenho tempo para essas coisas.
- Os estudos e o trabalho so, por si s, tarefas da maior responsabilidade.
- Tem razo. Boa noite, Pal Viktorovitch.
"Ele est a esquivar-se", pensou Karsanov. "O que se passar com ele? Modificou-
se nas ltimas 
horas. Onde ter estado todo este tempo, se no esteve com Kiaschka?"
Tinha de perguntar a Mulanov. Ou ento...
Levantou-se de mansinho, vestiu um roupo de banho liso, azul, e saiu do 
compartimento, s de 
pantufas nos ps.
Boris Fedorovitch j tinha regressado ao seu lugar. Um bbedo na carruagem de 
segunda classe 
- a nmero trs - tinha armado confuso. Embriagado como estava, sentiu uma 
forte necessidade de 
urinar. Em vez de ir  casa de banho, como as pessoas educadas, ps-se no meio 
do caminho e 
indecentemente urinou para o cho onde estavam estendidas algumas crianas a 
dormir.
Da resultou uma enorme gritaria, os pais das crianas ficaram indignados. 
Ameaavam 
pancada... um deles at j estava preparado para atirar o bbedo para fora do 
comboio. Uma camponesa 
idosa gritava que se devia castrar o tal indivduo. "Mas teria sido realmente 
assim?", perguntou-se 
Mulanov.
Apaziguou os nimos  sua maneira.
Transportou o bbedo para o vago das bagagens e largou-o ali entre os 
arrumadores. Eram dois 
rapazes altos e robustos que at ficaram contentes com a mudana. Logo aps o 
fecho da porta, Mulanov 
ouviu-os a bater no bbedo, que gemia.
O revisor ficou satisfeito.
Nessa noite, que j ia longa, ainda aconteceu outra coisa estranha.
Karsanov vestiu o roupo por cima do pijama e acocorou-se para alcanar o 
aparelho de rdio 
e o telefone sem fios do compartimento do transiberiano, e distraiu-se a 
conversar com algum camarada 
em Moscovo. Enquanto isso, ia tomando apontamentos nas costas da ementa e 
terminou, por fim, com 
um rugido:
- Isso  bom. Desligo!
Mulanov sentou-se no canto do vago e mastigou um po com queijo. A acompanhar 
bebeu ch 
da sua garrafa-termo.
No se atreveu a dirigir a palavra a Karsanov; j sabia que o segundo homem do 
compartimento 
trs tinha falado para um escritrio em Moscovo. Tambm sabia que, como qualquer 
russo sem 
responsabilidades graves, no deveria tocar no assunto.
- O alemo anda a passear pelo comboio? - inquiriu Karsanov rispidamente.
Mulanov anuiu com a cabea e engoliu um grande pedao de po com queijo.
- Perdeu-se, camarada. Queria ir ter com Fedja ao
vago-restaurante.
- A esta hora?
- Queixou-se de garganta seca.
Karsanov terminou o interrogatrio ao revisor, j que se estava a tornar 
improdutivo, e levantou-
se.
As informaes de Moscovo eram insignificantes:
Werner Forster, engenheiro civil, tinha trinta e trs anos de idade, residente 
em Duisburgo, solteiro, 
politicamente neutro, no filiado em nenhum partido. Estava na Unio Sovitica 
como consultor tcnico 
efectivo na construo

do gasoduto. Encontrava-se de regresso a casa, no final do cumprimento da sua 
tarefa. Viajava no 
transiberiano, porque sempre o tinha desejado fazer. Nada o faria mudar de 
ideias e adquirira um bilhete 
especial de primeira classe...
Batia tudo certo. Era, portanto, um homem simptico e perfeitamente normal.
E, todavia, Karsanov tinha o pressentimento inexplicvel de que por debaixo 
daquela fachada 
calma e diplomtica existia um homem discreto, que precisava esconder-se, qui, 
nalgum canto 
desconhecido. E os seus pressentimentos nunca tinham falhado. Confiava tanto 
neles como num contador 
Geiger, que, na presena da mais infima partcula radiactiva, oscila e zumbe. E 
esse zumbido fazia eco 
no crebro de Karsanov, de todas as vezes em que ele pensava em Werner 
Forster...
- Quem mais  que viaja em primeira classe? - perguntou Karsanov,  porta.
Mulanov pousou o copo, pelo qual tinha estado, h pouco, a beber o ch.
Era, de resto, um ch aromtico com um ligeiro odor
a vodca. Se fizessem a Mulanov alguma pergunta relativa
a isso, ele respondia, sorrindo: "Primeiro desinfectei a
garrafa-termo... "
- Vinte e duas pessoas, camarada.
- So pessoas importantes, seu palhao?
Mulanov meditou sobre isso. "Ele chamou-me palhao", pensou indignado. "Diz 
estas coisas 
impunemente e no  justo! Bravo, corajosa Kiaschka, que lhe chamaste "velhote" 
na cara!"
- Um general - enumerou devagar Mulanov -, um membro do Comit Central e dois 
professores 
at Ulan-Ude. At agora, e para Vadivostoque, apenas vo dez camaradas; um 
pouco mais adiante, na 
carruagem nmero trs, vai um cantor de pera. Exercita a voz quatro horas por 
dia: duas de manh e 
duas  tarde. O general quer fuzil-lo, o mais tardar at Irkutsk!
Aqui tambm no havia nada de especial a assinalar. Karsanov interrompeu-o e 
voltou para o 
seu compartimento.
Forster fingiu que dormia, mas no parava de pensar na rapariga desconhecida. 
Era impossvel 
conseguir adormecer, quando no se podia afastar uma lembrana to suave e 
agradvel.
Era louco, mas comeou de novo a ver, em pensamento, o rosto da rapariga 
desconhecida. No 
com inteno ertica, antes pelo contrrio, apenas imaginava um retrato dela. 
Como seria ela sem o leno 
na cabea, sem o casaco de algodo e sem o casaco comprido e pespontado, sem as 
grossas meias de l 
e sem as resistentes botas de camponesa?
"Ela tinha um rosto magro, quase faminto", pensou Forster. O que tinha de maior 
eram os 
olhos... devia ter um corpo frgil e delicado, escondido sob as grossas roupas 
de Inverno, que lhe caam 
mal, como se tivessem sido compradas para outra pessoa. De que cor seria o seu 
cabelo?
Forster imaginava que ela fosse uma jovem que tivesse sempre tido muito pouco 
que comer e que, 
com os seus grandes olhos, via o mundo do qual apenas conhecia couves azedas, 
batatas pisadas, 
cevadinha espessa e, nos dias de festa, um tacho de requeijo com pepinos e 
beterraba.
Karsanov deitou-se na sua cama e esticou-se. Pigarreou vrias vezes na esperana 
de uma 
reaco por parte de Forster; mas como no surgia nenhum rudo da parte do seu 
companheiro, virou-se 
de lado e adormeceu.
No dia seguinte entraram na estao de Tiummen sob um sol radioso e dourado, que 
se erguia 
sobre as florestas cobertas por uma espessa camada de neve e as margens geladas 
e cintilantes do Nitza. 
Parecia um espelho forrado de prata.
Aqui a Sibria j era mais marcante. Viam-se, nas pessoas que estavam  espera 
na estao, 
grossos casacos de peles. Faziam lembrar gigantescas raposas ali paradas em p. 
Nuvens brancas de 
respirao pairavam sobre as suas cabeas e parecia que se transformavam em 
gelo.

Na plataforma, avistavam-se as peles de um homem encoberto por uma carroa. 
Vendia leite em 
pequenos pacotes congelados.
Karsanov tambm comprou um pacote de duzentos e cinquenta gramas para si e 
colocou o saco 
de plstico em cima do aquecimento.

H trs dias que Forster vagueava pelo comboio sem ter conseguido ainda achar a 
rapariga.
A aventura desta viagem nica, a realizao do seu sonho de juventude, 
transformou-se na 
obsesso de apenas querer descobrir a desconhecida.
Pelas janelas passava - na sua plena e majestosa invernia - a taiga; pararam em 
Omsk e 
Novosibirsk, em Anshero-Sudschensky e Krasnoiarsk...
Nomes que estavam enraizados na imensido da regio h j um sculo e ao serem 
pronunciados, 
engasgavam as pessoas: voluntrios e deportados, colonizadores e aventureiros, 
comerciantes e cossacos, 
tcnicos e caadores.
Dia aps dia, noite aps noite, Forster ficava mais inquieto.
J conhecia todos os cantos do comboio,  excepo do vago das bagagens e da 
locomotiva.
Onde mais  que uma pessoa podia ainda esconder-se?
No havia muitas mais hipteses a considerar que Werner Forster no tivesse j 
procurado 
saber.
Karsanov observava estas excurses com desconfiana.
- Que tanto tem voc especificamente que andar por a a fazer, Werner 
Antonovitch? - indagou 
ele no terceiro dia, ao anoitecer. - Isto aqui  um comboio e no um complexo 
desportivo. Quando sentir 
necessidade de correr, sempre pode percorrer a Sibria a p!
- E eu admiro a sua calma, ficando para a sentado!
- retorquiu Forster. - -me impossvel estar o dia todo num lugar. Se no fao 
movimento, enferrujo. 
Voc, como est habituado a trabalhar sentado a uma secretria, naturalmente no 
nota diferena.
No era raro que Forster, nos seus passeios frequentes, esbarrasse com a ruiva 
Kiaschka.
Ela fazia bons negcios, pois os homens do transiberiano tinham sempre - 
abenoados! - as mos 
largas.
O tdio comeou a tomar conta de Forster, porque sempre que olhava para a 
floresta coberta de 
neve, via rios gelados, desfiladeiros profundos ou regies pantanosas desoladas. 
Tudo isto, mergulhado 
na mais espessa neve, produzia o efeito da imagem de mesas cobertas de branco, 
sobre as quais os 
arbustos pareciam migalhas; a isso no conseguia resistir um russo patriota sem 
bocejar.
Feliz aquele que podia pagar a uma mulher como Kiaschka! Meia horinha por cinco 
rublos. Era 
um preo razovel para um trabalho honesto.
- O senhor ainda  um belo homem - afirmou Kiaschka a Forster, na terceira 
noite. Encontraram-
se no corredor a caminho da carruagem cinco, em cujo compartimento nmero trs, 
um gelogo j tinha 
explorado o corpo de Kiaschka e depois de satisfeito e saciado, ressonava. -  
raro encontrar algum 
como voc. Mas os camaradas responsveis pela linha fecham-no a sete chaves, 
como se voc fosse feito 
de ouro. Um alemo genuno e livre no transiberiano , de facto, para ns uma 
pedra preciosa. Por que 
 que eu no lhe agrado? No d ouvidos a Karsanov; aquilo  um homem seco que 
est de mal com o 
mundo inteiro.
Forster hesitou.
Ento meteu a mo no bolso, tirou um mao de cigarros e estendeu-o a Kiaschka. 
Eram cigarros 
americanos e os olhos pintados de Kiaschka comearam a brilhar. O seu rosto 
maquilhado, emoldurado 
pelo cabelo vermelho-vivo, adquiriu uma expresso algo infantil.
- Americanos! - exclamou ela dando estalidos com a lngua. - Posso fumar um?
- vontade.

Fumou meio cigarro em silncio, expelindo enormes e sfregas baforadas. O seu 
rosto revelava 
a mais completa felicidade. Saboreou aquele cigarro com um prazer mais
evidente do que qualquer homem. Para ela era realmente um prazer, para os outros 
era um vcio.
Forster observava-a.
"Ser que posso arriscar?", pensou ele. "Ela  uma mulher e tem corao... no  
preciso mais 
nada para falar desse segredo."
- Vem comigo - convidou Kiaschka, assim que acabou de fumar o cigarro at ao 
fim, desta vez 
mais devagar, aproveitando cada milmetro de cigarro consumido.
- Tu s um bom homem. E aos bons homens eu no cobro dinheiro.
Com os seus olhos escuros e expressivos, ela contemplou Forster com tristeza. 
Aquele vestido e 
aquela maquilhagem no combinavam com Kiaschka.
- As boas pessoas so raras, alemo. A vida , na verdade, como uma latrina, da 
qual alguns se 
servem e outros se agacham e recebem, por seu lado, o que sobra. Eu sempre 
estive por baixo. J me 
prenderam dezenas de vezes e eu no trato mal os homens que me procuram. Agora  
este Karsanov que 
j me ameaou mais de uma dzia de vezes mandar-me prender em Vladivostoque e 
isto porque Boris 
Fedorovitch me denunciou. Mas eu vou pregar-lhe uma partida! Em Chabarovsk deso 
e regresso a 
Moscovo no prximo transiberiano. Ah! Como ele vai ficar furioso, o lindo 
camarada! Vem, meu 
querido...
Pegou na mo de Forster, mas ele encostou-se  parede e ficou quieto.
- Kiaschka - disse ele devagar e com cautela e a sua lingua comeou a ficar 
estranhamente pesada. 
- Voc confia em mim... tambm posso confiar em si?
- Eu sou um tmulo! Cega, surda e muda.
- Estou  procura de uma pessoa...
- Aqui no comboio?
-Sim.
- Como assim? Essa pessoa desapareceu?
-  uma histria muito esquisita, Kiaschka.
Esperou, at que ela apagasse o cigarro americano. Ento deu-lhe o mao e ela 
meteu-o dentro 
da blusa entre os fartos seios.
Kiaschka riu-se em voz baixa. Acariciou Forster e pousou ambas as mos no seu 
peito. Nesse 
instante, parecia uma rapariga alegre, coquete e agradvel, com os seus cabelos 
pintados de vermelho.
- Obrigada. Como te chamas?
- Werner Antonovitch - respondeu Forster.
- Bonito nome. Gosto de ti, Werner Antonovitch. Isto no  nenhuma transaco 
comercial...
-        Eu sei, Kiaschka. Procuro uma rapariga...
O        brilho nos seus olhos extinguiu-se, como se se tivesse apagado um farol.
-        Prometeste-me que podia confiar em ti - disse Forster num pice.
-        Quem  ela? - quis saber Kiaschka.
- No sei. Por isso mesmo  que estou  procura dela. Tem de estar algures neste 
comboio, mas 
ainda no descobri onde.  uma rapariga com um casaco pespontado e um casaco 
acolchoado de linho 
cinzento desbotado, meias de l e botas de camponesa fortes. Uma rapariga magra 
e a roupa fica-lhe 
demasiado grande.
- No pode estar no comboio, Werner Antonovitch. Kiaschka conhecia cada 
carruagem, cada 
compartimento, assim como todas as pessoas que ela logo cumprimentava com 
amabilidade.
Por que razo no havia de ser simptica para com os outros camaradas? Uns 
jogavam  malha, 
outros s cartas e tambm Kiaschka os ajudava a passar o tempo. Uma mulherezinha 
valente - s os 
hipcritas ainda mantinham as calas vestidas...
- Ela tem de estar no comboio! Saltou c para dentro em Sverdlovsk, assim que 
nos 
preparvamos para partir!
- Ento no tem bilhete?

- Presumo que no. Em todo o caso, no tem bagagem.
-        Deve ser muito especial, para Mulanov ainda no ter dado com ela - aprovou 
Kiaschka. 
- Vamos pensar, Werner Antonovitch. Onde se esconde uma pessoa num comboio? Na 
casa de banho. 
Mas a h sempre gente a
entrar e a sair e  espera... a  muito perigoso! Debaixo de um banco, em 
segunda classe? A haveria 
muita gente a saber e tambm seria perigoso. Muitos olhos postos num lugar: 
seria muito arriscado! 
Ento onde poder ela estar? E qual  o teu interesse em encontr-la?
-        Isso tambm eu gostaria de saber.
Forster agarrou, sem cerimnia, no peito de Kiaschka. Tirou de l o mao, 
acendeu dois cigarros, 
meteu um entre os lbios de Kiaschka e enfiou, outra vez, o mao entre os seus 
voluptuosos seios.
- Ela viu-me, tenho a certeza, a por... um segundo, antes de desatar a correr e 
atirar-se para 
dentro do comboio. Foi um breve instante, menos de um segundo, mas abriu um 
buraco no meu corao, 
que me queima. s capaz de entender?
-        Claro, Werner Antonovitch. - Kiaschka fumava, de novo, apressada, e 
expelia o fumo de 
encontro ao tecto abaulado da carruagem. - Apaixonei-me trs vezes na minha 
vida. Quando os homens 
sabiam como eu ganhava o meu dinheiro, abandonavam-me.
-        Nunca me apaixonei! - declarou Forster em voz alta.
-        Que mentira mais infame, Werner Antonovitch!
-        Eu nem a conheo.
-        Ela deixou um vazio que arde no teu corao, s com um olhar. Isso j  
suficiente!
Kiaschka afastou-se da parede, apertou ainda mais o mao de cigarros com os 
dedos entre os 
seios, e fez sinal a Forster com a cabea.
-        Vou procur-la, meu querido. Se a encontrar, cuspo-lhe em cima, dou-lhe 
umas bofetadas 
e ento trago-ta. Ela  que tem a culpa de tu no quereres nada comigo...
-        Dou-te cem rublos se no lhe tocares.
-        E eu dou-te duzentos para tu me tocares. A vida  to estpida e tambm 
aquilo a que 
chamamos corao. Vai dormir, meu querido...
Afastou-se:        uma montanha de carnes firmes, e Forster observou como eram esguias 
as pernas 
comparadas com as ancas salientes e as curvas pronunciadas do traseiro.
No compartimento, Karsanov ressonava to alto como se a taiga e toda aquela 
regio agreste o 
estimulassem.
Aquele quadro coberto de neve que se via da janela, representando o imenso e 
gelado mar, era 
concludente. Forster comprimiu a testa quente de encontro ao vidro e olhou l 
para fora, para o plido 
gelo da noite silenciosa, que despertava com os apitos e os ruidos do 
transiberiano.
"Esta Rssia grandiosa", pensou Werner Forster. "Esta Sibria eterna! "
Como  que costumava dizer o seu pai?
S se precisava de consultar o mapa para perceber quantas loucuras se tinham 
cometido desde 
h mil anos. Isto j no  um pas... isto  um mundo dentro do prprio mundo, 
como aquelas bonecas 
russas to conhecidas e coloridas, umas dentro das outras...
Ao fim de meia hora, o alemo j no aguentava as ressonadelas de Karsanov. 
Voltou 
silenciosamente para o corredor, a fim de tentar encontrar a rapariga de 
Sverdlovsk.
Passou pelo posto de trabalho de Mulanov, cuja porta estava aberta, mas - oh 
espanto! - Boris 
Fedorovitch dormia! Estava deitado no banco, com as mos postas em cima da 
barriga e assobiava pelo 
nariz, enquanto dormia.
Tambm estava tudo silencioso no compartimento de Kiaschka.

Todo o comboio estava na penumbra. As luzes de presena dos corredores difundiam 
uma luz 
francamente depressiva. O barulho das rodas enervava-o e incomodava-lhe o 
crebro.
Werner Forster percorreu carruagem por carruagem.
De repente viu-a. Estava no vago dois, da segunda classe, numa daquelas 
carruagens enormes, 
na qual dormiam sessenta pessoas e as crianas estavam espalhadas pelo meio dos 
corredores.
Nesta carruagem no havia bbedos a incomodar as
pobres criancinhas, mas em compensao havia trs camponeses que iam a um 
casamento em 
Tcheremchovo. Levavam quatro galinhas num cesto de verga e um caixote com 
respiradouros, onde 
transportavam um leito. Quem podia impedir de levarem tudo aquilo como presente 
de casamento? No 
os entregaram no vago das bagagens, como lhes disseram, porque tinham de pagar 
muito pelo depsito 
e no podiam esbanjar. E era de tal maneira inexplicvel o que pediam por tais 
coisas! Eram apenas 
galinhas, porcos, coelhos e patos vivos.
Portanto no havia no vago nmero dois um odor a urina, mas em compensao o 
compartimento aquecido cheirava como um estbulo.
Esse vago tambm ia at Irkutsk - a deixaria de fazer parte da composio: 
seria desatrelado.
Forster encobria-se na sombra perto da porta, quando, de repente, distinguiu um 
vulto agachado, 
furtivo, que surgiu da escurido. Deslizou silenciosamente sobre as crianas que 
estavam deitadas, 
curvou-se por cima das pessoas que dormiam e uns dedos pequenos e rpidos 
aproveitaram a ocasio.
Aqui agarravam numa coisa, ali noutra. Depois aquele vulto deslizou de novo, to 
silenciosamente 
como se tivesse asas. Comprimiu-se de encontro aos corajosos camponeses, remexeu 
no cesto das 
provises e apanhou, a toda a pressa, o que fosse comestvel.
Forster ficou muito quieto.
Aquela grande sombra tornava-o quase invisvel, e ele ficou como uma esttua. 
Esperava que ela 
viesse para mais perto e analisasse  vontade a fila de bancos ao p dele...
O pequeno vulto voltou a mover-se. O casaco fazia um barulho muito tnue ao 
roar novamente 
pelas crianas adormecidas no meio do corredor...
Forster no conseguia ouvir nada, s podia imaginar que ela rastejava 
suavemente, porque 
quando sessenta pessoas adormecidas respiram, pode at danar-se com castanholas 
que ningum d por 
nada.
Ento ela passou por ele.
Forster aproveitou logo a oportunidade para lhe agarrar na mo estendida e 
puxou-a para si de 
um golpe.
Ela no gritou. Defendeu-se calada, com um desespero feroz, mordeu a mo de 
Forster, deu-lhe 
uma canelada, tentou dar-lhe uma joelhada no baixo-ventre, mas ele foi mais 
hbil. Forster conseguiu 
esquivar-se-lhe sempre; agarrou-a outra vez e
apertou-lhe os braos de tal maneira contra o corpo franzino e trmulo, que lhe 
faltou o ar. A sua cabea 
virou-se para trs, a sua boca pequena estava aberta e a sua resistncia 
diminuiu... A rapariga respirava 
com dificuldade e estava pendurada pelos braos, vencida e num total abandono. 
Apenas o estremecer 
do seu corpo se tornou mais forte, quase como uma convulso.
- Esteja quieta - segredou-lhe Forster. - No tenha medo! Venha comigo!
Ela sacudiu a cabea, calada, e ergueu os punhos cerrados na direco do nariz 
dele.
Forster atirou com a cabea para trs, mas o golpe desferido por ela passou 
rente ao queixo e 
acertou-lhe no pescoo.
A rapariga tinha mais fora do que se podia julgar de um corpo to franzino e 
Forster voltou a 
precisar de todas as suas foras renovadas para domin-la. S ento conseguiu 
arrast-la para fora da 
grande carruagem para o patamar do vago, na esquina entre a porta exterior e a 
casa de banho.
A desconhecida endireitou os ombros e olhou-o.

Foi outra vez o mesmo olhar, aquele desespero nos olhos que comoveu Forster 
profundamente.
"Ela reconheceu-me", pensou ele. "Durante trs dias
e trs noites esteve apavorada que eu a encontrasse. Fui o
nico que a viu, na estao de Sverdlovsk, quando saltou
para o comboio. "
Era isto que dizia o seu olhar. Estava tudo muito claro
-        escrito nos seus olhos.
De repente, ela comeou a chorar.
Foi to inesperado que Forster estremeceu quando a cabea estreita se afundou no 
seu peito e os 
cabelos negros roaram o seu rosto. Os braos dela, delgados e marcados pela 
fome, oscilavam ao longo 
do corpo, como se ali no pertencessem.
Forster passou o brao  volta dos ombros dela, que tremiam, desta vez com uma 
ternura 
hesitante, e acariciou-lhe as costas com a outra mo.
E assim ficaram os dois durante um bocado, sem trocarem uma palavra, apenas 
abraados.
A rapariga continuava a soluar, comprimindo o rosto de encontro ao peito de 
Forster, e ele 
sentia as lgrimas a molharem-lhe a camisa, atravessando o tecido e tocando-lhe 
a pele.
E ento, de repente, assim como tinha comeado a chorar, tambem deixou de o 
fazer e levantou 
a cabea. O rosto molhado brilhou como uma luz fraca reflectida num vidro branco 
e fino. Os olhos dela 
eram como dois buracos negros, ardendo na face cintilante e lisa...
- Quando me entregar  milcia em Irkutsk vai ser a minha morte - disse ela 
ento muito calma.
A sua voz era juvenil, mas ao mesmo tempo plena de energia. Nada pediu e no 
choramingou - 
era quase um desafio: Decide-te! A vida ou a morte para mim! Forster respirou 
fundo.
- No vou entreg-la  milcia - declarou.
Ela ergueu as sobrancelhas finas ao ouvi-lo falar. "Naturalmente pronunciei 
alguma coisa mal, 
neste maldito russo que aprendi na escola", pensou Forster. "Que coisa estranha! 
E eu que fiquei to 
orgulhoso quando recebi o diploma, no qual estava escrito "muito bom". Alguma 
palavra deve ter tido 
uma pronncia horripilante.
- O senhor  estrangeiro? - perguntou a rapariga.
- Sim. Sou alemo.
- Um alemo! - Ela arriscou um sorriso tmido, mas quase de imediato esse 
impulso desapareceu-
lhe do rosto.
- Se o senhor no fizer nada, faz o revisor.
- A menina no tem bilhete? - perguntou Forster, sentindo-se idiota.
Os olhos dela no ofereceram resistncia... ele procurava as palavras certas, 
mas era como se 
andasse s voltas numa sala vazia.
- No. Mas isso j o senhor sabia. Percebeu logo, assim que eu saltei para o 
comboio.
- Reconheceu-me?
- No esperava que estivesse algum  janela, assim to tarde. De repente vi-o. 
Mas nessa altura 
j era tarde de mais...
-        Pretende viajar atravs da Unio Sovitica sem bilhete?
- Eu no tenho destino... Talvez desa entre Irkutsk e Tchita, se o senhor no 
me denunciar...
-        Saltar com o comboio em andamento! Isso  uma loucura!
- Nessa altura estar a andar mais devagar.
Ela afastou os cabelos negros da testa. O seu rosto tinha feies correctas e 
era de uma beleza 
enigmtica. Era uma mistura entre as feies asiticas e europeias.
- s vezes at pra, por causa da neve, sabe. Chega a atingir alguns metros de 
espessura. A 
tempestade arrasta-se da Monglia at aqui e, por isso, a neve bloqueia a linha 
frrea e a sinalizao. 
Torna-se muito fcil saltar. E ento ningum me pode apanhar nem perseguir... j 
estaria a percorrer a 
taiga e o comboio tambm tem de prosseguir a sua marcha.

- E depois? - quis saber Forster.
Ele continuou a envolv-la e acariciou-lhe as costas. Forster no se aproveitou 
da situao e ela 
tambm no procurou impedi-lo.
-        Depois? - Ela olhou-o de frente, como uma presa fita um caador. - Eu 
quero viver. Mais 
do que isso no desejo...
- E por que razo fez tudo isto?
- Como posso contar-lhe? - Fitou-o e teve um movimento impaciente. - Deixe-me em 
paz, por 
favor. O revisor no tarda... e ai e a minha desgraa! O senhor, de certeza, no 
vai querer isso!
- No! Nunca! - Forster no a largou quando ela tentou fugir. - Procurei-a sem 
cessar. Desde 
Sverdlovsk que percorri o comboio inteiro, dia e noite.
- No me teria encontrado se eu no tivesse tido fome.
Ela bateu contra o casaco comprido e pespontado. Era um casaco fino, daqueles 
que sempre 
usaram os reclusos... tinha grandes algibeiras, nas quais cabia tudo o que se 
quisesse comer, quando se 
estava necessitado.
- Gostaria de ajud-la - declarou Forster. A sua garganta estava seca. - Um 
destes dias 
descobrem-na, tal como eu tambm a apanhei. Temos de pensar noutra soluo. A 
mais fcil e mais 
ousada seria esta: venha comigo para o meu compartimento!
- Isso  impossvel! - Ela arregalou os olhos para Forster horrorizada. - O 
revisor...
- Perguntaremos a Kiaschka. Ela dar-nos-, de certeza, um conselho.
- Quem  Kiaschka?
- A prostituta do transiberiano. Ela conhece bem todas as situaes. No! No se 
v embora.
Foister deteve-a quando ela quis partir apressadamente.
- Se Kiaschka no descobrir uma soluo, ento pode voltar para o seu 
esconderijo. Prometo-lhe.
Forster segurou-lhe nas mos sem saber por que o fazia. De repente inclinou-se 
para a frente e 
beijou-lhe os dedos contrados.
- Chamo-me Werner Antonovitch Forster - disse ele em voz baixa.
- E eu Milda Tichonovna Lipski...
- Milda... - Beijou-lhe a outra mo e sentiu-se feliz, como nunca se tinha 
sentido em toda a sua 
vida. - Que bonito nome, Milda...
Sem resistncia, como uma criana que se leva pela mo, ela foi com ele para a 
carruagem de 
primeira classe.
Kiaschka ficou de mau humor quando Forster a acordou. Encontrava-se deitada numa 
cama 
estreita, um pouco enroscada e exausta do seu trabalho. Estava j a sonhar com 
uma pequena casinha 
nos bosques de Perenilko.
Kiaschka sonhava com Perenilko quase todas as noites, desde que tinha visitado 
uma amiga que 
morava l. Lydia Petrovna, assim se chamava a prostituta, que era menos bonita e 
atraente. Era mais alta 
do que Kiaschka e tinha um rosto comprido. Havia conseguido comprar a casa de 
campo com a ajuda 
de amigos ricos e tambm com a vida de artista que levava.
E desde ento esse era o grande objectivo da vida de Kiaschka...
Efectivamente, Lydia Petrovna considerava-se uma artista, o que lhe garantia, na 
Unio 
Sovitica, um tratamento especial e benvolo - principalmente por parte das 
autoridades.
Para demonstrar a sua arte, Lydia Petrovna comeara por pintar quadros 
horrorosos, mas que, 
apesar disso, tinham sido aceites. Ao que parece, foram considerados como 
fazendo parte de um estilo 
dito moderno. Em todo o caso, esta tal Lydia levava uma vida muito razovel. J 
no precisava de andar 
pelos comboios ou de procurar clientes nos trios dos hotis. Era sustentada por 
trs homens ricos e 
influentes e isso chegava-lhe perfeitamente.
Perenilko! Florestas de btulas e um rio lmpido, alguns lagos naturais com 
cisnes selvagens e  
noite, pela janela,
viam-se as coras a passar... Este era o culminar de uma carreira!

Kiaschka tinha no s uma vontade de ferro como tambm a esperana reforada de 
um dia vir 
a tornar-se vizinha da sua amiga Lydia Petrovna.
No entanto, Kiaschka no queria pintar, mas sim esboar desenhos de moda. Apesar 
de haver, 
na Rssia, poucas esperanas nesse campo de trabalho, ele era considerado 
artstico e isso bastava.
- Calma! - exclamou Kiaschka, meio adormecida, enquanto Forster no parava de 
aban-la. - O 
estabelecimento est fechado! No sobrecarreguem a mquina, camaradas!
- Kiaschka, acorda! - pediu Forster, meio  socapa.
-        Sou eu, Werner Antonovitch.
- Despe-te e deita-te. - Automaticamente, ela chegou-se para a parede e deixou-
lhe um espao. - 
Por que  que vieste mesmo no final da noite, meu querido...
Forster sacudiu-a outra vez com ambas as mos,
afastando-lhe, por completo, o cabelo ruivo do rosto.
O claro fraco que penetrava no compartimento, proveniente da luz de presena do 
corredor, 
permitia precisamente que aquele lugar iluminado deixasse adivinhar o seu rosto.
- Encontrei-a, Kiaschka. Acorda, mulher!
- Encontraste quem?
- A desconhecida de Sverdlovsk.
Forster sentou-se na borda da cama e puxou a cabea de Kiaschka para si.
A rapariga espreguiou-se, suspirou profundamente e enlaou a cintura de 
Forster. Ele percebeu, 
ento, que por debaixo da coberta de linho ela estava nua. Tinha uma pele firme, 
lisa e quente, sem 
vestgios de gorduras e um corpo robusto. Ele retirou a mo de imediato.
- Precisamos da tua ajuda, Kiaschka.
- Ah! Ento apanhaste o passarinho?
A prostituta do transiberiano parecia ver melhor no escuro do que o alemo. 
Ergueu-se, levantou 
a mo rapidamente e deu a Milda uma bofetada demasiado pesada.
- Tal como o prometido! - afirmou Kiaschka. - Isto  porque ele est sempre a 
pensar em ti e em 
mim nem repara! - De seguida perguntou, na sua evidente exuberncia, soerguendo-
se, sem vergonha, na 
almofada: - Afinal o que  que vocs querem de mim, h? Querem que a esconda 
dentro da minha cama?
- Qualquer coisa parecida, Kiaschka.
Forster empurrou Milda para jundo de Kiaschka.
Sentaram-se ao lado uma da outra, como galinhas no poleiro. Em frente dormia o 
casal idoso, 
respirando ruidosamente, e por cima deles, a jovem suspirava a dormir. Ela era, 
viera Kiaschka a saber, 
secretria de administrao e viajava at Irkutsk para se apresentar no seu novo 
local de trabalho.
- No sei onde  que ela se pde esconder, mas olha-a bem. Est quase a morrer 
de fome. Andava 
devagariinho pelo comboio e apanhava tudo o que se pudesse comer.
-  verdade - respondeu Milda baixinho. - No se incomodem por minha causa. 
Acima de tudo, 
longe de mim coloc-los em perigo.
- Parece razovel. Ela  mais esperta do que tu, Werner Antonovitch. - Kiaschka 
afastou o cabelo 
ruivo da testa com os dedos esticados. - Donde  que tu s, avezinha?
- Chamo-me Milda Tichonovna...
- E queres ir  borla para a Sibria? Vais ter com algum homem, no  verdade? 
Engenheiro ou 
gelogo? E ele mora onde? Estas prostitutas jovens... atravessam meio mundo, 
porque anseiam por uma 
cama aquecida! Quando Bons Fedorovitch te descobrir...
- No! Isso nunca...
- No vai ser possvel evitar - retorquiu Kiaschka em tom seco.

-  preciso achar uma maneira de ela poder ficar no meu compartimento. - Werner 
Forster ps 
o brao  volta dos ombros de Milda. Sentiu como ela ainda tremia.
Milda no se afastou, no lhe retirou a mo dos ombros. Em vez disso, encostou-
se a ele 
completamente esgotada.
Um sentimento de felicidade invadiu-o, uma sensao de calor at agora 
desconhecida fez o seu 
corao bater mais forte.
- Se eu, mais tarde, comprasse um bilhete para Milda...
- Onde  que julgas que ests? - Kiaschka riu baixinho, mas foi um riso amargo. 
- Julgas que ests 
num rpido para Colnia ou Paris, ou qu? Em que podes sentar-te e dizer: 
"Revisor, quero mais um 
bilhete de primeira classe para Vadivostoque"? E Mulanov sacava do seu livrinho 
de apontamentos e 
inscrevia o nome dela! No  assim to fcil! Ele vai querer saber donde vem 
Milda e a razo por que ela 
est sem bilhete. Qual a razo de um ratinho esfomeado viajar clandestinamente 
atravs da taiga? E 
ento ela diz o qu?
Kiaschka puxou Forster para o lado e olhou para Milda.
-        Afinal tu vens de onde?
-  uma longa histria, Kiaschka.
-        Guarda-a para ti! No quero nem saber.
Kiaschka apoiou a cabea nas mos e meditou muito sobre o assunto. O seu corpo 
branco era 
uma mancha ardente na enorme escurido.
- H uma possibilidade - disse, por fim. - Mas ser que ela estar apta a 
participar?
-        Claro, Kiaschka. Se Milda ajudar...
-        Pela lgica  imoral! - esclareceu Kiaschka filosoficamente. - Leva Milda 
para o teu 
compartimento, Werner Antonovitch, e explica a Mulanov, quando ele aparecer, que 
ela  uma colega 
minha. Da nova gerao, percebes? Eu ensino-a!
-        Ser que ele acredita?
- E porque no? Bons Fedorovitch vai ser forado a acreditar quando ela lhe 
entregar a 
percentagem. O dinheiro convence sempre! Vinte por cento  a taxa destes 
gatunos! Vai custar-te um bom 
dinheiro, Werner Antonovitch!
- Milda vale qualquer esforo.
-        Ouviste, meu cisnezinho? - Kiaschka riu de novo.
- Vai ser uma prova de fogo! E o que  que vais dizer ao teu companheiro de 
viagem, Pal Viktorovitch? 
No confio nele.
-        Ele tem de acreditar no que Mulanov acreditar.
Forster puxou Milda para si. Esta sentou-se muito quieta, algo sucumbida e 
curvada, e olhou a 
escurido.
- O teu conselho foi bom, Kiaschka - prosseguiu Forster. - Milda no precisa 
esconder-se mais 
nem roubar mais nada...
- E o que  que pedes em troca? - A voz de Milda j estava cheia de um medo 
quase infantil.
- O que  que um homem como ele pode pedir? - Kiaschka
riu-se em voz alta. De repente voltara a ficar ordinria. Um ltimo resto de 
sono abandonou-a. - Tudo 
na vida tem um preo, Milda Tichonovna. Se fosse sempre tudo assim to fcil...
- Ela s conhece uma espcie de homens! - Forster interrompeu Kiaschka, 
levantou-se e arrastou 
Milda daquela cama tambm. - s minha convidada... nada mais!
Apercebeu-se, pela primeira vez, de que se tratavam por tu. E isso veio muito 
naturalmente; foi 
um deslize na intimidade, o que demonstrava que de repente deixaram de ser 
estranhos um para o outro.
Forster ps o brao sobre os magros ombros de Milda e
levou-a consigo at  porta do compartimento.
- Assim no, meus queridos! - segredou-lhes Kiaschka. - Mesmo com vinte por 
cento o Mulanov 
no acredita que um ratinho cinzento como ela esteja metida neste negcio. Vamos 
 casa de banho. Cada 
profisso tem o seu cartaz; portanto, temos, tambm, de maquilhar Milda como 
convm.
Dez minutos depois, Kiaschka e Milda regressaram da casa de banho. Forster quase 
no 
reconheceu aquela mesma desconhecida de Sverdlovsk.

Aquela rapariga encolhida tinha-se tornado numa fera, refinadamente pintada a 
preceito, o 
cabelo muito bem penteado e uma boca que Forster julgou que brilhava. Era o 
rosto de uma boneca 
bonita, mas fria...
Ele achou que Milda ficava melhor com a sua tristeza anterior, plena de 
juventude e sem 
artifcios.
- Ento? - perguntou Kiaschka orgulhosa. - Se ela tivesse outras roupas, ficaria 
muito melhor 
dentro do seu gnero. Vais ter trabalho, Werner Antonovitch, em afastar dela os 
outros homens. Ho-de 
fazer fila  porta do teu compartimento, como ces  espera de que se lhes atire 
um osso. E ela vai ver os 
rublos colados  janela...
-        Gostava mais dela sem pintura - disse, mesmo assim, Forster.
Milda olhou para ele com os seus grandes olhos pintados e ele entendeu este 
olhar. Era um 
agradecimento mudo e, de novo, Forster sentiu que ela se aproximara como ele 
jamais ousara desejar 
antes.

Captulo terceiro

Karsanov continuava a ressonar como uma serra mecnica, quando os dois entraram 
no 
compartimento e se sentaram na cama de Forster.
Milda, receosa, rodeou os joelhos com as mos e mirou Pal Viktorovitch, que 
estava todo tapado 
e deitado de costas.
Forster tirou a sua garrafa-termo da mala e destapou-a.  noite tinha pedido ao 
empregado de 
mesa Fedja que enchesse a garrafa com ch quente e umas gotas de rum.
Karsanov parecia ser do tipo antialcolico. Em todas as estaes comprava sempre 
pacotes de 
leite congelado, descongelava-os e bebia-os com visvel prazer. Em compensao, 
fumava continuamente 
um tabaco fedorento, como quem pega fogo a um colcho.
- Toma - ofereceu Forster e deitou o ch num copo. Ela inclinou a cabea, 
agradecida. Bebeu o 
lquido fumegante com goles pequenos e sequiosos enquanto metia as mos numa 
abertura lateral do seu 
casaco pespontado.
Da tirou po, pedaos de chourio, bolachas, um pepino embebido em vinagre, 
duas cebolas j 
descascadas, um ovo e um bocado de chocolate. Ps tudo aquilo na mesa 
desmontvel, perto da janela. 
Em seguida tirou uma faca do outro bolso.
- Tenho fome - disse simplesmente. -  a minha primeira refeio das ltimas 
vinte horas...
- Quando o vago-restaurante voltar a abrir, vamos tomar o pequeno-almoo - 
anunciou Forster. 
Sentia a garganta apertada.
Agora,  luz clara do compartimento, viu como Milda Tichonovna era bela. Tinha 
um corpo 
frgil, mas os seios eram redondos e bem proporcionados. Por debaixo do comprido 
casaco entreviam-se 
umas pernas elegantes de gazela com ps pequenos, enfiados nas pesadas botas de 
camponesa, que os 
deformavam.
Ela comeu depressa, sfrega e avidamente. Tragou tudo misturado, as bolachas com 
o pepino; 
as cebolas com o chocolate; o chourio com o ovo cru, o qual primeiro espetou 
com a ponta da faca e 
depois sorveu.
Aps a refeio, estendeu o copo e sorriu para Forster.
- Queria mais um trago, Werner Antonovitch.
- Bebe o que quiseres.
-        Obrigada.
Ela fechava os olhos enquanto bebia e ele admirou-a com uma sensao de 
felicidade.
- No iremos ao vago-restaurante - decidiu ela. Um homem distinto como tu no 
deve expor-se, 
exibindo-se ao lado de uma... uma prostituta! No ficaria bem.
- Nesse caso, Fedja traz o pequeno-almoo ao compartimento. De resto, no 
indiquei com quem 
vou tomar as refeies. Sou um alemo livre!
- Mas viajas num comboio sovitico, Werner Antonovitch.
Ela estava saciada, j no tinha sede e estava a ficar nitidamente cansada. De 
tal maneira que as 
suas plpebras piscaram algumas vezes e teve dificuldade em mant-las abertas na 
escurido, quase 
adormecendo sentada, enquanto contemplava, l fora, a taiga coberta de gelo, que 
ia passando.
Forster deitou-a, com cuidado, na sua cama; arredou-lhe as pernas da almofada e 
aconchegou-a 
na cama.
Ela sorriu-lhe agradecida, um sorriso de criana, no qual residiam todos os seus 
sonhos, voltou 
a cabea um pouco de lado e adormeceu instantaneamente.
A sua respirao tornou-se mais silenciosa, os ltimos espasmos soltaram-se, o 
seu peito elevou-se 
e baixou-se num ritmo constante... Era a primeira vez, em trs dias e trs 
noites, que ela podia dormir 
despreocupada.
Karsanov acordou por volta das sete horas da manh.
Forster tinha esperado por este momento e tambm se preparara para ele.

Milda Tichonovna ainda dormia, deitada com as pernas encolhidas de lado. Perto 
do amanhecer, 
Forster tinha-lhe desabotoado um pouco a blusa azul-escura, para que assim ela 
pudesse respirar mais 
 vontade - mas apenas at ao incio do peito. Depois de abrir a blusa teve 
medo; receou que ela o 
interpretasse mal quando acordasse.
Karsanov espreguiou-se, coou o peito, tossiu com um pouco de catarro e 
descuidou-se.
- Perdo, Werner Antonovitch! - desculpou-se de imediato. - No tinha reparado 
que j estava 
acordado.
Ento endireitou-se e sentou-se na cama no seu pijama s riscas. Admirado, 
observou a rapariga 
desconhecida.
- Quem  esta?
- Milda.
- O nome no vem ao caso! Como  que ela aparece na sua cama?
- Como aparece algum na cama de outra pessoa, Pal Viktorovitch. Metendo-se l 
dentro.
- Voc hoje acordou muito espirituoso! - Karsanov examinou a rapariga com ntida 
repugnncia. 
- Ento no conseguiu controlar-se, meu caro? Pelo menos no trouxe para aqui 
aquela criatura horrvel, 
Kiaschka. Sinto nuseas sempre que a vejo.
Levantou-se, tirou o roupo e bocejou com abundncia.
Um agrnomo deve ganhar bem. Karsanov tinha trs dentes de ouro, que cintilavam 
 luz clara 
da manh.
- No quer acord-la e tir-la do compartimento?
- No. Por que haveria?
- Porqu? Quer deix-la criar razes a na sua cama?
-        Karsanov calou as pantufas e arrastou-se at  porta.
-        Uma pessoa deve envergonhar-se dos hspedes da
Unio Sovitica que resolvem entregar-se a prticas to
condenveis e desordeiras num comboio! E este disfarce!
Parece uma camponesa! Jovem, no ?
- Muito jovem, Pal Viktorovitch. Talvez ainda a possamos salvar da completa 
decadncia.
- Voc acha! Eu no. As mulheres desta profisso so como carraas. Nunca se 
podem cultivar, 
apenas exterminar. Providencie para que ela j aqui no esteja quando eu voltar 
da casa de banho, 
Werner Antonovitch.
Karsanov abriu a porta, saiu para o corredor, ainda olhou uma vez mais para a 
adormecida 
Milda, encolheu os ombros e afastou-se.
Werner Forster nem considerou sequer a hiptese de acordar Milda. 
Cautelosamente, curvou-se 
sobre ela e beijou-a na testa. Ela nem se mexeu, apenas as suas plpebras 
estremeceram muito levemente 
quando o seu corpo sentiu a ternura tmida daquele gesto.
Antes de Karsanov regressar, apareceu Bons Fedorovitch Mulanov. Ironicamente, 
passou os 
dedos pelos lbios e enfiou a cabea pela porta encostada.
- J tinha sido informado - cochichou ele. - Kiaschka j me tinha confidenciado 
que o senhor tinha 
trazido consigo uma aprendiza. Muito irregular... ainda no tinha presenciado 
nada assim. Mas os tempos 
modernizam-se muito depressa e  preciso habituarmo-nos! A mocidade  cada vez 
mais curta. Bom dia, 
camarada.
- Bom dia, camarada revisor.
- Chame-me simplesmente Boris Fedorovitch.
Forster anuiu com a cabea. Sentou-se perto de Milda, que ainda dormia, como um 
co de 
guarda, daqueles que mordem assim que algum se aproxima.
- Pal Viktorovitch j est furioso - informou ele. No se admire, Bons 
Fedorovitch, se ele fizer um 
grande escndalo com isto. Se Karsanov se comportar de um modo obsceno, eu dou-
lhe pancada.
- Vou reflectir sobre isso, camarada

Mulanov abanou a cabea, o seu bigode triste descado sobre os lbios. "Dar 
pancada em 
Karsanov", pensava ele, "oh! Virgem Santssima, vai trazer complicaes! H sete 
anos que fao este 
trajecto sem incidentes e, agora, aparece-me um! E que problema! Um alemo andar 
 tareia com 
Karsanov. E logo com ele! Se ele me desse uma bofetada, ainda v, era uma 
agresso a um funcionrio, 
embora fosse inadmissvel. Mas logo Pal Viktorovitch?
Tornar-se-ia um assunto poltico da mais alta importncia... "
- Podia ter escolhido melhor, camarada - comentou Mulanov com -vontade. - Est 
certo que 
Milda  uma rapariga encantadora, jovem e estaladia como pezinhos quentes 
acabados de sair do forno 
e, por isso mesmo, d azo a conflito evidente! Quando j estiver madura tem de 
ir ter comigo. A Kiaschka 
disse que ela  ainda muito inexperiente.
Mulanov precisou de seguir o seu caminho. Na carruagem cinco, a de luxo, com as 
elegantes 
cabinas de dormir, os passageiros acabavam de acordar. Era obrigao de Mulanov 
fazer as camas e 
transform-las de novo em confortveis bancos estofados.
No vago-restaurante j cheirava a ch e a caf.
Aguardava-se um grande afluxo de pessoas para tomar o
pequeno-almoo.
Karsanov regressou. Mal-humorado, como sempre, talvez em resultado da priso de 
ventre que 
todas as manhs o afligia. Ficou parado  porta, apontando, com o brao 
esticado, para Milda, que ainda 
dormia.
- A puta ainda a est!
- Pal Viktorovitch, modere-se! - redarguiu Forster alto e claramente. - Milda  
minha convidada!
- J lhe ouvi chamar muita coisa! - Karsanov entrou no compartimento e deixou a 
porta aberta. 
- Assim sempre areja um bocado. Cheira a mulher!
- Voc  um touro com nsia de briga - replicou Forster em tom duro. - Voc 
mesmo disse, 
quando nos
conhecemos, que tnhamos de viajar juntos durante dez dias e dez noites. 
Infelizmente... no podemos 
modificar a situao, a menos que eu troque com o cantor de pera que o general 
quer fuzilar.
-        Agradeo-lhe, Werner Antonovitch. - Karsanov fez uma careta. - A esse 
estrangulava-o 
logo. Que tanto canta ele a viagem toda, duas horas de manh e duas  tarde? 
"Esta mozinha est um 
gelo... " Quem  que consegue suportar? Prefiro uma coisa dessas... - Karsanov 
virou a cabea na 
direco de Milda e apressou-se a vestir-se. - Tambm j pensei sobre isto, 
Werner Antonovitch. Se voc 
conseguir resistir este tempo todo...
-        Um homem pode iludir-se, Pal Viktorovitch! Principalmente quando encontra 
uma 
rapariga como Milda.
- Uma prostituta!
Karsanov no teve dvidas de que um homem vestido com um pijama s riscas no 
inspirava 
muito respeito. Enquanto fazia o n da gravata, a sua dignidade ficou 
restabelecida.
- O que  que voc pensa fazer durante o resto da viagem?
- O compartimento  suficientemente espaoso para os trs.
Karsanov fitou Forster com sincero espanto.
-        Voc pagou a essa mulher o suficiente at Vadivostoque?
- Claro que sim.
"Deste-me uma boa ideia!", pensou Forster. "Porque no contratar uma prostituta 
por toda uma 
semana?"
-        Devo aproveitar a rapariga toda para mim ou compartilh-la com os outros 
homens que 
viajam no comboio? Isso pode no agradar a Kiaschka. Milda  a minha companheira 
privada de viagem.
-        Vai ser bonito! - considerou Karsanov venenosamente. - Eu sou um homem 
moderno e 
de ideias esclarecidas, Werner Antonovitch, mas passar mais seis dias no mesmo 
espao com...
Karsanov remordeu algumas palavras zangadas e olhou l para fora para a 
impenetrvel taiga, 
inundada de sol e quase esmagada pela neve.
-        Vo perturbar-me o sono.
-        S se voc fizer questo em assistir!

- Voc  um bruto, Werner Antonovitch. Fiz de si uma ideia totalmente errada. - 
Karsanov 
tamborilou com os dedos na mesinha de desarmar e mostrava-se nervoso. - Estou a 
pensar se devo 
informar a milcia em Irkutsk, ou no.
- No deve fazer isso, Pal Viktorovitch.
-        Oh! Isso  uma ameaa? - Karsanov debruou-se sobre Forster. - Um alemo 
ameaa um 
russo num comboio sovitico! Ah!
- Eu quero a paz, Karsanov! Definitivamente!
-        O que  que voc tem contra a milcia?
- E voc o que tem contra Milda?
-        Se nos bombardearmos reciprocamente com perguntas, no chegamos a lado 
nenhum!
-        E porque no? Milda fica comigo! Isto  um facto consumado!
Karsanov grunhiu algo incompreensvel, levantou-se e saiu do compartimento.
Forster pensou que ele se tinha ido queixar a Mulanov, ou retirado, com rancor, 
em direco ao 
vago-restaurante. A tomava o pequeno-almoo, irritava-se com Fedja e 
conspirava outra vilania.
Forster ficou a matutar na sua discusso com Karsanov e no reparou quando Milda 
acordou.
Quando a rapariga, tmida, lhe tocou no brao, ele
afastou-se e olhou para uma cara de aparncia grotesca.
A maquilhagem, que Kiaschka lhe tinha feito ao de leve, estava borrada. As cores 
garridas 
estavam todas misturadas. Forster sorriu com ironia e Milda tapou a cara com as 
duas mos.
- No te rias! - pediu ela severamente. - A morte tem uma aparncia menos 
divertida...
- Tens de ir ter, imediatamente, com Kiaschka e pedir-lhe que te pinte outra 
vez. - Forster retirou-
lhe as
mos da cara e saudou-a com alegria. - Tiveste um sono espantosamente calmo, 
Milda. Foi melhor do que 
as expectativas.
-        E Karsanov? Onde est ele?
- Fugiu.
-        E Mulanov?
- Acreditou logo  primeira. Agora tens de discutir com ele a percentagem.
Forster meteu a mo no bolso e tirou dez rublos.
- D-lhos. Ele vai abraar-te e chamar-te "filhinha".
Ela olhou para as notas e pegou nelas com hesitao.
Forster conseguia ler-lhe o olhar e adivinhou o seu pensamento: "Ele interessa-
se por mim, 
protege-me e d-me dinheiro - quando  que vai exigir uma recompensa? No h 
ningum que faa tudo 
de graa. Pelo menos eu no conheo...
- Vai j ter com Kiaschka - disse ele e fechou-lhe a mo onde tinha colocado os 
rublos. - E em 
seguida procura Mulanov.  melhor fazeres isso, ou ento...
Ela acedeu, ergueu-se obediente, alisou o casaco com calma, abotoou a blusa at 
ao pescoo e 
afastou os cabelos negros e brilhantes da nuca.
De repente, Forster sentiu medo de no voltar a v-la. Teve receio de que ela se 
sumisse de novo 
no seu esconderijo misterioso, no qual tinha estado clandestina durante trs 
dias. No gostaria de ter de 
recomear as buscas. Com a diferena de que, desta vez, tambm Mulanov tomaria 
parte nas buscas, 
porque no iria querer perder a sua percentagem...
- Voltars, Milda? - perguntou ele.
Ela acenou que sim com a cabea e sorriu quase com tristeza.
- Sim, Werner Antonovitch. Ainda vamos tomar o
pequeno-almoo juntos...
-        S por isso?
Ela olhou para ele com os olhos arregalados, no lhe deu resposta, virou-se 
abruptamente para 
a porta e saiu do compartimento  pressa.

Werner Forster tinha pouco tempo para pensar sobre si e Milda, j para no falar 
na situao 
que se adivinhava pouco clara de resolver.
Mulanov j tinha percorrido a parte de trs da carruagem e, ao fazer o seu 
servio, viu que os 
convidados do Estado estavam sozinhos e forneceu-lhes as notcias mais frescas 
do dia.
- No h dvida de que o comboio est esquisito nesta viagem - lamentou-se. - O 
camarada 
general est histrico. Repare: o tenor j comeou os seus ensaios logo de 
manhzinha! O general estava 
a dormir profundamente, quando acordou sobressaltado! Queria proibir todo o seu 
exrcito de entrar 
mais alguma vez numa pera! E nunca tinha acontecido nada assim: e logo no 
comboio! Estou abalado!
Forster pensava na incurso nocturna de Milda pelo comboio, atravs das 
carruagens, e abanou 
a cabea.
- O que  que foi roubado? - perguntou ele sem pensar. - Po, um pepino, 
cebolas, chourio... no 
se deve falar sobre isso, camarada revisor.
- Cebolas e pepinos? Em que  que est a pensar, camarada?
Mulanov alisou o seu bigode escorrido.
- Uma senhora da carruagem dois deu por falta de um brinco! Foram-lhe  orelha 
enquanto 
dormia, um escndalo! E um patife roubou os sapatos a um senhor! Sapatos novos, 
ainda no tinham uma 
semana! Agora est sentado no seu lugar, em pegas, completamente transtornado! 
Ser que tem de sair 
descalo em Tchita? Vamos dar incio a uma investigao. O director do comboio, 
Vitali Diogenovitch, 
e o meu colega, Wladlen Ifanovitch vo tomar parte nas buscas. Vai ser 
desagradvel ter de dizer s 
pessoas: camaradas, abram as malas e mostrem-nos os sapatos! E a vtima, um 
homem chamado Dementi 
Michailovitch Skarnejkin, ter de andar connosco a examinar tudo, em pegas! Um 
comboio estranho, 
desta vez, digo-lhe eu, camarada. - Olhou em volta. - Onde est Milda?
- Est com Kiaschka. Logo a seguir vai ter consigo...
- Nesse caso, tenho de apressar-me. - Mulanov cumprimentou muito direito e 
fechou a porta.
Forster recostou-se e olhou pela janela.
Floresta... floresta... floresta e por ela passavam os carris de via dupla, que 
pareciam cicatrizes 
infindveis. Para alm disso, apenas uma solido branca, o sossego perfeito na 
neve gelada que cobria as 
rvores como uma inslita cobertura de acar. Estava um lindo dia!
O sol frio e brilhante deixava a terra azulada a cintilar, como se estivesse 
salpicada de pequenos 
diamantes. O cu azul e sem nuvens era to infinito como se s houvesse um nico 
cu sobre toda a Rssia.
Sibria! Assim como se odeia, tambm se deve am-la de todo o corao. Na paixo 
deste binmio 
amor-dio  que reside o eterno mistrio da taiga...
Karsanov voltou. Tinha-se irritado com Fedja e com o cozinheiro no vago-
restaurante.
Era o eterno martrio: o pequeno-almoo estava programado, planeado e 
desenrolava-se sem 
dificuldade. Mas  um problema quando uma pessoa quer mandar vir mais alguma 
coisa!
Talvez uma fatia de po, um pedao de bolo ou apenas um ovo! Mais depressa chega 
um 
astronauta  Lua do que se obtm um ovo extra no vago-restaurante do 
transiberiano! Demais a mais, 
com o desejo de que ele s tenha quatro minutos de cozedura!
A cozinha sucumbiu quando Karsanov pediu, no s um ovo, mas tambm um pedao de 
salsicha 
fumada e mel para adoar o ch, que era efectivamente bom.
Finalmente e ao fim de vinte minutos de espera, o ovo estava to duro como uma 
pedra e a 
salsicha estava tristemente encarquilhada no prato. O mel nem sequer lhe 
chegaram a trazer.
Gritou com Fedja cinco vezes e depois disso nunca mais o viu; ele permaneceu 
oculto por um 
tabique atrs da cozinha at que Karsanov se retirou.

- Onde est Milda? - perguntou ele tambm, assim que entrou no compartimento.
Forster acendeu um cigarro e estendeu o mao a Karsanov. Este hesitou, mas 
acabou por lhe 
pegar e observou a marca.
-        Milda foi ter com Mulanov - respondeu Forster.
-        Isto  de mais! Um funcionrio a brincar aos proxenetas... O cigarro  
americano?
-        Exactamente.
-        Cheira como um traseiro de prostituta!
-        Sempre pode atir-lo pela janela, Pal Viktorovitch!
-        E porque faria eu isso? No tenho problema nenhum em fum-lo! Em seguida, 
voc vai 
fumar um dos meus. Um vigoroso cigarro sovitico!
Sentaram-se em frente um do outro, em silncio por uns momentos, olharam l para 
fora, para 
a taiga, e notaram que o comboio ia mais devagar.
Havia neve sobre os carris e a locomotiva afastava-a para os lados, com um 
dispositivo especial.
-        J pensou? - perguntou Karsanov de repente.
-        No qu? - indagou Forster, apagando o cigarro.
Karsanov fumou o seu at ao filtro.
-        Voc quer mesmo alojar essa Milda no nosso compartimento at 
Vadivostoque?
-        No mudei as minhas intenes, Pal Viktorovitch.
-        Quer ento fazer desfilar uma grande pouca-vergonha diante dos meus 
olhos...
- De maneira nenhuma! Faamos o seguinte: eu informo-o antecipadamente para voc 
poder sair!
-        Isso  de uma impertinncia inaudita, sabia? Karsanov respirava com 
dificuldade pelo 
nariz. - Esperava um pouco mais de educao por parte de um alemo.
-        Agradeo-lhe, mas as pessoas no so todas iguais.  que eu sou... do tipo 
ertico!
-        Repugnante, Werner Antonovitch!
-        Como quiser chamar-lhe. Eu sinto-me muito bem assim.
Algumas casas de madeira iam deslizando l fora e outras feitas de pedra estavam 
mergulhadas 
na neve. Surgiu uma pequena estao e o comboio parou.
Era Tugun, uma das cidades da taiga, na qual tinham instalado linhas.
Mais tarde foram viver para ali os cossacos, depois os voluntrios sacrificados, 
amnistiados; 
deportados, que tiveram licena de partir quando se sacrificaram a ficar na 
Sibria o resto da sua vida. 
E era assim o singular povo da Sibria que ia crescendo, firme, como as rvores 
gigantescas da taiga.
Mulanov saltou para a estao, bastante limpa. Dois outros funcionrios do 
comboio seguiram-se-
lhe, precisamente Vitali Diogenovitch e Wladlen Ifanovitch. Discutiam 
acaloradamente sobre os roubos, 
dirigiram-se aos escritrios da estao e voltaram com um miliciano, o qual 
parecia muito ciente do seu 
ofcio.
- Agora ele vai trazer aquelas putas pelo colarinho!
-        gritou Karsanov com regozijo. - Bravo! Ainda h funcionrios cumpridores!
- No  nada disso. Tudo isto  por causa de uns roubos que houve no comboio.
- Quem foi que lhe disse?
- Mulanov. Foram roubados um brinco e um par de sapatos novos, de homem.
- Deviam procurar debaixo das saias de Kiaschka e Milda, pois se calhar ainda 
encontram l mais 
qualquer coisa!
- Estou convencido disso - concordou Forster. Diga-me Pal Viktorovitch, para que 
diabo 
quereriam as raparigas sapatos de homem?
- Para vender! Para que mais havia de ser?

- A situao na Unio Sovitica  assim to m, para que uns sapatos usados 
sejam uma boa 
mercadoria para vender?
Karsanov olhou para Forster to zangado que deixou cair o resto do cigarro no 
cinzeiro.
- Deve evitar essas insinuaes infundadas, Werner Antonovitch! - declarou 
Karsanov de um 
modo grosseiro. - Ser que no Ocidente no h negcio de mercadorias usadas?
A porta abriu-se com violncia e Milda precipitou-se para dentro do 
compartimento, deixando-se 
cair na cama de Forster. O seu rosto, maquilhado de novo por Kiaschka, exprimia 
um medo visvel.
- A milcia! - balbuciou ela. - Werner Antonovitch, a milcia est a dirigir-se 
para o comboio! - Ela 
ainda tinha os rublos na mo.
- Ah! - berrou Karsanov triunfante. - Agora sempre estremece mais alguma coisa 
para alm do 
peito! No tarda o comboio ficar desinfectado de bichos!
-        Cale essa boca, Pal Viktorovitch!
Forster inclinou-se para o russo. As suas cabeas estavam agora muito prximas. 
os olhares 
desafiando-se:
- Temos de ficar juntos at Vadivostoque... E ainda falta tanto tempo...
- Isso ser, por acaso, uma ameaa? - arfou Karsanov.
- Chame-lhe o que quiser.
-        Voc no sabe quem eu sou!
- -me completamente indiferente!
- Mesmo sendo um convidado do Estado, voc no pode permitir-se fazer tudo o que 
lhe apetece!
- Tenho o direito de ter uma companheira de viagem, nada mais. E voc, que 
perturba a paz?! 
Sou um homem calmo, mas se arranjar problemas a Milda, ento vai ver o meu outro 
lado! Fique sabendo 
que, mesmo no seu pas, fao questo em defender totalmente a minha liberdade 
como ser humano. Caso 
contrrio, isto vai tornar-se num assunto poltico...
Forster recostou-se e passou o seu brao em volta dos ombros magros de Milda. 
Ela tremia de 
medo e aninhou-se naquele abrao protector.
Kasanov observava com os dentes cerrados e a ranger a polcia a subir para o 
transiberiano.

Uma pessoa tem de compreender a grande aflio por que Dementi Michailovitch 
Skarnejkin 
passou quando lhe roubaram os sapatos e aguentar os seus gritos.
Tirou-os  noite, como qualquer outra pessoa de bem, dobrou o fato, colocou os 
sapatos debaixo 
da cama e enfiou-se debaixo da coberta para dormir descansado. Confiava na 
honestidade socialista dos 
seus companheiros de viagem e o que  que encontrou na manh seguinte, ao 
acordar? Nada! Os sapatos 
tinham desaparecido!
"Uns sapatos novinhos em folha", disse-lhes ele, "admirados por toda a famlia!"
Como se algum pudesse adivinhar!
Ainda  despedida, na estao de Omsk, Lydia, a filha mais velha, lhe dissera:
- Paizinho, vigia bem os teus sapatos. De certeza que vo olhar os teus ps com 
inveja! Neste 
mundo h mais invejosos do que amigos!
Palavras sbias! Era uma rapariga inteligente, a sua Lydia. Tambm estudava 
filosofia.
- Em que pas ns vivemos! - vociferou Skarnejkin de imediato. Estava  porta da 
carruagem, em 
pegas e com o rosto vermelhissimo.
A porta que dava acesso ao seu compartimento encontrava-se aberta. Os 
companheiros de 
viagem estavam de ccoras, aflitos, ao p dos bancos abertos e transformados em 
camas.
-        Se as coisas continuarem assim, no tarda roubam-nos as ceroulas!
-        Acalme-se! - berrou o polcia mais velho, levantando a mo energicamente.

Mulanov lanou um olhar desesperado na direco do seu director do comboio, 
Vitali 
Diogenovitch.
O seu colega, Wladlen Ifanovitch, j tinha sido chamado duas vezes  carruagem 
onde se 
encontrava a senhora que fora roubada. Assim que viu a milcia, comeou a 
faltar-lhe o ar e a
lamentar-se:
-        O meu brinco!  uma pea herdada desde h j quatro geraes! Quem me 
ajuda? Sou 
apenas a pobre viva de um general...
-        Vamos proceder sistematicamente! - informou o polcia a Skarnejkin, e 
tirou um bloco 
de notas do casaco do uniforme. - Como se chama? Onde mora? Mostre-me o seu 
passaporte!
- Sou eu o ladro, porventura? - vociferou Skarnejkin. - Tambm tenho de ser 
interrogado, como 
se tivesse atirado com uma bomba para o Kremlin? Aqui est.
Encostou-se  parede e levantou uma perna. A parte de baixo das meias estava 
suja.
Aparentemente, o comboio no estava to limpo como devia. Mulanov examinou as 
meias, aps 
o que desviou o olhar, comovido.
-        Isto no  uma investigao policial? Algum, aqui no comboio, tem os meus 
sapatos! 
Investiguem: eu sou director de uma fbrica de sabo!  com os meus sabes que 
Brejnev lava as mos!
-        Ele tem razo - confirmou o polcia, e olhou muito srio para Mulanov e 
para o director 
do comboio. - O ladro tem de estar ainda no comboio! Ningum desceu e se houve 
quem j tivesse 
saltado para o meio da taiga, foi por causa destes malditos sapatos velhos...
-        Velhos coisa nenhuma, eram sapatos maravilhosos!
-        Skarnejkin voltou a pr a perna para baixo. - O que  que vai fazer, 
camarada?
-        O que  que vamos fazer? - O polcia consultou o relgio de pulso. - O 
comboio ainda pode 
esperar mais dez minutos. Tenho de sair outra vez. No tenho ordem para deixar 
seguir o comboio.
-        No pode viajar connosco, camarada! - gritou o pobre Dementi 
Michailovitch, enquanto 
esticava os braos, indignado. - Tem de me devolver os sapatos em boas 
condies! No trago mais 
nenhum par. Quem  que vai pensar em viajar com um malo cheio de sapatos, 
quando se vai somente 
a uma conferncia? Se calhar devo percorrer Tchita em pegas?
-        Em Tchita tambm h sapatos - disse o miliciano filosoficamente.
-        E quem  que os paga, hen? Eu? No! Nem pensar, camaradas! Passo a noite 
num 
comboio do Estado e sou roubado num comboio do Estado:  o Estado que tem de 
pagar o prejuzo! Fui 
claro?
Mais claro no podia ser.
De qualquer maneira, a polcia nada podia resolver e tambm no havia ali 
ningum que pudesse 
dar os rublos a Skarnejkin para comprar sapatos novos. E se algum competente 
estivesse presente, 
ento, antes de mais, haveria uma montanha de impressos que tinham de ser 
preenchidos primeiro.
Conseguiria fazer-se tudo em dez minutos durante uma paragem imprevista numa 
solitria 
estao da taiga?
O revisor Wladlen Ifanovitch vinha a correr da carruagem nmero dois. Estava 
plido e o corpo 
tremia-lhe todo.
Ainda por cima, a locomotiva soltou um apito estridente, como quem queria dizer: 
"Continuemos, 
camaradas! J tivemos atrasos suficientes entre Irkutsk e Vadivostoque. H que 
compens-los. Haver 
tempestades de neve difceis de esquecer. Temos de continuar, camaradas!"
- A senhora teve um ataque! - gritou Wladlen. - Maldito brinco! E ainda temos de 
aguentar a 
conversa do brinco que veio l do tempo dos czares! Como se isso fosse 
argumento! Um brinco do tempo 
da escravatura! Mas a senhora  viva de um general, o que complica tudo. Chama-
se Olga Federovna 
Platkina. Exactamente, a mulher do general Platkin! Ela exige que eu reviste 
todos os passageiros e que 
procure o raio do brinco!

- E eu exijo que achem os meus lindos sapatos novos! - berrou Skarnejkin. - O 
comboio no deve 
prosseguir! No h aqui neste stio mais nenhum funcionrio para alm daqueles 
idiotas?
Foi um erro.
O polcia fuzilava-o com o olhar como se tivesse sido picado por uma tarntula. 
Fitou todos os 
camaradas com raiva, fechou o seu bloco de apontamentos e abriu a porta do vago 
com violncia.
- Prossigam a viagem! - gritou ele friamente e com enorme desdm. - Um par de 
sapatos no d 
a ningum o direito de insultar um funcionrio!
Saltou para a neve e fechou a porta, antes que Skarnejkin pudesse recomear a 
gritaria.
Realmente o comboio arrancou de novo, a marcha tornou-se mais rpida e deixou a 
solitria 
estao da taiga, na qual apenas costumavam parar comboios de madeira ou aquelas 
composies 
reduzidas que transportavam os camponeses para os mercados.
- Isto requer uma reclamao! - disse Skarnejkin, e andava de um lado para o 
outro, em pegas, 
no seu compartimento. - Brejnev lava as mos com o meu sabonete, no se esqueam 
disso, camaradas!
Mulanov deixou ao director do comboio, Vitali Diogenovitch, a tarefa de acalmar 
Skarnejkin. Era 
para lidar com esse tipo de situaes que ele ganhava mais.
Quanto a Mulanov, foi l para trs, para a carruagem do Estado, e abriu por 
completo a porta 
do compartimento de Karsanov. Milda fitou-o com uns olhos enormes e cheios de 
medo e enroscou-se em 
Werner Forster.
- Ah! Agora ests perdida! - gritou Karsanov, esfregando as mos. - Entre, Bons 
Fedorovitch! 
Onde est a milcia? Prenda finalmente esta mulherezinha!
- Porqu?
Mulanov deixou-se cair no banco ao lado de Forster. Achava o alemo simptico; 
um homem com 
quem se podia conversar e com pacincia para ouvi-lo. Exactamente o oposto do 
nojento Karsanov, que 
queria ter sempre razo e - muito suspeito! - tinha telefonado para Moscovo pelo 
telefone do comboio.
- Detenes  o que vamos ter logo que chegarmos a Irkutsk. At l temos de 
encontrar sozinhos 
o criminoso! No pode ter sado do comboio. Est como numa ratoeira.
- Reviste o quarto desta mulher! - exigiu Karsanov severamente, e apontou para 
Milda. - Ela 
exala medo pelos olhos!
-  mas  medo de um homem como voc! - replicou Forster em voz alta.
Afastou o cabelo de Milda do seu rosto plido e magro. Olhou para ela com 
ternura e Mulanov 
admirou-se
de como era possvel ter-se para com uma mera prostituta um contacto to intimo.
"Mas os Alemes devem ser mesmo assim", pensou ele. "Sempre com o sentimento  
flor da pele 
para com uma pobre alminha. Nisso somos to parecidos, camarada: ns os Russos e 
vocs os Alemes!"
-        Milda Tichonovna no tem nada a ver com isto! - declarou Mulanov com 
presteza.
- Ah! Voc j sabia? - rosnou Karsanov.
- Sim, j sabia. H testemunhas que podem prov-lo.
- Que testemunhas? Werner Antonovitch! Ora, ele pagou-lhe! Kiaschka? Que diabo, 
quem vai 
acreditar nela? Aqui neste comboio, para alm dos quartos destas mulheres, h 
passageiros importantes 
e honestos. Duvida disto, Mulanov? Ou foi algum do pessoal do comboio?
- Pal Viktorovitch, isso no  coisa que se diga - declarou Mulanov solenemente.
- Ento quem  que resta?  lgico?

- a mesma lgica do macaco que prefere comer bananas em vez de cocos, porque as 
bananas so 
mais fceis de descascar! - retorquiu Forster. - Mulanov, leve Milda consigo e 
tenha com ela uma conversa 
sensata. A milcia j se foi embora?
-        Claro. Ela no pode ir at Irkutsk de graa, sem autorizao...
Milda levantou a cabea. Os seus olhos eram suplicantes. No queria ir, tinha 
medo, mesmo 
quando Mulanov lhe piscou o olho, amigavelmente.
Era bvio que ele queria acertar a percentagem no negcio e fazer os possveis 
por cobrar j a 
primeira prestao.
"Humilhante", pensou Milda. Era difcil acostumar-se a que tivesse de tornar-se 
prostituta de 
uma hora para a outra...
L fora continuava a deslizar a taiga silenciosa e coberta de neve. Um conjunto 
de rvores 
gigantescas congelavam no imenso gelo.
O Sol era quase branco, sem cor, como uma pilha de sorvetes luminosos.
- Temos de proceder sistematicamente - disse Mulanov. - Carruagem por carruagem. 
Que 
situao ridcula! Tenho de o admitir. Quem roubou um par de sapatos e um 
brinco? Quem  que 
necessita disso neste comboio? Deve ser uma pessoa doente, um cleptomanaco.  
preciso descobrir o 
ladro pelos seus olhos inquietos. - Apontou para Milda, que se tinha erguido 
devagar e estava  porta 
de cabea baixa. - Ela tem olhos inquietos, Pal Viktorovitch. Uma pobre avezinha 
 o que ela , que tem 
de ganhar a vida arduamente. - Levantou-se de um pulo, deitou um olhar a Forster 
e deu o brao a Milda. 
- Vamos, pombinha!
Milda virou a cabea mais uma vez e olhou para Werner Forster.
Ele apaziguou-a, acenando-lhe com a cabea, e ento ela foi, obediente, com 
Mulanov e fechou a 
porta atrs de si.
-        Corrupo por toda a parte! - exclamou Karsanov e recostou-se no assento.
Bebeu vagarosamente o seu leite descongelado, fazendo-o passar algumas vezes 
entre os dentes, 
o que provocava um rudo sibilante. "Provavelmente est a lavar os dentes", 
pensou Forster enojado.
-        Bandidos por todo o lado! - Karsanov ps as mos nos quadris e a 
tamborilou com os 
dedos. - Werner Antonovitch, o que acha voc de to desejvel em Milda 
Tichonovna? Ela  um 
manequim esfomeado, nada mais. Jovem, naturalmente e, se a alimentarmos bem, 
podem arredondar-se-
lhe mais as formas... e depois? No tenha vergonha em ser um homem to robusto 
ao lado de um 
vermezinho. - Fez um gesto inequvoco com a mo e ofegou indignado.
- No! - respondeu Forster tranquilo. - Mas agora estamos sozinhos, voc j 
tomou o pequeno-
almoo...
-        Foi pssimo, manifestamente mau! O ch parecia gua de lavar pratos, o ovo 
era da idade 
da pedra lascada, o po, esse, deslizava nos dentes de to escorregadio que era!
- Nada disso  culpa de Milda! - Forster ofereceu, de novo, ao russo os seus 
cigarros americanos 
e Karsanov tirou um, se bem que achasse que cheiravam mal.
- Por que razo se atira tanto a Milda, Pal Viktorovitch?
-        Quem se atira a ela  voc, no eu!  minha frente, seu porco! No entanto, 
eu estava a 
dormir...
- Ento s se pode dizer: que pena!
Karsanov fumava irritado.
-        O que quer voc de mim? - quis ele saber aps trs baforadas profundas e 
lentas. - Tenho 
de aguentar essa rapariga aqui no meu compartimento a executar o seu ofcio?
Interrompeu-se.
Pavoneava-se pelo corredor um homem alto, gordo, com um cachecol de l  volta 
do pescoo. 
No era uma coisa invulgar, mas este homem cantava a plenos pulmes e no se 
importava nada com o 
facto de as portas dos compartimentos se abrirem de repente e as pessoas olharem 
para ele 
completamente atnitas.
- "Pai, me, irms, irmos no quero mais este mundo... " - cantava ele. Tinha 
uma linda voz de 
tenor.
- Mais um alienado! - exclamou Karsanov.

-Undine...
- O que  que ele disse?
- Est a cantar uma ria de Lortzing, Undine.
- Agora pode compreender-se que o general o queira fuzilar. Estas pessoas s 
deviam viajar no 
vago das bagagens! Alm disso, Werner Antonovitch, no gosto de Milda 
Tichonovna!
- Melhor para mim, Pal Viktorovitch.
-        No digo como homem. Isso pode ser discutvel.
Refiro-me  sua presena no comboio, que  estranha.
Karsanov puxou mais uma baforada do cigarro americano, mas nunca admitiu que 
isso era um 
prazer.
Forster observou o russo com ateno. Aquilo que ele tinha acabado de dizer h 
pouco, era, na 
verdade, muito perigoso!
Havia qualquer coisa em Milda que parecia, de facto, invulgar. Isso acontecia 
mesmo a quem no 
sabia que ela viajava no comboio clandestinamente: que se tinha mantido 
escondida e s  noite, quando 
todos dormiam,  que ia procurar comida, que depois roubava.
Kiaschka at tinha comentado com Forster, quando ele a levou at ela: "Meu bem, 
estamos como 
uma carraa sobre a pele. Isso  mesmo necessrio?" E ele respondera em voz 
baixa: "Eu s quero que 
ela se sinta segura aqui ou onde quer que seja."
Mas para onde queria ela ir? Disse que queria saltar para a taiga. Em qualquer 
lugar. O mundo 
 muito grande. Deve haver um lugar onde uma pessoa possa viver tranquila.
De onde vinha ela? De Sverdlovsk? Fora a que ela estava  espreita na estao e 
saltara para o 
comboio como um gato selvagem. No tinha cara de quem tivesse vivido na grande 
cidade de Sverdlovsk. 
O que  que levava uma pessoa como Milda a esconder-se, precisamente, no 
Expresso Transiberiano?
- Ela no se parece nada com uma puta - disse Karsanov subitamente e foi uma 
frase que Forster 
sentiu como se fosse um murro. -  isso! Apesar da pintura e do aspecto... no 
se parece nada com 
nenhuma! E para mim, isso  evidente.
- Voc deve ter uma grande prtica em lidar com prostitutas! - insinuou Forster.
- Elas j no me provocam, Werner Antonovitch! Mesmo para um homem como eu, 
casado, fiel 
e que despreza este tipo de mulheres. Tenho um olho clnico para distingui-las!
- Quem sabe se no  porque Milda est agora a comear?  a sua primeira viagem! 
Daqui a dois 
anos parecer outra! Depois voc ir cham-la com um estalar de dedos!
-No, no!
Karsanov abanou a cabea. Esmagou, com cuidado, o que restava do cigarro no 
rebordo do 
cinzeiro por baixo da janela.
- Como ela est cada por si e se afeioou e como voc quase que rasteja aos ps 
dela,  outra 
coisa! Porque tem ela medo? Voc viu Kiaschka com medo da milcia? Sendo j 
conhecida por meio 
comboio? Mas a sua avezinha, considerando que  realmente inocente do pecado do 
furto, encolhe-se de 
medo sempre que v uma farda.
- H pessoas que, s por verem um uniforme, sentem um medo terrvel, quase 
sagrado. Tive uma 
tia em Gelsenkirchen que tratava o homem do gs como um general, e s porque ele 
usava na cabea um 
bon com as insgnias da cidade.
- No queira desviar a minha ateno com a histria da sua tia, Werner 
Antonovitch!
Karsanov contemplava as rvores cobertas por uma espessa camada de neve e o 
extenso cu azul-
claro, l em cima. A regio era acidentada, imensa e solitria.

- Que aspecto tem uma prostituta? Acima de tudo, provocante, irritante com as 
suas roupas. E 
Milda  uma rapariga com trajes de camponesa, botas resistentes, meias grossas, 
casaco... Alm disso, 
o leno de cabea parece do sculo passado, velho e desbotado... E uma pessoa 
vai nessa conversa, mesmo 
como sendo principiante? - Inclinou-se para a frente. O seu rosto astuto 
parecia-se com o de uma raposa. 
- Querem enganar-nos,  o que ! Sabe o que  que eu vou fazer quando Milda 
regressar? Vou submet-la 
a um interrogatrio rigoroso!
- Est a esquecer-se de que Milda  minha convidada! - "No  parvo", pensou 
Forster. 
"Menosprezei-o. - Quer apertar com Milda para ver se ela se enerva." No tem o 
direito de interrogar 
a rapariga! - continuou Forster, mordaz.
Mas Karsanov acenou com a cabea vrias vezes.
- Cada cidado sovitico  obrigado, camarada, a intervir se o povo causa 
prejuzo na sua 
profisso! Esta Milda no  um malefcio? No  uma ferida nos corpos das nossas 
cidades?  o que 
iremos ver! Lenine incitou-nos a percorrer a vida sempre com os olhos 
vigilantes...
Ao longo do corredor caminhava o general sovitico. Usava uma farda, mas tinha, 
no entanto, 
desabotoado os botes de cima.
Estava um calor sufocante no comboio, a ventilao estava realmente regulada, 
mas no tecto as 
clarabias pareciam estar congeladas. O gelo da taiga era mortal.
O general ficou especado  porta do compartimento. Reflectiu por uns momentos e 
depois abriu-
a.
Karsanov levantou-se de um pulo, enquanto Forster cruzou as pernas. Pal 
Viktorovitch 
observava a cena com as sobrancelhas franzidas.
- Aquele idiota que canta passou por aqui? - perguntou o general. Parecia que 
andava  caa 
para, finalmente, poder eliminar o tenor.
Karsanov acenou com a cabea, solcito.
-        H coisa de um quarto de hora, camarada general. Estava a cantar...
- Que mais podia ele estar a fazer? - O general entrou no compartimento e 
sentou-se no banco 
estofado ao lado de Forster. - Temos de fundar uma sociedade de interesses 
comuns, camarada. S assim 
conseguiremos que ele deixe o comboio em Irkutsk! Se nos unirmos, conseguiremos 
que se mantenha 
afastado da nossa sociedade e assim j no perturbaria os nossos nervos com a 
sua cantoria.
Olhou para Forster, que retirava da sua pasta uma pequena garrafa de conhaque. 
Tirou-lhe a 
rolha e deitou um pouco num copo de plstico.
Notou que Werner Forster no se tinha impressionado com a sua agitao. Enquanto 
Milda no 
estivesse outra vez com ele, no tinha tempo para ter medo. Os seus nervos j 
estavam preparados para 
a luta.
Mas agora soltara-se a ansiedade e ele via como estava prxima uma catstrofe.
-  sua sade, camarada! - disse o general quando Forster comeou a beber o 
conhaque.
- Ele  alemo! - elucidou Karsanov, e isso soou como se ele tivesse dito: "ali, 
no bonito banco 
estofado est uma estrumeira!"
O general mirou Forster com mais ateno.
- Que tal acha a Unio Sovitica?
-  um pas imponente!
- Est de regresso?
- Sim. Vou at Vadivostoque e depois ao Japo. Esta viagem  para mim um sonho 
de criana, 
tornado realidade! S  pena que haja sempre, por toda a parte, coisas difceis 
de engolir...
A aluso foi clara e Karsanov compreendeu-a muito bem. Respirou com fora pelo 
nariz e sentou-
se calado.
O general entendeu o reparo de outro modo.
- O tenor! - gritou ele quase com alegria. - Tem razo, camarada! Tambm o 
consegue ouvir? 
Comea logo de manh s sete horas. "Esta mozinha est um gelo..." Hoje de 
manh comeou s oito! 
Com isto, fico na cama, acordado desde as sete horas e aguardo pela altura em 
que aquele co comea 
a cantar!  sadismo, meus senhores! At eu comear a ficar nervoso: porque  que 
ele no canta (podia 
ficar doente, rouco ou suceder-lhe qualquer outra coisa) mas sim uiva? Mas no  
a Bohme, no, desta 
vez o sujeito canta a Undine! "Pai, me, irms, irmos... "

- Ns ouvimos - confirmou Forster. - Quer um conhaque, senhor general?
-        Aceito, com prazer.  russo?
-        No. Espanhol!
- Espanhol! Conhaque de um pas onde h uma ditadura? A que  que sabe? A ao e 
a ferro?
- Experimente! Macio como a mo carinhosa de uma mulher...
-        Ele deve saber! - interveio Karsanov, venenoso.
- O camarada alemo percebe disto! Que lhe parece, camarada general? Enquanto eu 
durmo, na 
ignorncia, ele traz para dentro do nosso compartimento uma prostituta!
-  imperdovel que voc tenha adormecido! - O general
riu-se, pegou no copo de plstico, aspirou o cheiro do conhaque e bebeu-o com 
goles pequenos e repletos 
de prazer.
"Um homem com quem se pode conversar", pensou Forster aliviado. No adiantou 
nada a 
Karsanov querer interessar o general por Milda.
- Admirvel, este espanhol! Mas o nosso conhaque russo  melhor - disse ele ao 
pousar o copo.
- Naturalmente!
Forster acenou com a cabea delicadamente e rolhou de novo o frasco de viagem. 
Karsanov, que 
no bebia lcool, saboreava o resto do seu leite descongelado pelo pacote.
- Presumo, senhor general, que o senhor vai percorrer o comboio e recolher 
assinaturas contra 
o tenor?
-  o que tenciono fazer! - O general agarrou no casaco do uniforme e tirou de 
l um papel 
dobrado. Antigamente era mais fcil! Bastava uma ordem... e zs, aquele sujeito 
ia l para fora! Mas 
hoje? Tornou-se tudo muito frouxo, muito liberal. A humanidade! Est toda 
efeminada. Sabem o que me 
respondeu aquele revisor, o Mulanov, quando eu exigi que ele chamasse o tenor  
ateno? "Camarada 
general, Kostja Abramovitch Vorobjev tem um bilhete vlido como o senhor e 
registado at Chabarovsk. 
No se pode fazer nada!" Foi o que me disse aquele cretino, meus senhores. 
Kostja Abramovitch 
Vorobjev  como se chama aquele canalha do cantor!
- Um cantor famoso! - Karsanov cometeu um erro imperdovel ao dizer isto, e 
quando deu pelo 
deslize era demasiado tarde. Ia precisamente acabar a frase, quando o general 
esbugalhou os olhos. - 
Ouvi-o em Moscovo, no Teatro Bolschoi, interpretar o Trovador. As pessoas 
rejubilaram e aplaudiram 
de p...
- Eu no rejubilo! - gritou o general irritado. Desdobrou o papel e espetou com 
ele debaixo do 
nariz de Karsanov.
- Vai assinar, camarada?
- Evidentemente que sim!
Pal Viktorovitch apressou-se a ir buscar uma esferogrfica ao seu casaco e 
inscrever o seu nome 
no abaixo-assinado. Depois estendeu a caneta a Forster.
O general fez que no com a cabea.
- O nosso hspede alemo no deve incomodar-se com os nossos problemas internos, 
como 
soviticos que somos - disse ele. - Deve viajar sem preocupaes. Se, por causa 
disso, ele se sentir 
molestado, camarada...
- No por causa do tenor - disse Forster. - Existem outras coisas...
- Tem alguma reclamao a fazer, camarada? O general dobrou o papel e voltou a 
p-lo no bolso.
Karsanov estava com os cabelos em p.
- Werner Antonovitch refere-se aos ovos no
vago-restaurante. Esto demasiado cozidos! E o caf, muito fraco! E o po, esse 
nem sequer se pode...
- Tornou-se tudo muito frouxo,  o que sempre digo, meus senhores! - O general 
levantou-se. - 
Tive muito gosto em
conhec-lo! Quem sabe no possamos vir a jogar juntos uma partida de xadrez! - 
Saudou-os e saiu do 
compartimento.

Karsanov esticou as pernas e deitou um olhar zangado a Forster.
- Voc quis meter-me em apuros, no foi? - perguntou ele com voz rouca. - Mas 
no conseguiu! 
Os generais tambm podem ser idiotas, como viu. Uma farda no protege contra a 
esclerose. Voc no 
 uma pessoa muito perspicaz, Werner Antonovitch!
- Podemos at vir a ser os melhores amigos, se deixar Milda em paz.
- E se eu no o fizer?
- Vou jogar xadrez com o general.
- Voc no sabe jogar!
- Precisamente. Irei dizer que voc me pe to nervoso que perco totalmente a 
noo lgica das 
coisas.
- Indecente! Vergonhosamente indecente!
Karsanov olhou pela janela. Floresta e mais floresta
-        infindvel, a floresta mergulhada em gelo.
- Vai ser uma linda viagem!
- J est a s-lo.
Depois calaram-se os dois.
Olharam atravs da janela. Fizeram-no como se cada um deles estivesse sozinho no 
compartimento. Mas ambos sabiam que era apenas uma pausa para respirar. A sua 
guerra privada, cada 
vez mais tenaz, iria continuar...

Captulo quarto

Milda entregou a Mulanov a sua suposta percentagem, o dinheiro que Forster lhe 
havia 
oferecido. Com ele obteve a legitimidade de poder passar a "trabalhar" neste 
comboio.
Neste momento estava sentada com Kiaschka no compartimento desta ltima. O casal 
idoso ainda se encontrava a tomar o pequeno-almoo no vago-restaurante e a 
jovem e tmida rapariga, 
que tinha de assistir  actividade nocturna de Kiaschka, estava sentada  janela 
e mastigava uma grande 
ma.
-        Quem s tu? - perguntou Kiaschka baixinho.
Tinha-se pintado outra vez e usava um vestido com um decote enorme e 
pronunciado, o qual era 
exagerado mesmo para uma pessoa da sua condio.
Mulanov tinha olhado fascinado para o comeo do seu peito voluptuoso e dissera:
- Pensa, minha pombinha, que tambm h crianas no comboio. No deixes chegar ao 
ponto em que os pais delas te queiram bater.
-        Tu sabes muito bem quem eu sou - respondeu Milda  pergunta de Kiaschka. 
Encostou-se a um canto da parede e o seu rosto plido, embora pintado, provocava 
uma profunda 
compaixo em todos aqueles que sentissem a conscincia pesada.
-        Sei qual  o teu nome, mas se  o verdadeiro, isso j eu no sei. Acho que 
j pensei 
o suficiente sobre isso. s uma fugitiva?
- Fugitiva? - Milda ainda se fechou mais em si. - De que fugiria eu?
- E eu  que sei? Ningum viaja clandestinamente no transiberiano para ir 
visitar uma tia 
algures...
- Quando no se tem dinheiro...
- Ento tambm no se pode ter nenhuma velha tia a morar longe! Esquecemo-la.
Kiaschka comeou a pintar as unhas das mos. O cheiro acentuado e adocicado do 
verniz 
propagou-se rapidamente pelo compartimento aquecido. Era um verniz vermelho 
luminoso com um efeito 
de madreprola.
- No me queres dizer o que se passa contigo?
- No queiras saber, Kiaschka,  melhor assim! Tambm  melhor para ti...
Mulanov deitou uma olhada para dentro do compartimento.
Tinha estado com o director do comboio e veio a saber que, nas carruagens 
nmeros um e dois, 
as investigaes estavam em pleno andamento.
Vitali e Wladlen estavam numa posio difcil. Onde quer que eles aparecessem e 
pediam que se 
abrissem as malas, encontravam sempre resistncia. Todas as pessoas se ofendiam 
por serem suspeitas 
e com razo.
Quem teria necessidade de roubar os sapatos novos a este senhor Skarnejkin? E 
tambm um 
brinco? Para que quereria uma pessoa s um brinco? Ainda se fossem dois! Ningum 
tem s uma orelha!
Um companheiro de viagem de Skarnej kin tinha-lhe emprestado, com simpatia, um 
par de 
pantufas, com as quais ele acompanhava Vitali e Wladlen. J tinha outro aspecto. 
Skarnejkin contava a 
toda a gente a histria dos seus sapatos, que lhe tinham custado quinze rublos e 
que era com os seus 
sabonetes que o camarada Leonid Brejnev lavava as mos...
- Tm de estar aqui no comboio! - gritava ele em todos os compartimentos. - 
Camaradas, no 
impeam o
rumo da justia! Ningum  suspeito, mas  preciso continuar a procurar, no  
verdade?
Foi comovente quando ele se encontrou, na carruagem dois, compartimento quatro, 
com a viva 
do general, Olga Federovna Platkina, que tambm tinha sido roubada. Abraaram-
se, choraram juntos 
e depois amaldioaram o ladro.

- Preciso procurar na carruagem l de trs - disse Mulanov com azedume.
- Que absurdo! A primeira classe! Admite-se que vivemos numa sociedade sem 
diferena de 
classes, mas numa questo de roubo,  preciso distinguir o que  importante e o 
que  irrelevante!
Ele mirou Milda, a quem Kiaschka j tinha pintado as unhas.
- Presta ateno a Karsanov - aconselhou o revisor.
- Comporta-se como se tivesse bebido cido.  um homem sinistro. Perguntei  
telefonista, de empregado 
para empregada, como um segredo profissional, se ele tinha telefonado para 
Moscovo! E falou com quem? 
Com o Ministrio do Interior!  noite! Um professor de agronomia! Uma pessoa 
conversa  noite sobre 
o qu? Sobre o cultivo do feijo?  um autntico quebra-cabeas
Mulanov fechou a porta e continuou o seu caminho.
- Tenho medo, Kiaschka - disse Milda baixinho.
- Werner Antonovitch proteger-te-.
- O que  que ele pode fazer? Eu no posso continuar neste comboio.
- Esse reparo vem tarde de mais.
Kiaschka acabou de pintar as unhas, pegou nas mos de Milda e agitou-as no ar, 
para que o 
verniz secasse mais depressa.
Milda deixava que lhe fizessem tudo, agia como se fosse uma boneca.
- Ele no  um homem bonito? - perguntou Kiaschka subitamente.
- Quem?
- Werner Antonovitch. - E como Milda se calasse, Kiaschka continuou: - 
Apaixonaste-te por ele. 
- Disse isto em tom de conspirao.
- No  verdade! - Milda tirou as suas mos das de Kiaschka com um safano.
- Tambm no podes mentir! - Kiaschka riu-se em voz baixa. - Mas ele est 
apaixonado por ti!
- Impossvel!
-  fcil perceber quando se olha para ti. Ele vai contigo at Vadivostoque?
- Sim.
- E isso porqu, sua idiota?
- Ele  um homem bondoso...
- No h homem nenhum que oferea seja o que for a uma rapariga sem esperar nada 
em troca. 
Fixa isto! - Kiaschka fechou a bolsa das pinturas e atirou-a para a rede das 
bagagens. - Repara bem nos 
seus olhos! So todos iguais! Arregalam os olhos como bezerros e a j se sabe 
em que  que esto a 
pensar...
- Werner Antonovitch  diferente!
Milda levantou-se de um salto. De repente, o seu pequeno rosto corou e at mesmo 
os seus olhos 
escuros brilharam colricos.
- Tu s conheces uma espcie de homens...
- Ela ama-o! - Kiaschka riu-se e bateu nas suas prprias coxas gordas. -  mais 
do que evidente 
que ela o ama! At j se transformou num diabinho, mal se tocou no nome de 
Werner Antonovitch...
Milda arregalou os olhos com um gesto violento e saiu a correr. O riso oculto de 
Kiaschka 
perseguiu-a enquanto descia o corredor.
"Ela  nojenta", pensou Milda, "ordinria e nojenta." Por que tinha ela que 
pronunciar aquelas 
coisas? Que sentido  que aquilo fazia, estar apaixonada por Werner Antonovitch? 
Daqui a seis dias 
embarcaria no navio para o Japo e nunca mais o veria. Nunca mais...!
Parou e encostou a cara ao vidro frio da janela do corredor.
L fora, a taiga estava muito prxima da linha frrea
- e muito prxima da floresta sufocante, toda coberta de neve.
Nunca mais... Encontra-se um homem e sabe-se que dentro de seis dias nunca mais 
o veremos.
Milda fechou os olhos e respirou profundamente. Doa-lhe o corao. Era uma dor 
que no 
conseguia dominar.

H pessoas que merecem apanhar na cara, onde quer que estejam. Aparece um 
indivduo de 
quem logo  primeira vista se diz: "Oh, meu Deus! No devia sequer ter nascido! 
"
Oleg Tichonovitch era uma dessas pessoas. Era um rapaz repugnante, forte como um 
touro. 
Tinha msculos por todo o lado - at mesmo no crebro - e, por ser to forte, 
era por todos considerado 
to sensvel como uma mquina.
Era construtor de pontes, daqueles que tm como responsabilidade soldar as 
barras de ao. Era 
uma boa profisso, honrada e qualificada - mas em todas as profisses existem 
pessoas que podem 
desonrar a sua fama.
Oleg Tichonovitch andava, desde que tomara o transiberiano,  caa de uma 
mulher.
Era de tal maneira asqueroso que a prpria Kiaschka desprezou os seus rublos e 
at o esbofeteou. 
Ela podia dar-se a esse luxo. Quase todos os homens no comboio a protegiam e, 
portanto, Oleg desistiu 
de continuar a fazer as suas propostas a Kiaschka.
Havia j uma hora que estava furioso por pensar que iria passar a noite sozinho, 
sem uma 
mulher! Foi ento que encontrou Milda.
Viu-a logo, ao longe, parada  janela do corredor e deu um estalido com a 
lngua.
"Deve ser ela", pensou. Kiaschka tinha uma aprendiza no comboio, isso j ele 
ouvira dizer.
Ningum sabia ao certo como ele tomara conhecimento; e Mulanov, a quem Oleg 
Tichonovitch 
tinha perguntado, no lhe dera qualquer resposta, mas tambm no desmentira o 
boato.
E ali estava ela, em pessoa... com as unhas pintadas de um vermelho madreprola 
e uma carinha 
maquilhada, embora parecendo uma campnia. Mas quem conseguisse ver atravs da 
fazenda grossa, 
percebia a beleza desta mulherezinha.
Em frente, Oleg Tichonovitch!
Ps-se em andamento, assobiou por entredentes e apressou o passo, assim que 
Milda se afastou 
da janela.
Ela olhou para trs e viu a corpulncia de Oleg, a cara sorridente, e reconheceu 
imediatamente 
o perigo iminente que da advinha.
Ento voltou-se e desatou a correr. Oleg Tichonovitch soltou um assobio 
estridente, bateu com 
o punho contra a parede da carruagem e gritou-lhe:
- Pra a, florezinha! No queres vir aqui?
Milda no reagiu. Pelo contrrio, percorreu o corredor e abriu violentamente a 
porta que dava 
acesso ao outro vago. Continuou a correr, mas Oleg foi atrs dela com passos 
largos e apressados.
Esticou a sua grande cabea e transformou-se em algo animalesco: o instinto 
natural que ansiava 
por uma mulher voltou  tona.
Era uma perseguio autntica, a que se tinha iniciado: uma caa impiedosa e - 
para Milda - algo 
de desesperado.
Para Oleg Tichonovitch, aquela correria fazia pouco sentido. Milda era lesta 
como uma doninha, 
embora no lhe restassem grandes alternativas de fuga.
S havia um caminho atravs do corredor, de carruagem em carruagem, e, por fim, 
ao fundo do 
comboio, Oleg alcanou-a, j que no apareceram mais passageiros para 
atrapalhar. Demais a mais, a 
Oleg bastava um passo para cada trs de Milda - o que diminua cada vez mais a 
distncia entre eles. Uma 
fuga intil!
Quando havia apenas alguns metros de distncia entre eles, Milda comeou a 
gritar.
A sua voz clara esganiou-se, e enquanto fugia, como da prpria vida, olhava 
para os 
compartimentos e esperava que algum surgisse e se interpusesse no caminho entre 
si e Oleg.

Dois homens corajosos fizeram isso mesmo, ergueram-se dos seus lugares e abriram 
a porta dos 
seus compartimentos. Mas ao verem quem se aproximava e ao reconhecerem o vulto 
de Oleg, 
desapareceram rapidamente e fecharam as portas.
Trs homens que regressavam do vago-restaurante
afastaram-se para o lado antes de poderem protestar e tambm Mulanov, ao ouvir o 
grito alarmante de 
Milda, levou um encontro to forte no peito que quase rebolou no cho.
O gigante, enfurecido, empurrou-o para o lado e Mulanov achou por bem e, por 
agora, acocorar-
se junto  parede e aguardar.
Assim que Oleg desapareceu na carruagem seguinte, o revisor gritou com voz 
potente:
- Aqui s h cobardes? Permanecem sentadinhos nos vossos lugares e observam 
indiferentes uma 
rapariga a ser perseguida! Todos os homens venham ter comigo!
Abriram-se de novo algumas portas e caras embaraadas olhavam para ele 
estarrecidas.
Um homem pequeno e gordo com uns grandes culos surgiu por entre os outros e 
limpou ao de 
leve o suor da testa com um leno.
- Chamo-me Avdej Ivanovitch Lukratin - disse ele.
- Sou advogado. Posso atestar que ns somos passageiros e no caadores de 
pessoas! Acontece que num 
comboio do Estado quando sucedem irregularidades  obrigao dos funcionrios 
manter a ordem e isto 
no  responsabilidade dos passageiros!  uma afirmao perfeitamente lgica e 
jurdica.
- Bravo, Lukratin! - gritaram alguns dos que estavam l atrs.
- Comprmos bilhete e no uma entrada provisria para um hospital!
- Isto  uma situao excepcional! - berrou Mulanov. - Todos os cidados 
soviticos devem, pela 
lei...
- A lei conheo eu melhor do que ningum - gritou, entretanto, o pequeno e gordo 
advogado. - No 
est escrito em lado nenhum que se deve, voluntariamente, deixar bater num 
deficiente...
- Na guerra... - comeou Mulanov.
- Temos guerra, camarada? - interrompeu Laura.
- Por acaso, o transiberiano  uma fogueira como o Prximo Oriente? Trata-se de 
um interesse de 
Estado?
- Trata-se de uma pessoa, Avdej Ivanovitch!
- Juridicamente, estamos na presena de um assunto privado, revisor Mulanov. Vou 
queixar-me 
de que voc incomoda os passageiros com coisas pueris! Um homem persegue uma 
rapariga; isso  uma 
coisa que acontece diariamente milhares de vezes! Sentemo-nos de novo, 
camaradas! Revisor Mulanov, 
esta viagem vai ter consequncias para si!
- Ele atirou-me ao cho e pisou-me! - vociferou Mulanov, fora de si. -  um 
animal selvagem!
- Nesse caso, neutralize o indivduo e ponha-o no seu devido lugar!
Lukratin regressou solenemente ao seu compartimento.
- Um quadro de funcionrios verdadeiramente triste, que no se sabem defender! E 
queremos ns 
que este seja um pas progressista...
As portas bateram. Mulanov ficou sozinho na carruagem e tremia de raiva.
Ainda esperou encontrar alguns homens corajosos, mas todos eles se mostraram 
indiferentes e 
olhavam, atravs da janela, a neve que sufocava a taiga.
Ento, Mulanov voltou-se e correu atrs de Oleg Tichonovitch com uma audcia 
mortal. Ouvia 
os gritos comoventes de Milda ao longe:
- Socorro! Socorro! Ajudem-me!
Werner Forster ouviu sem sequer suspeitar quem gritava.
Olhou para Karsanov que lia um livro sobre a revoluo de Outubro. At agora no 
tinham 
trocado palavra.
- Est algum a gritar! - exclamou Forster. - Voc no ouve?  algum a gritar 
por socorro! Uma 
mulher...
Karsanov fechou o livro e levantou a cabea..

- Realmente!  uma situao nova no transiberiano! Nos comboios de camponeses j 
 diferente: 
s vezes os casais agridem-se, mas ningum liga. So pessoas autoritrias, os 
siberianos.
Os gritos aproximavam-se e Forster reconheceu a voz. Levantou-se de um salto e 
precipitou-se 
para o corredor.
L atrs, a porta do vago abriu-se de repente e Milda lanou-se na carruagem, 
com os cabelos 
ao vento e agarrando com as duas mos o casaco comprido, avanando rapidamente.
Mesmo por trs dela surgiu Oleg Tichonovitch - qual touro enraivecido.
- Milda! - gritou Forster ao mesmo tempo que empurrava a porta de correr. - 
Entra para aqui!
Os olhos da rapariga, esbugalhados de medo, deram a Forster a imagem exacta do 
que estava a 
suceder.
Ela emudeceu quando percebeu que estava apenas a alguns metros do seu 
compartimento. 
Conseguiu entrar, por um triz, e atirou-se para cima do banco estofado.
Karsanov olhava para ela pasmado e meteu a mo direita no bolso das calas..
Oleg Tichonovitch cerrou os punhos e apressou-se na sua corrida.
- Sai do caminho, carcaa! - gritou ele para Forster. Os seus olhos estavam 
vermelhos, ergueu o 
peito e levantou a cabea ao precipitar-se de encontro a Werner Forster.
O embate foi medonho. O alemo foi atirado contra a parede, mas antes de Oleg 
poder 
voltar a bater-lhe, aconteceu algo de extraordinrio. Oleg sentiu o cho faltar-
lhe debaixo 
dos ps, as suas pernas fraquejaram, escorregou e caiu para trs.
Com um rugido animalesco, voltou a levantar-se de um pulo, o seu punho 
fortaleceu-se 
como um martelo, mas tambm no acertou directamente no alvo desejado, tendo 
sido agarrado 
no ar pelo antebrao de Forster.
Ouviu-se um som abafado e Forster fez uma careta de dor. Mas, 
em seguida, voltou a estar a postos. Preparou o brao, deu meia 
volta e desferiu um golpe e o gigante Oleg Tichonovitch voou pelo 
corredor e bateu com a cabea de encontro  parede.
Perturbado, cambaleou, mas no desistiu. Depois de respirar 
fundo por duas vezes, recuperou o flego, voltou-se e atirou-se 
outra vez a Forster.
De repente, Karsanov estava perto de Forster, em mangas de 
camisa, perfeitamente calmo.
- Eu sabia que voc tinha uma tendncia especial para golpes 
baixos! - disse ele ao seu companheiro de viagem. - Judo! Um homem 
honrado defende-se de outra maneira.
Esperou que Oleg Tichonovitch voltasse  carga, at que este 
viu diante de si dois adversrios, em vez de um. Ento o brao de 
Karsanov ergueu-se. Segurava na mo uma coisa preta e esse objecto 
negro estalou com um som abafado no crnio enorme de Oleg.
O gigante ficou imvel, olhou para Karsanov incrdulo, revirou 
os olhos e caiu sobre si mesmo, como se tivesse sido atingido por 
um raio.
Foi como se lhe tivessem desfeito os ossos. Invadiu o 
compartimento com o tronco; e Milda, que estava aninhada no banco, 
gritou outra vez bem alto.
- Por favor - disse Karsanov muito calmo e apontou para o 
desmaiado. -  assim que se faz, camarada.
Forster olhou para a mo de Karsanov. O objecto negro era uma 
pistola e o russo tinha-lhe batido com a coronha.
- Voc tem uma pistola consigo, Pal Viktorovitch? perguntou 
Forster pensativo.
-  como v, Werner Antonovitch.
Karsanov saltou por cima do desmaiado e sentou-se  janela, 
como se nada tivesse acontecido. Milda estava sentada com as pernas 
dobradas e encostadas ao queixo e chorava em silncio, com a cara 
escondida entre as mos.

- Em primeiro lugar, obriga-me a agradecer-lhe. Werner Forster 
olhou  sua volta.
Atrs de si j se aglomeravam passageiros de outros 
compartimentos, incluindo o general e o tenor. Viam apenas o corpo 
de Oleg estendido no cho e no a trmula Milda. No sabiam o que 
tudo aquilo significava.
-  um verdadeiro camarada - disse o general, trocista, ao 
cantor -, aquele a quem a beleza dos seus cnticos fez perder a 
razo!
- Deve ser um apreciador de msica que entra em transe com o 
som da minha voz - respondeu o tenor. Iremos ouvir.
- Voc viaja sempre com uma arma? - perguntou Forster ao seu 
companheiro de viagem russo. Sentou-se perto de Milda, puxou-a para 
si e, por fim, rodeou-lhe os ombros trmulos com o brao. - No 
chores, ests segura aqui - disse-lhe com ternura. - Aqui nenhum 
mal te acontece. Vou ficar sempre ao p de ti.
- Mas custou-lhe uma data de dinheiro - comentou Karsanov 
hostil. - Ela no faz isso de graa.
Tambm Mulanov surgiu do corredor. Gritou mesmo ao p da 
porta:
- No se mexa! Alto...
S ento  que reparou no aglomerado de pessoas  porta do 
compartimento, agitou os braos no ar e levou as mos  cabea.
- Mas que desgraa esta! - gemeu. - Eu pressenti-a.
Continuou a correr, empurrou os outros passageiros para o lado 
e quase tropeou nos ps estendidos de Oleg.
- Ah! Que ptimo! - exclamou o revisor. - Ainda bem que 
existem homens corajosos! Ainda no se extinguiram como os mamutes!
Cumprimentou o general, pulou por cima de Oleg Tichonovitch e 
sentou-se ao lado de Karsanov.
- O senhor sempre me pareceu a coragem em pessoa, camarada - 
dirigiu-se ele a Forster.
O alemo abanou a cabea e apontou para Karsanov.
- Foi Pal Viktorovitch! Desagradou-lhe que eu tivesse aplicado 
uns golpes de judo. Apesar de o judo ter sido uma luta intil, j 
que o indivduo tinha uma fora descomunal.
- O senhor! - Mulanov fitou Karsanov. "Como  que isto  
possvel?", pensou ele. "Parece uma ameixa seca e consegue derrubar 
tamanho gigante? Que truque  que utilizou? Tenho de lhe perguntar 
quando estiver sozinho." - Por favor, camaradas, regressem aos 
vossos compartimentos! - pediu, fazendo sinais a toda a gente. Este 
homem aqui derrubado cobiava Milda. Mas mesmo uma rapariga como 
ela tambm tem o direito de escolher os homens que quer para si! 
Por favor, voltem para os vossos lugares. No impeam o desempenho 
das minhas funes; o rapaz teve o castigo que merecia!
Nesse momento, apareceram tambm o director do comboio Vitali 
Diogenovitch, e o segundo-revisor, Wladlen Ifanovitch. Este trazia 
um par de algemas consigo, que o miliciano lhe tinha dado, no caso 
de apanharem o ladro do comboio.
Um revisor, na verdade, no tinha o direito de prender 
ningum, mas estava-se na presena de uma emergncia; nessas 
circunstncias era perfeitamente justificvel.
As pessoas apinhavam-se ainda  porta do compartimento quando 
Wladlen e Mulanov puxaram os braos do desmaiado Oleg para a frente 
e o algemaram.

- Manifesto o meu apreo por todos os envolvidos no caso! - 
declarou o general solenemente, enquanto se retirava. - Vou 
informar as autoridades competentes. Boris Fedorovitsch, tambm h 
cadeados para bocas de tenores?
- Ainda no se inventaram, camarada general! disse Mulanov com 
um sorriso azedo. Em seguida saiu com os dois.
- Uma lstima! - gritou o tenor com voz triunfante.
-        Devia fazer-se uma visita de cortesia s mais altas 
autoridades, de modo a que implantassem a pera...
Por fim, os curiosos dispersaram. O Expresso continuava a sua 
marcha atravs da taiga solitria.
A maioria dos passageiros no reparava na paisagem. Liam, 
dormitavam, jogavam xadrez ou cartas, discutiam sobre os planos 
para o novo ano, contavam as suas histrias, fumavam ou bebiam ch.
Por vezes surgiam aldeias mergulhadas na neve at aos 
telhados. S se conseguiam ver as chamins de pedra acima das 
brancas colinas. E algumas pessoas pensavam: "Como se pode viver 
aqui? De que vivem as pessoas neste lugar?"
Ora! A floresta alimentava-as. Os animais selvagens quase 
saltavam directamente para dentro do tacho; nos rios havia peixe em 
abundncia e quando o solo comeava a degelar, tambm cresciam 
legumes, bagas e batatas. Podiam vender-se peles. Por toda a parte 
havia depsitos estatais e para as aldeias mais isoladas havia 
mesmo pequenos avies que faziam voos de ligao... Mas ser isto 
vida?
A Sibria... a terra virgem, era ainda uma regio cheia de 
segredos. Ainda carregada de lamentos dos desterrados, mesmo 
existindo, hoje em dia, milhares de voluntrios que contribuam 
para a construo desta imensido de terra nova por eles 
conquistada.
 muito bonita esta regio, principalmente quando se est 
sentado dentro de um comboio aquecido a ver passar l fora o frio 
e a solido.
Nesta regio j no se podia contar mais com as distncias. 
Diz-se que de Novo Sansky at Platschonovski so mais de 
quatrocentos quilmetros... at se diz que:
so trs dias a andar de tren...
Oleg Tichonovitch levantou-se  terceira tentativa e encostou-
se  porta meio desconjuntada.
Sentou-se, com a cabea pendurada, e veio a si muito 
lentamente. O seu pensamento mais imediato foi levantar-se de um 
pulo, mas o director do comboio, Vitali Diogenovitch, igualmente um 
homem robusto, deu-lhe um safano no ombro.
Isso fez com que o gigante despertasse de vez. Olhou para si 
prprio e compreendeu que estava algemado.
Permaneceu sentado, no que revelou alguma esperteza, e 
limitou-se a vociferar. Os termos que ele empregava no eram apenas 
ordinrios, eram to obscenos que at mesmo Mulanov estava 
impressionado.
- Com que ento estamos na Unio Sovitica... - gritava ele, 
por exemplo. - Quando nos mostramos interessados em gastar algum 
dinheiro com uma puta, prendem-nos! Somos derrubados como ces 
raivosos! - Puxava pelas algemas e aproximava-se de Wladlen que 
estava de p, muito prximo de si. - Eu sou Oleg Tichonovitch 
Dagorski! Um operrio especializado e qualificado! Ah!
Tinha descoberto Milda, que continuava escondida atrs de 
Forster.

- L est ela! No sou suficientemente fino para ela? S 
recebe dinheiro dos da primeira classe? De camaradas janotas, de 
fedelhos arrogantes?
- No devia ter dito isso, Oleg Tichonovitch! - Karsanov 
inclinou-se para a frente. - Isso soou como desprezo pelos membros 
da classe dos camponeses e trabalhadores do Estado!
- Exijo - gritou Oleg fora de si - que todos aqui presentes me 
venham lamber o cu!
- Pois a est uma coisa que no faremos. - A voz de Karsanov 
manteve-se to calma que s por si fez aplacar o colrico revisor. 
- Mas devemos cuidar de si, Oleg Tichonovitch! O camarada tem, por 
acaso, algum interesse especial por sapatos?
- Genial! - balbuciou Mulanov. - Genial como o reconheceu, Pal 
Viktorovitch. Foi ele, claro! S podia ter sido este patife.
- E queria, por certo, pagar a Milda com um brinco!
- prosseguiu Wladlen Ifanovitch, entretanto.
- O objecto roubado da pobre viva do general...
- Sapatos? Um brinco? - Oleg puxava pelas algemas. Novamente 
em vo, na sua segunda tentativa para se levantar do cho, porque 
Vitali lhe desferiu outro golpe no ombro. - Isto  um transporte 
especial s para doidos? Se me soltarem, camaradas, atiro-me do 
comboio!  prefervel viver na taiga do que ir com vocs at 
Chabarovsk!
- Apesar de tudo, ele no pode ser o ladro - disse Mulanov 
depois de mirar os ps de Oleg. Eram, pelo menos, quatro nmeros 
acima dos de Skarnejkin. - O indivduo tem ps de elefante! 
Skarnejkin, pelo contrrio,  um homem de estatura normal.
- Pode ter querido troc-los! Sapatos novos! E um brinco de 
brilhantes  um capital seguro! - Wladlen Ifanovitch estremeceu de 
excitao. - Quem assalta mulheres, tambm as persegue!
Tratava-se de uma lgica muito sinuosa, mas neste contexto no 
era descabida.
- Vamos lev-lo. Este Dagorski  que  o ladro - disse logo 
Mulanov, sendo, imediatamente, seguido pelos veementes protestos de 
Oleg que impressionaram muito pouco. - Onde poder uma pessoa 
esconder tais coisas? Os sapatos na bagagem; o brinco algures no 
corpo! Vamos, revistem-no! Levem-no para a rea de servio e 
dispam-no todo!
- Uma ideia brilhante! - O director do comboio, Vitali, 
agarrou Oleg. - Fora daqui, seu bruto! E no ouses oferecer 
resistncia! Somos trs!
Empurraram Oleg Tichonovitch para fora da carruagem e ele 
recomeou a vociferar. Ainda se conseguia ouvir a sua voz 
retumbante ao longe:
- Querem despir-me! Esto a desrespeitar um passageiro 
inocente! Tirem-me as algemas!  assim que tratam um camarada que 
comprou um bilhete vlido at Chabarovsk...
- Agora estamos de novo sozinhos - disse Karsanov satisfeito, 
e fechou a porta do compartimento. - Claro que este Oleg no  
ladro. Mas, de outra forma, no conseguia livrar-me dele nem do 
revisor. O assunto, agora,  s consigo, Werner Antonovitch e com 
esta mulherezinha. Tenho muitas perguntas a fazer.

Captulo quinto

Foi novamente Kiaschka quem salvou Milda.
Entre Forster e Karsanov tinha-se erguido uma espcie de muro.
Sentaram-se um em frente ao outro, como antigamente nas 
trincheiras, prontos para se atacarem mutuamente, impiedosos at ao 
extermnio total.
O que at aqui haviam sido apenas mscaras apresentadas, 
foram, de imediato, arrancadas. No sabiam explicar como 
acontecera, mas a verdade  que passaram a odiar-se de repente.
O facto de Pal Viktorovitch Karsanov viajar com uma pistola no 
bolso foi, para Forster, a ltima prova de que o russo no era a 
pessoa por quem queria fazer-se passar. Um honrado professor de 
agronomia anda por a s voltas com uma arma de fogo?
E a tranquilidade e certeza que ele usou ao fazer, em 
determinada altura, um comentrio depreciativo sobre a sua 
utilizao de golpes de judo...
Foi um reparo feito a sangue-frio, que no se aprendia a 
trabalhar na terra nem com o novo mtodo de cultivo de tomate no 
Cazaquisto.
Kiaschka Ivanovna apareceu mesmo na altura certa:
precipitou-se para dentro do compartimento e apoderou-se de Milda 
como uma me que finalmente encontra um filho desaparecido.
Ento fitou Karsanov com provocao.
Pal Viktorovitch fez uma careta do mais profundo nojo assim 
que sentiu o perfume de Kiaschka.
A prostituta do transiberiano tinha os braos entrelaados  
volta de Milda como um polvo.
- O que  que eu estou a ouvir? - perguntou ela com a sua voz 
marcadamente ordinria. - Protegeram a minha avezinha? E logo ela? 
 como se a Terra se voltasse de pernas para o ar e o Sol estivesse 
de cabea para baixo!
- Equvoco! - Karsanov espumava de raiva. O efeito da sua 
surpresa foi intil, o incio de um interrogatrio falhara. - 
Intervim porque Werner Antonovitch estava em perigo. Para uma 
prostituta nem sequer pestanejo! Alm do mais, desagrada-me que um 
alemo aplique golpes de judo num cidado sovitico!
- Seja como for, tenho de lhe agradecer - disse Kiaschka.
- No  necessrio. E se quiser fazer-me um grande favor, saia 
j deste compartimento!
- Fica aqui! - balbuciou Milda entre soluos. - Fica aqui, 
peo-te! - Olhou para Forster e os seus grandes olhos estavam 
suplicantes de medo. - Porque no me deixam em paz? - gritou ela de 
sbito. - Porque me atormentam todos? Por que razo no posso 
viajar neste comboio como as outras pessoas? O que  que vocs 
todos querem de mim? J no chega que me chame Milda Tichonovna 
Lipski? Devo pendurar a minha vida ao pescoo como um cartaz? Devo 
despir-me e mostrar-vos que sou uma rapariga igual a tantos milhes 
de outras? E nada mais? O que  que querem saber de mim, o qu e 
porqu? Deixem-me em paz... em paz... em paz...!
Chorava, completamente destroada, e Kiaschka apertou a cabea 
de Milda, que tremia, de encontro ao seu peito enorme.
Esta sbita exploso da rapariga soou como uma pancada para 
aquelas trs pessoas; e todos prestaram ateno  sua reaco, j 
que os seus nervos se despedaaram por completo.

- Vocs ouviram! - disse Kiaschka baixinho e com uma voz 
totalmente diferente. Um tom de acusao maternal fez-se ouvir: - 
Mataram a sua alma...
Karsanov comportou-se como dantes. Recostou-se e tamborilou 
com os dedos na pequena mesa de abrir, ao p da janela.
Os pacotes vazios de leite saltavam de um lado para o outro.
-  assombroso - disse Karsanov. - Voc colocou exactamente as 
perguntas que eu tinha prontas para lhe fazer. Se calhar no viaja 
como as outras pessoas neste comboio. Como pode afirm-lo? Permite-
se viajar atravs da Sibria e no tem bilhete!
- Ela tem bilhete, Pal Viktorovitch - gritou Forster irritado.
- Tem agora, por seu intermdio! Mas quando embarcou?
- Os bilhetes tambm se podem conseguir, trabalhando! - opinou 
Kiaschka.
- Claro!  isso que voc faz, no ? Em cada estao um 
cliente!
- Ao menos ganho alguma coisa com isso! - Kiaschka riu-se para 
o enfurecido Karsanov. - Somos trabalhadoras como voc, quer 
duvidar? E o nosso trabalho  fisicamente mais cansativo do que o 
seu. Afirmamos isso, aqui mesmo!
- Pelo menos, sabemos que voc se chama Lipski; j  um 
progresso! - prosseguiu Karsanov firmemente. No vale a pena 
tentarem enganar-me! Milda Tichonovna no  nenhuma prostituta...
- Ai isso  que sou! - Milda deu um passo. O medo impelia-a a 
considerar um negcio sobre o qual nem sequer havia pensado antes. 
- Quero despir-me e sentar-me ao colo destes dois senhores 
desconfiados!
- Uma boa proposta! - Forster levantou-se e alcanou a sua 
mala. -  permitido fotografar escndalos?
- Atreva-se! - gritou Karsanov e deu um salto.
- Eu sei que  proibido fotografar assuntos militares na Unio 
Sovitica. Voc  algum alvo militar, Pal Viktorovitch? Voc  
algum segredo sovitico?
Karsanov ficou embaraado. Rangeu os dentes e pensou numa 
resposta sensata.
"Ele quis efectivamente preparar-me uma cilada", pensou, 
furioso. "Uma armadilha dos diabos! O que  que devo responder?"
Para aumentar o embarao, Forster acrescentou quase com 
prazer:
-        No acredito que toda a gente que anda armada esteja por 
dentro dos segredos militares...
-        Ele anda armado? - surpreendeu-se Kiaschka, de imediato. 
- Ele tem mesmo uma arma com ele?
-        No bolso das calas - disse Milda.
-        E dispara contra o qu: grozinhos de terra, senhor 
professor de agronomia? - gritou Kiaschka com um riso irnico.
Era evidente: destruram todo o plano de Karsanov por 
completo.
O russo mirava Forster cheio de dio e dava pancadas na 
mesinha de desarmar.
-        Silncio! - Deu um salto e com isto esticou os ombros um 
pouco para diante. - Abreviemos: diga-me de onde vem, Milda 
Tichonovna.  exigir muito?
-        De Sverdlovsk! - respondeu Forster logo de seguida. - Eu 
vi-a embarcar.
Milda e Kiaschka segredaram algo uma  outra; Milda abanou a 
cabea algumas vezes, mas Kiaschka queria claramente
convenc-la de alguma coisa.
-        Isso no  verdade! - replicou Karsanov.

-        Voc viu, Pal Viktorovitch? Estava na cama e ressonava 
como um porco!
-        Eu no sou nenhum porco! - contraps Karsanov.
- Mas voc estava acordado, no estava? Sentado  janela a observar 
a noite! A quem  que voc quer convencer disso?
-        A voc e a toda a gente que estiver a ouvir. Sim, estava, 
de facto,  janela quando nos aproximmos de Sverdlovsk. Queria ver 
esta cidade, a regio onde esto milhares de prisioneiros de guerra 
alemes...
- O que est voc a dizer, Werner Antonovitch? - A voz de 
Karsanov tornou-se perigosamente baixa, na expectativa. Esticou a 
cabea como uma guia prestes a atacar. - Repita l isso.
- Como se voc no tivesse ouvido muito bem! Eu ansiava por 
ver Sverdlovsk, porque  a que o meu pai est sepultado. H seis 
anos e meio! Primeiro foi condenado  morte, depois passou a priso 
perptua, depois reduziram a pena para quinze anos...
- Um criminoso de guerra!
- O seu crime foi, como comandante de uma diviso de 
aprovisionamento, ter mandado abastecer as tropas com mantimentos. 
O argumento do tribunal militar foi: o capito Anton Forster 
contribuiu largamente, desta maneira, para o aniquilamento da Unio 
Sovitica...
- Uma sentena evidente! - rugiu Karsanov.
- Por essa ordem de ideias, ento, cada soldado  um 
criminoso!
- Todos os soldados alemes, sim, sem sombra de dvida! E  
por isso que voc estava  janela?
- O meu pai regressou de Sverdlovsk como um destroo. Nunca 
mais recuperou. Contou-me que nesses seis anos e meio...
- Sem nmeros, Werner Antonovitch! Nada de mentiras 
extraordinrias! Ah, eu j conheo! Voc pertence a uma gerao 
maldita, instigadora de vinganas paternas! O chauvinismo contra 
uma Unio Sovitica pacfica!
- Quando o meu pai falava acerca da Unio Sovitica, nunca mentia. Esta terra 
estava-lhe na 
alma. Ficou destroado, mas, de qualquer modo, continuava a am-la! Nem ele 
sabia explicar porqu. O 
que ele passou em Sverdlovsk at  morte no foi retirado dos seus sonhos. A 
cada minuto a sua vida 
tornava-se mais curta e ele agarrou-se a esses seis anos e meio... Isto no  
uma razo suficientemente 
forte para ficar  janela  espera de avistar Sverdlovsk?
- Tivemos para cima de dezassete milhes de mortos
- disse Karsanov em voz surda. - Ns, os Russos, no
poderamos, de maneira nenhuma, dormir descansados com esse peso na conscincia. 
Mas dormimos!  
prprio do esprito alemo divulgar a inquietao.
- Talvez isso se deva a que na Unio Sovitica o holocausto acontece todos os 
dias, no lhe parece? 
Aqui contam-se as pessoas facilmente... numa outra dimenso!
- No deveria ter dito isso, Werner Antonovitch!
- retorquiu Karsanov, respirando com dificuldade. - Isso praticamente revoga o 
seu estatuto como 
convidado da Unio Sovitica. Escarnece, cospe e insulta a minha ptria! 
Holocausto? Mas ns somos 
canibais? Nenhum outro pas aproveitou melhor a terra, depois da guerra, do que 
a Unio Sovitica! As 
nossas escolas so exemplares; as construes industriais assemelham-se a uma 
exploso; temos os 
melhores mdicos e cientistas. As nossas universidades so pioneiras nos campos 
da ciberntica e da 
matemtica! Somos o Estado mais independente do mundo, e fomos os primeiros do 
Universo! E ento 
vem a um insignificante engenheiro alemo a querer cuspir em ns! Tem de 
justificar-se, Werner 
Antonovitch!

- Falei sobre a Unio Sovitica em que o meu pai sofreu, Karsanov.
- Ele veio como conquistador, como destruidor! E esse  tambm o seu esprito! - 
Os dedos de 
Karsanov impeliam-se como pontas de lanas contra Forster. - Temos uma paragem 
em Irkutsk. Vou 
tratar de que se registem as suas declaraes! - Subitamente, Karsanov olhou 
estarrecido e a boca abriu-
se-lhe de espanto: - Mas o que  isto? - tartamudeou, completamente 
desconcertado. - O que vem a ser 
esta loucura? Isto  inaudito!
Kiaschka comeou, com visvel gozo, a despir-se. J tinha tirado a blusa pela 
cabea e os seus 
enormes seios estavam  vontade, apenas mal cobertos e seguros por um soutien 
demasiado pequeno.
Milda imitou-a com alguma hesitao. Tinha desabotoado o casaco e deixou-o cair 
no cho, 
envergonhada. Por baixo, usava compridas meias de l e umas calas grosseiras de 
pano cru. Apesar de 
as vestes serem feias, ela estava bonita... As suas pernas no deixavam, por 
isso, de ser esbeltas e as suas 
ancas estreitas e a simetria das formas do seu corpo no podiam ser ocultadas, 
nem por uma nica vez, 
por aquelas peas de roupa abominveis.
- Calas para baixo, Milda, minha pombinha! - ordenou Kiaschka com um certo 
gozo. - Mostra 
aos camaradas o traseiro branco e delicado de uma donzela! Deve ser um deleite 
para os olhos; deve 
realmente ser o que parece! Esmaguemo-los com a nossa feminilidade!
- Basta! - gritou Karsanov. - Isto  repugnante! Onde est o revisor? Mulanov 
tinha de estar 
aqui! Vou mandar prender as duas! Isto parece uma autntica pocilga! Onde est 
Boris Federovitch?
Karsanov queria passar por Forster e pelas raparigas para chegar ao corredor, 
mas Kiaschka 
segurou-o, encostou os seus seios aos ombros dele e, deste modo, f-lo recuar.
- Largue-me! - gritava Karsanov.
- Se me agarrar, vou rejubilar, camarada! - disse Kiaschka. - Gritarei at que 
os passageiros dos 
outros compartimentos acorram para ver o que se passa! O que diria o camarada 
general se visse o 
camarada Karsanov a brincar com as suas mos nos seios de Kiaschka Ivanovna...
- Dou-te um estalo na cara! - vociferou Karsanov, quase perdendo as estribeiras.
- Duas mulheres nuas no compartimento de Karsanov e em plena luz do dia! 
Espalhar-se-ia de 
Moscovo at Irkutsk - rejubilou Kiaschka.
- Elas tambm podem puxar o sinal do alarme, Pal Viktorovitch - declarou Forster 
jovial, 
sentando-se. - Mas o que elas ainda podem fazer... Posso testemunhar que voc 
prometeu dar cinquenta 
rublos a cada uma das raparigas, compreendeu bem? Cinquenta rublos para cada 
uma, isto claro, se elas 
se despirem  sua frente! Posso jur-lo!
- Ningum vai acreditar nisso!
-        Ns tambm juramos! - disse Kiaschka sorridente.
-        Duas putas e um alemo!  a mistura certa!
-        E voc vai beber todo este cocktail maravilhoso at ao fim, Karsanov... - 
Forster olhou 
para Milda.
Ela estava ali de p,  porta, sem casaco, na sua ridcula roupa interior, 
plida de vergonha, sem 
se atrever a imitar Kiaschka, que j tinha tirado o soutien.
-        O que  que voc pretende conseguir com isto? exclamou Karsanov e recuou 
um passo, 
afastando-se da exuberncia de Kiaschka.
A prostituta seguiu-o, de imediato, para se atirar a ele de novo e agarr-lo 
ardentemente para o 
caso de entrar algum no compartimento.
-        No vai conseguir nada com isto! Tenho tempo, muito tempo at Irkutsk! 
Estas mulheres 
no podem continuar nuas, aqui no compartimento, at l...
-        No sabe do que somos capazes, camarada! - disse Kiaschka. - Voc  um 
pobre homem, 
sem qualquer tipo de fantasias erticas...
-        Como quiser!
A excitao de Karsanov abandonou-o de sbito. Parecia ter ficado entorpecido, 
algo de glacial 
emanava dele.

Kiaschka notou logo a mudana e parou de desabotoar o seu casaco apertado. 
Farejou o perigo 
com o instinto de uma raposa, sempre alerta.
Karsanov apenas meteu a mo no bolso do casaco e tirou uma carteira de couro.
-         preciso abreviar o espectculo. - Virou-se um pouco na direco de 
Forster: - O meu 
nome  Pal Viktorovitch Karsanov...
-        Isso sei eu desde o incio...
Karsanov abriu a carteira.
Kiaschka deixou cair os braos e Milda recuou e baixou-se como se lhe tivessem 
dado uma 
chicotada.
-        Sabem o que significa este bilhete de identidade?
-        perguntou Karsanov em tom duro. Forster encolheu os ombros:
-        Lamentavelmente, no.
Karsanov segurou a carteira prximo dos olhos de Forster.
- Ento olhe bem para ela, Werner Antonovitch. Sou o coronel Karsanov da KGB.
Os Servios Secretos soviticos!
Forster sentiu um frio glacial percorr-lo. Era como se o gelo siberiano 
penetrasse atravs das 
paredes da carruagem.
Kiaschka Ivanovna foi a primeira a recuperar a fala. Levantou o casaco de Milda 
do cho e 
atirou-lho. Ela prpria apanhou a blusa e entalou-a por baixo do ombro direito.
- No tenho medo dele! - disse, com a sua voz alta e ordinria. - O que  que 
nos pode fazer? Ele 
 competente para os idiotas dos polticos e no para prostitutas como ns! Pal 
Viktorovitch, porque no 
nos disse logo? Ter-me-ia poupado o trabalho de despir-me!
Sentou-se no banco estofado e escarranchou as pernas como uma regateira que se 
tivesse sentado 
atrs de um cesto com couves. O seu peito volumoso levantava e baixava mais 
depressa do que antes... 
a nica prova de que interiormente no estava to calma como parecia, por 
fora...
Karsanov voltou a meter a estreita carteira de couro, com o seu carto de 
identidade, no bolso 
e sentou-se no seu lugar perto  janela.
A sua cara sria de todos os dias, aquele aspecto de cidado honrado e 
preocupado com a famlia 
transformou-se completamente.
Quem olhasse agora para os seus olhos, recebia uma frieza - frieza de quem no 
permite nenhum 
contacto pessoal.
- Aqui neste compartimento aconteceu algo de monstruoso! - declarou Karsanov, 
agora 
impiedosamente. - A Unio Sovitica foi insultada, os nossos exrcitos gloriosos 
foram injuriados. 
Acusaram-nos do assassnio de milhares de prisioneiros de guerra alemes; 
condenaram-nos como povo 
humanitrio! No  assim, Werner Antonovitch?
- No! - respondeu Forster igualmente em voz alta e dura.
- No? Eu tenho testemunhas!
- Estvamos completamente ocupadas em tirar a roupa - replicou Kiaschka com um 
sorriso 
aberto. - Despir  uma arte, principalmente connosco! O cliente tambm paga para 
isso...
- H meios de refrescar a vossa memria! - Karsanov comprazia-se, quase com 
alegria, no seu 
banco estofado de vermelho.
L fora tinha comeado a nevar, flocos grandes, to juntos uns dos outros que 
produziam o efeito 
de uma cortina branca de croch.
A floresta interminvel por detrs erguia-se sobre colinas e afundava-se, 
confundia-se e dissolvia-
se. J no tinha forma, era apenas aquela cortina de neve flutuante.
O transiberiano seguia agora um pouco mais devagar, os carris transformados em 
montes de 
neve, os quais tinham que ser afastados para o lado pela locomotiva.
Parecia ser tudo como se dizia: que at mesmo o transiberiano, apesar das suas 
potentes 
locomotivas, elctricas e a diesel, de vez em quando parava e tinha de ser 
puxado atravs da camada de 
neve completamente congelada.
- E voc continua a fazer ameaas - disse Forster com a voz alterada. - Afirmo 
aqui com toda a 
clareza:

sou um convidado neste pas! Fui convidado pelo vosso Governo: viajo neste 
Expresso porque estou de 
posse de uma licena especial. Eu s quero, se me der a possibilidade, enviar 
uma reclamao para 
Moscovo. Quando chegar  Alemanha darei uma conferncia de imprensa para relatar 
o tratamento de 
que fui alvo na Unio Sovitica.
- J estava  espera disso. Exactamente disso!  mesmo o estilo dos 
revanchistas! Voc julga que 
me intimida, Werner Antonovitch? - Karsanov estendeu a mo. - D-me outro 
cigarro desses da sua 
marca!
- Cigarros do Ocidente em decadncia? Um americano?
Forster atirou com o mao inteiro para o colo de Karsanov. O russo tirou 
apressadamente um 
cigarro e acendeu-o com um fsforo.
Perto da porta, Milda voltou a vestir o casaco. Tremia tanto que no conseguia 
abotoar os 
botes.
Kiaschka ajudou-a e depois vestiu a sua prpria blusa.
- Conta-lhe quem tu s! - pediu-lhe ela, apesar de tudo. - No tenhas medo, 
Mildenka. Ele no te 
come. Est apenas curioso em saber como uma rapariga to nova e bonita se tornou 
numa prostituta. Um 
sentimento meramente paternal, nada mais! O interesse de um tio velho, que 
gosta, mas j no pode... 
Conta-lhe a tua vida para ele ficar satisfeito.
- Ainda vo pagar caro por tanta tagarelice! - resmungou Karsanov, venenoso, e 
saboreando, 
entretanto, o
seu cigarro com visvel prazer. - Vocs sabem que a
prostituio pblica  proibida.
- Prova-me isso, paizinho - respondeu Kiaschka indiferente. - Viajo como toda a 
gente aqui no 
comboio. Tenho bilhete. Posso
defender-me se os homens andam atrs de mim como os bodes atrs das cabras? Alm 
do mais, isso 
agrada-me... A KGB tambm quer proibir o amor?
- Por dinheiro, sim.
- Eu no aceito dinheiro. - Kiaschka fez um sorriso largo e irnico. -  
impossvel encontrar no 
comboio um nico homem que confesse que me pagou. Quem  que iria dizer tal 
coisa? Porventura diria 
o camarada secretrio do partido, na carruagem trs? Ou o presidente da 
Cooperativa Gorki, de 
Tiumen? Ou o capito do Exrcito Vermelho, na carruagem sete? Ou...
- Eles tambm? - perguntou Karsanov abalado. Com mil diabos, ela infecta o 
comboio todo! - 
Olhou pela janela e reflectiu sobre o que fazer.
Uma coisa era certa: ningum no transiberiano quereria ajud-lo. Estava sozinho, 
um combatente 
solitrio, por assim dizer. Nem uma nica vez o pessoal trabalhador do comboio 
manifestou simpatia por 
ele, e muito menos quando soubessem que ele era coronel da KGB.
S poderia esperar uma reaco de medo, vigilncia reforada e a organizao 
silenciosa de uma 
frente de defesa por parte de todos, desde a primeira at  ltima carruagem... 
Agora ajuda? Nunca!
O prprio general senil, com os seus problemas com o tenor, mostrou-se corts, 
embora 
reservado. No deu a entender a Karsanov que poderia vir a ser seu aliado.
Restava-lhe Irkutsk, o enorme entroncamento ferrovirio no mar Baical.
Na altura em que o comboio tivesse de mudar de linha e em que novas carruagens 
fossem 
atreladas  composio, ento poderia telefonar imediatamente para o escritrio 
local da KGB e 
demonstrar a sua autoridade.
Milda Tichonovna tinha-se vestido e fitava Karsanov como se ele fosse um 
carrasco que j tivesse 
levantado o machado.
Werner Forster atraiu-a a si: primeiro ela resistiu, mas depois aninhou-se nos 
seus braos como 
um pequeno gato molhado, que procura proteco e calor. Karsanov encarou aquele 
quadro de ternura 
como uma provocao. Fumou o cigarro americano, irritado e ficou com uma sede 
incontrolvel.

No entanto, o pacote de leite estava vazio; no tencionava pedir o conhaque a 
Forster, isso nunca! 
Tambm no queria ch da
garrafa-termo, a qual era enchida, todas as manhs, para o alemo, por Fedja, na 
qual ele deitava 
algumas gotas de lcool.
Ainda por cima - este ch matinal! H trs dias que a cozinha do comboio ficava 
em polvorosa 
porque a garrafa-termo do alemo no estava no programa, ainda mais durante o 
pequeno-almoo.
Como de costume, tinha de se fazer uma nova encomenda ou um pedido extra como, 
porventura, 
se fazia quando se queria dois ovos semiquentes ou duas fatias de po torrado - 
nem muito nem pouco 
torrado, antes sim de uma cor dourada: em primeiro lugar,. apoderava-se do 
cozinheiro um enorme 
desespero. Praguejava contra o estrangeiro degenerado e em seguida fazia algo 
tipicamente russo: 
esquecia-se, por completo, do pedido.
Ento, quando aps duas horas de espera por parte do convidado, ele insistia no 
seu absurdo 
pedido, ele tinha que encontrar uma sada qualquer...
Forster saiu-se bem ao dar-lhe,  socapa, cinco rublos de gorjeta, o que deixou 
Fedja  espera que 
ele lhe levasse a
garrafa-termo todas as manhs, muito cedo,  porta da cozinha e quando Forster 
regressava ao vago-
restaurante havia uma garrafa, como que por acaso, em cima de uma mesinha. Ele 
levava-a consigo e 
ficava tudo por isso mesmo.
Com este truque, Forster ultrapassou o general, o qual todas as manhs bramava e 
ameaava 
trazer para o comboio, em Irkutsk, um qumico para finalmente examinar se lhe 
davam gua de lavar 
pratos em vez de caf.
Karsanov pensou se deveria sair do compartimento para arranjar qualquer coisa 
para beber. 
Porm, sabia que se o fizesse, Kiaschka e Milda desapareceriam.
Nesse momento, o clima dentro do compartimento era altamente explosivo e no 
diminua de 
intensidade, pelo contrrio, tornava-se mais pesado. Por outro lado, cresciam as 
presses internas, cada 
vez mais fortes, dos seus companheiros de viagem.
Agora o medo pairava no ar - um bom fundamento para uma conversa posterior.
- Comecemos ento! - disse Karsanov agreste. - De onde vem, Milda Tichonovna? 
Werner 
Antonovitch, no me interrompa outra vez, nem procure, atravs de uma 
observao, inocentar o relato 
de Milda. Posso muito bem distinguir sozinho o que  verdade ou mentira! Milda, 
por que razo tem tanto 
medo?
- Ela  nova no ramo! - interveio Kiaschka, de imediato. - E logo com um coronel 
da KGB! Isso 
faz o corao descer s calas, camarada!
- Desaparea! - gritou Karsanov e ficou vermelho de raiva. - Fora! Isto  uma 
ordem!
Kiaschka levantou-se, piscou um olho a Milda e a Forster, e saiu do 
compartimento.
Era evidente que foi logo prevenir Mulanov e calculou
que ele tambm iria ser alvo daquele interrogatrio perigoso.
Milda fitou Karsanov. A sua boca pequena e pintada estremecia, mas dos seus 
lbios no saiu 
uma palavra.
- Voc est a ver que ela est embaraada - disse Forster em tom rude.
- E deve estar mesmo! - Karsanov inclinou-se para a frente. O seu olhar 
penetrante entrou em 
Milda como uma lana. - De onde vem voc?
- De Perm, camarada coronel... - respondeu Milda numa voz que mal se percebia.
- Ah! De Perm! E entrou furtivamente no transiberiano em Sverdlovsk! Como  que 
isso se 
ajusta? O comboio tambm parou em Perm!
- Acontece que tambm embarcam alguns passageiros no rpido Hamburgo-Munique e 
moram 
em Bochum... - disse Forster em voz alta.
- Deixe-se das suas comparaes ocidentais, totalmente despropositadas! - berrou 
Karsanov 
irritado.

- Fui com um homem de Perm at Sverdlovsk - respondeu Milda e a sua lngua 
parecia ter ficado 
presa.
A vergonha de ter de continuar a falar destas coisas em pblico era agora 
patente.
-        Ah! - objectou Karsanov apenas. - Continue!
-        Era um engenheiro de mineralogia. Tinha uma carrinha. Pernoitmos numa 
pequena 
estalagem em Sarancinskij. Ele... ele foi o meu primeiro cliente...
Virou a cabea, encostou o pequeno rosto no peito de Forster e comeou a chorar 
alto, como uma 
criana.
Forster acariciou-lhe os cabelos e beijou-lhe o pescoo, que tremia.
-        Seu sdico! - disse ele, condodo. - Quer destruir-lhe completamente a 
alma? Parece 
impossvel!
-        Oh! Ainda agora comecei, Werner Antonovitch. Uma alma! Devo partir-me a 
rir? Desde 
quando uma puta tem alma? Nesse stio, onde as outras pessoas podem ter algo 
semelhante a isso, nela 
s tilintam moedas! Milda Tichonovna, no se refugie nas lgrimas, isso no vai 
ajud-la em nada! Passou 
a noite com um homem, muito bem! Ento tambm tinha dinheiro! Por que razo, 
ento, saltou para este 
comboio como passageira clandestina?
-        No tinha dinheiro! - gritou Milda encostada ao peito de Forster. - Ele 
enganou-me...
- Enganou-a? Como assim?
Milda voltou-se outra vez. As lgrimas tinham-lhe esborratado a maquilhagem, que 
Kiaschka 
retocara. Estava ali um pequeno e triste palhao, abandonado pelo mundo, 
enjeitado e desamparado...
- Quando acordei de manh, a sua cama estava vazia, o carro havia desaparecido e 
no me tinha 
deixado dinheiro. Nem sei o seu nome completo. Ele dizia que se chamava Wadim. 
Apenas Wadim!
-        Julgava que vocs s trabalhavam com pagamento antecipado! - comentou 
Karsanov, 
venenoso.
- Ela  apenas uma principiante! - ripostou Forster desembaraado. - Agora j 
sabe isso! 
Finalmente acredita nela?
- Muito estranho! Muito estranho, mesmo.
Karsanov voltou a olhar pela janela.
Nesse momento, o comboio continuava a andar lentamente atravs da taiga, a 
tempestade de neve 
fustigava os vidros da janela como h pouco. Parecia que a cortina branca de 
croch se tinha tornado 
numa parede branca.
J no se via nada, apenas uma massa de neve, a qual era arremessada contra o 
comboio com 
uma fora monstruosa.
-        E depois, o que  que aconteceu?
-        Fui com um campons at Sverdlovsk. A, esperei at que chegasse o 
transiberiano. 
Contaram-me que aqui se pode ganhar muito dinheiro.
-        E em Perm no havia trabalho? Nenhum trabalho razovel? O que  que voc 
realmente 
aprendeu, Milda Tichonovna? Voc no veio ao mundo como prostituta, pois no? 
Onde est o seu pai? 
O que faz a sua me? No tem irmos honrados?
-        O meu pai morreu num acidente com uma grua.
A minha me ficou transtornada com isso e vive num lar em Perm. O meu irmo mais 
velho  mecnico. 
 casado, tem a sua prpria famlia, um pequeno apartamento... estou 
completamente sozinha...
- No nosso Estado ningum est completamente s, se no quiser! Resumindo: voc 
pertence a 
essa juventude que incentiva a que se faa sabotagem  nossa organizao, 
enquanto a nossa valiosa mo-
de-obra fica desfalcada. Juventude essa que no faz nada, segue os padres do 
Ocidente e espera que os 
nossos activos e diligentes trabalhadores os alimentem. Parasitas  o que eles 
so! Ociosos e depravados, 
semelhantes aos esgotos das casas ou, como voc, metida na cama com homens 
estranhos! Gostaria de 
apertar a mo a esse Wadim desconhecido que lhe levou o dinheiro.

- J terminou a sua ria? - perguntou Werner Forster em tom de provocao. 
Acendeu dois 
cigarros e meteu um entre os lbios finos de Milda.
Ela tossiu  primeira baforada, dobrou-se para a frente e cuspiu o cigarro para 
o cho.
- E o que  que descobriu, Pal Viktorovitch? Ficou mais esperto do que antes?
- Certamente! - Karsanov exibia um renovado sorriso mal-humorado. - Agora sei 
que ela mente...
O coronel lanou um daqueles olhares que fez gelar o corpo de Forster. Tambm 
ele sabia que 
Milda tinha mentido.
Mesmo na altura certa apareceu Mulanov, o revisor. Kiaschka tinha-lhe contado 
tudo e havia-lhe 
suplicado que fosse ajudar Milda, na medida do possvel.
- Veja-se uma coisa destas, um coronel da KGB! - tinha comentado Mulanov com um 
olhar 
sombrio. - Ento  um malandro. Por isso  que ele telefonava de noite para 
Moscovo e ningum lhe podia 
levar a mal. Temos de ser prudentes, Kiaschka, muito prudentes! Ainda nos faltam 
seis dias para chegar 
a Vadivostoque!  uma situao crtica. Quando chegarmos a Irkutsk, temos de 
arranjar maneira de 
tirar Milda do comboio, antes que o camarada Karsanov nos crie dificuldades. 
Como  que se comporta 
o alemo?
- Muito correcto, Boris Fedorovitch. Karsanov no lhe pode fazer mal porque 
Forster  um 
convidado de honra do Kremlin! Daqui a sete dias deixar a Unio Sovitica e  
melhor no fazer dele 
um mrtir poltico. Pal Viktorovitch tambm sabe disso. Mas vai depenar a nossa 
avezinha, Milda.
Kiaschka bebera um gole de ch da chvena de Mulanov e depois empoara o nariz.
- O que  que ela te disse? Disse-te de onde vem?
- Ela  de Asbest.
- Mas disse a Karsanov que era de Perm!
Ento ambos consideraram tudo, pensativos, e chegaram  concluso que era 
preciso fazer 
alguma coisa.
Mulanov ponderou e suspirou.
- Temos que distra-lo - dissera.
- Mas como  possvel distrair um co com um faro to apurado como o de 
Karsanov, durante 
sete dias?  uma coisa impossvel de realizar!
- O que mais pode suceder num comboio? J aconteceu um roubo... Mas com isso no 
se afligiu 
a KGB! Tivemos de tentar colocar no plano poltico o assunto dos sapatos 
desaparecidos de Skarnejkine 
e o brinco roubado. Fizemos de Oleg Tichonovitch Dagorski um sabotador!
- Um plano horrvel, Boris Fedorovitch - considerara Kiaschka.
- Tens algum melhor na manga?
De facto ela no tinha.
E foi assim que Mulanov apareceu no compartimento e, aos olhos de Forster e 
Milda, era um 
anjo, que limpava a testa com ambas as mos, utilizando gestos teatrais. Tinha 
empurrado o bon para 
a nuca.
- As preocupaes nunca mais acabam - comentou ele cheio de azedume. - Temos de 
mandar 
chamar a KGB para vir ao comboio em Irkutsk.
Esta ltima frase fez efeito em Karsanov, como um veneno rpido e eficaz, e ele 
aproveitou a 
observao de Mulanov com voluptuosidade autntica.
- O que foi que disse, meu caro Boris Fedorovitch?
- inquiriu ele com uma amabilidade hipcrita. - Rpido! No hesite, comunique-me 
as suas observaes!
-  o seguinte, camarada - comeou o revisor, cerimonioso. - Levmos Oleg 
Tichonovitch para 
um interrogatrio rigoroso, e o que  que conseguimos apurar? Nem calcula!
- Quem  Oleg Tichonovitch? - perguntou Karsanov algo embaraado.
- Devia conhec-lo melhor! Voc derrubou-o com uma pistola, esse sabotador!
- Quem  que falou com ele? - gritou Karsanov furioso.

- Eu! Todos ns. O comboio inteiro! Este Dagorski  um sabotador!
- Deixe-me em paz com o assunto desse touro! - berrou Karsanov. - Tenho aqui um 
problema 
completamente diferente!
- Nunca ouvi dizer que na Unio Sovitica deixassem passar em branco as aces 
de um 
sabotador! - declarou Mulanov quase ofendido. - Camarada, trata-se de um 
agitador que veio aterrorizar 
o melhor comboio da Unio Sovitica! Tivemos de prend-lo no vago das bagagens! 
E o que fez este 
garanho do Dagorski? Arrombou a pontaps a parede de madeira, jogou futebol com 
as bagagens e 
atirou com os sacos do correio  cabea do camarada controlador da 
correspondncia! Em resumo, agiu 
como um porco num chiqueiro. S conseguimos prend-lo de novo com a ajuda de 
quatro homens! Agora 
est l a cuspir em toda a gente que se aproxima dele! - Mulanov no se 
preocupou com o facto de que 
Karsanov procurava, continuamente, interromp-lo. - Voc  um homem inteligente, 
camarada, um 
homem erudito! Um estudioso!  inclusive professor! Tem de informar Dagorski que 
 melhor para ele 
ficar quieto. J estive com o camarada general, mas ele estava ocupado. Discutia 
com o tenor sobre 
Richard Wagner.
Finalmente Karsanov conseguiu falar. Apontou com o brao esticado para Milda e 
gritou:
- Tambm temos aqui um caso obscuro! Ela  uma mentirosa inveterada, revisor 
Mulanov!
Boris Fedorovitch endireitou-se no seu lugar.
- Camarada professor?
Karsanov meteu a mo no bolso.
"Agora", pensou Mulanov, "ele vai mostrar-me a sua identificao da KGB." E 
assim este 
primeiro "assalto" era um falhano.
Mas no pugilismo, meus amigos, h dez ou quinze assaltos e temos de lutar com 
todos os truques 
possveis... at Vadivostoque...
Karsanov puxou por uma estreita carteira de couro.
- KGB! - exclamou Mulanov, com venerao. - Eu desconfiei, camarada coronel. 
Pela sua atitude, 
a maneira de falar... O que  que manda, camarada coronel?
Karsanov, no entanto, no acrescentou mais nada, nem deu nenhuma ordem.
O comboio deu um enorme solavanco e parou to de repente que todos foram 
arremessados para 
a frente.
A pasta de Karsanov tombou da bagageira, mesmo no seu pescoo. Ele caiu de 
joelhos, revirou 
os olhos e levantou-se a gemer...
- S faltava mais esta! - gritou Mulanov e levantou-se de um salto. - Estamos 
bloqueados! 
Bloqueados no meio de uma tempestade de neve! Quando  que isto aconteceu pela 
ltima vez? H anos 
que no acontece, camarada coronel, h anos! H mesmo muito tempo! Mas agora 
estamos aqui parados! 
 uma catstrofe, digo-vos eu, uma verdadeira catstrofe!
Mulanov abriu com violncia a porta e precipitou-se para o corredor.
As pessoas acorriam, vindas dos diversos compartimentos, e obstruiam as 
passagens.
- Nada de pnico, camaradas! - gritou Mulanov e corria ao longo das carruagens, 
a fim de 
alcanar o director do comboio. - Em breve vamos retomar o andamento! Voltem 
para os vossos lugares! 
Temos instrues especficas para casos extraordinrios como este...
Era, de facto, assim: o Expresso Transiberiano estava imvel.
Gigantescas montanhas de neve tinham coberto os carris, que ficaram 
imediatamente 
transformados em blocos de gelo. As mquinas de limpar a neve j no conseguiam 
avanar, pois as 
massas de gelo comearam a acumular-se dos lados.
O perigo de que o comboio saltasse fora dos carris era demasiado grande e temia-
se que pudesse 
ir de encontro  parede de neve com uma fora brutal.
Mais  frente estavam os dois maquinistas nas suas cabinas aquecidas, de braos 
cruzados.

O director do comboio, Vitali Diogenovitsch, comunicou, atravs de um telefone 
sem fios, com a 
estao mais prxima.
Era Irkutsk, a cento e setenta quilmetros, uma distncia que se considera, na 
Sibria, um 
passeio, mas que agora, no meio desta tremenda tempestade de neve, se tornava um 
lugar to distante 
como uma estrela.
- Vo mandar um comboio para evacuao - disse entretanto Vitali, enquanto 
esperava, com o 
auscultador no ouvido, pelos empregados com alguma competncia.
Todo o aparato dos servios municipalizados tinha j comeado a funcionar, uma 
maquinaria 
gigantesca com imensas rodas que tinham todas de voltar-se na mesma direco... 
e a residia a grande 
dificuldade!
Havia um pequeno exrcito de funcionrios competentes e um exrcito ainda maior 
de 
incompetentes e cada um dizia a sua coisa.
O transiberiano est parado? Numa imensa e terrvel tempestade de neve?
Conferiam-se as estatsticas. Nos ltimos vinte anos nunca tinha acontecido tal 
coisa.
- No se sabe - disse Vitali ao telefone, a um alto funcionrio de Irkutsk.
- Temos ainda um malandro no comboio, um tal Oleg Tichonovitch Dagorski. Tambm 
temos 
connosco um coronel da KGB, o dignssimo Pal Viktorovitch Karsanov. Acha que ele 
deve assumir as 
investigaes?
Pobre Dagorski!
No entanto, no deixava de ser uma excelente ideia e Mulanov bateu no ombro de 
Vitali, em sinal 
de reconhecimento.
- Por favor, chame o coronel ao telefone - pediu a voz l longe, em Irkutsk. - 
Vamos tomar todas 
as providncias para que o comboio possa prosseguir to rpido quanto possvel!
Mulanov apressou-se a ir procurar Karsanov, o qual, de costas para Forster, se 
tinha ajoelhado 
no banco e tirado a camisa.
A mala que tinha cado l de cima batera-lhe com o fecho no pescoo e fizera-lhe 
uma ferida.
Karsanov s reparou quando sentiu correr uma coisa quente pelo colarinho.
Agora Forster e Milda estavam perto dele, limpando a ferida com um pouco de 
gaze, pincelando-a 
com tintura de iodo e aplicando, em seguida, uma ligadura.
Karsanov encolheu-se, porque o contacto da tintura de iodo com a ferida ardia-
lhe atrozmente. 
Cravou os dedos no banco.
- Voc viaja sempre com uma caixa de primeiros socorros? - perguntou ele e 
rangeu os dentes,
- Em princpio, sim! Como v, valeu a pena. Incline a cabea mais para a frente, 
Pal 
Viktorovitch... Milda j est a terminar!
- Desinfectaram a ferida?
- Claro que sim! E ela fez isso muito habilmente. Vou pr-lhe uma ligadura. - 
Forster riu em voz 
baixa. No precisa de ter medo, Karsanov, porque eu no vou aproveitar para 
estrangul-lo...
- Eu defender-me-ia! - Karsanov ficou quieto, curvou mais a cabea e sentiu os 
dedos frios de 
Milda no seu pescoo. "Ela no se livra assim", pensou ele. "Ela que no pense 
que ficou livre. Guarda 
um segredo dentro de si - e eu vou descobrir o que !"
- Voc viaja com uma caixa de primeiros socorros! - disse ele outra vez, 
trocista. - O que  que 
traz l dentro?
- Tudo o que  preciso, at mesmo morfina e um pequeno frasco de ter. Alm 
disso, tambm h 
comprimidos para a circulao, antibiticos, medicamentos contra a diarreia e a 
malria, convulses e 
bronquite, febre e dores nervosas...
- Que petulncia! - Karsanov soprou pelo nariz. Voc pensa que est num pas 
onde ainda se 
curam as doenas com estrume, ou qu? A nossa medicina  a mais avanada do 
mundo! Mas no, voc 
carrega consigo uma farmcia! Esta liberdade ocidental que vocs julgam que  a 
melhor do mundo!

- O que  que voc quer agora fazer contra a minha mala de medicamentos, Pal 
Viktorovitch?
- H aqui no comboio um pequeno posto clnico! Todos os revisores tm o curso de 
primeiros 
socorros! Os nossos funcionrios tambm, hen? Eu no quis ofend-lo e vou 
aceitar a sua oferta! Diga l 
que no sou um homem delicado!
Nesse momento, Mulanov entrou no compartimento. Vinha ofegante de ter corrido 
to depressa.
L fora a tempestade fustigava as paredes das carruagens. Uma luz plida 
penetrava pela janela, 
uma luz que fazia imaginar como seria o mundo quando desabasse.
-        Coronel Karsanov, chamam-no ao telefone! - anunciou Mulanov em sentido. 
Karsanov 
levantou a cabea, mas Forster empurrou-a outra vez para baixo.
-        Tm de esperar! - resmungou o coronel. - Quem , afinal?
-        So as autoridades de Irkutsk.
-        Estou ferido, como pode ver! - Ps a cabea ligeiramente inclinada, mas 
no conseguia 
ver nem Forster nem Milda. - Isso ainda demora muito? Mulanov, ajude a! Werner 
Antonovitch tem uma 
excelente caixa de primeiros socorros, embora no faa a menor ideia de como 
utilizar o seu contedo.
-        Nem uma pequena ideia!
Forster colocou ento uma grossa tira de gaze sobre a ferida, que ainda tinha um 
pouco de 
sangue.
- S estudei dois semestres do curso de medicina, antes de seguir engenharia.
- Mudana de profisso devido a incapacidade, no foi? - perguntou Karsanov, 
deliciado.
- No, o meu pai ficou invlido, no tnhamos mais dinheiro e eu precisava de 
escolher uma 
profisso prtica, com a qual pudesse comear a ganhar dinheiro rapidamente.
Forster comeou a enrolar a ligadura e a ligar o pescoo de Karsanov.
-        O meu pai ficou invlido em consequncia das prises russas...
-        O meu foi morto em Orel! - gritou desta vez Karsanov, dominador.
-        Sim, era a guerra, Pal Viktorovitch!
-        Escute bem o seu discurso demagogo! Voc ouviu, Mulanov; at mesmo a fazer 
um 
tratamento num ferido, vai destilando o seu veneno para dentro da ferida!
-        O camarada de Irkutsk est  espera no telefone...
-        respondeu Mulanov obstinado. - Ele tem uma misso para si.
-        Querem dar-me uma misso! - ganiu Karsanov. S me podem pedir um favor! O 
meu 
escritrio  exclusivamente em Moscovo!
A ligadura estava, agora, a ser posta mais depressa. Depois de ter o pescoo 
ligado, Karsanov 
voltou a vestir a camisa, mas teve de deixar o colarinho aberto e renunciar  
gravata.
-        Obrigado, Werner Antonovitch - disse ele constrangido e deitou um olhar  
caixa de 
primeiros socorros que estava aberta. - O comprimido para as dores vou buscar  
farmcia do comboio. 
Tambm temos meios eficazes contra as dores, tal como voc!
Acenou a Mulanov e deixou o compartimento. Passou pelas pessoas que ainda 
estavam nos 
corredores a discutir o assunto acaloradamente.
Ningum sabia onde o comboio tinha parado, mas devia ser numa maldita regio 
deserta; um 
local onde havia lobos com os olhos ramelosos de tanto chorarem...
Werner Forster fechou a porta do compartimento, embrulhou a gaze ensanguentada 
num saco 
de papel e amarrotou-o.
Milda rolhou o frasco de tintura de iodo e passou com as pontas dos dedos sobre 
uma garrafa 
castanha com um invlucro de tecido sinttico.
- Isto  ter... - murmurou ela.

- Sim,  ter. - Forster pegou-lhe na mo fria e afastou-a dali.
Depois fechou a tampa da caixa de primeiros socorros.
Adivinhara o pensamento de Milda. O desespero  muitas vezes a me das fantasias 
mais cruis.
- Isso no  a soluo para os teus problemas - disse ele categrico.
- Ainda falta muito para chegarmos a Vadivostoque, Werner Antonovitch. - Milda 
dirigiu-se  
janela.
J no se conseguia ver nada l para fora, pois a neve tapava completamente os 
vidros.
A tempestade uivava  volta do comboio como uma centena de sirenas, o vento 
ouvia-se em cada 
canto e em cada fresta. A tempestade gritava com a sua voz clara, entrando por 
cada frincha de 
ventilao dos vages, pelos cabos de ao das rodas, enfim, por todo o lado que 
calhava, e a taiga 
respondia com o ribombar e o murmrio dos seus milhes de copas de rvores.
-        Agora seria possvel... - disse Milda, encostando a testa ao vidro gelado, 
como se estivesse 
com saudades de alguma coisa.
-O qu?
-        O comboio est parado... eu podia sair!
-        No meio desta tempestade de neve? Seria uma loucura!
- Ningum me veria; ningum poderia seguir-me...
- A tempestade destruir-te-ia, Milda!
Forster atraiu-a a si e virou-a. Os seus bonitos olhos enormes pareciam vazios; 
o seu olhar estava 
to distante como o seu pensamento e esse pensamento tinha um nome:
liberdade! Finalmente, a liberdade!
Poder viver... algures... l fora numa floresta desconhecida... s no meio dos 
animais... mas 
vivendo em liberdade...
- Milda! - gritou Forster e abanou-a. - Milda, no durarias nem uma hora l 
fora!
- Aprendemos a viver com a neve e as tempestades, Werner Antonovitch. - Ela 
olhou-o a direito 
e regressou  realidade, mas ele afundou-se numa profunda tristeza. Fui criada 
numa cabana que estava 
sempre coberta de neve no Inverno e desde criana que tinha de afastar a neve 
com uma p. Sei muito 
bem como se deve reagir face a uma tempestade de gelo...
- No vou deixar-te sair! - disse Forster, imediatamente.
Um medo terrvel apoderou-se dele, de repente. Temeu que o comboio ainda ficasse 
bloqueado 
durante a noite e que, a qualquer momento, durante essas horas de espera, Milda 
tivesse oportunidade 
de saltar l para fora e desaparecer na imensido da taiga.
- Nem que seja preciso amarrar-te aqui!
- Matar-me-ias, Werner Antonovitch - disse ela paralisada.
- No! A taiga  que te mataria!
-        A taiga  minha amiga.  mais misericordiosa do que Karsanov!
- Proteger-te-ei dele!
-        J no podes fazer isso. Julgas-te intocvel s porque s um convidado do 
Governo. E isso 
que interessa a Karsanov? A KGB tem opinies prprias e impe-nas. Por toda a 
parte, onde eles 
quiserem, Werner Antonovitch! Por favor, deixa-me saltar do comboio! No 
voltarei a ter outra 
oportunidade. Irei para bem longe.
-        No vais viver como um animal!
Ele rodeou-a com ambos os braos e puxou-a para si. Sentiu o seu peito pequeno e 
duro atravs 
da camisa e o cabelo dela cheirava a feno.
-        Chegaremos a Vladivostoque e a procuraremos um navio japons que te 
leve... tambm 
sem bilhete! E ento sers livre e no precisars mais de ter medo. E conhecers 
uma vida onde no 
haver Karsanovs e...
- Mas que histria to bonita - comentou Milda suavemente.
-  a verdade, Milda!

- Mas no para mim. - Encostou a cabea ao ombro dele e evitou continuar a olh-
lo. - E porqu 
tudo isso, Werner Antonovitch? Eu sou uma ratazana, sabias disso? Kyrill 
Michailovitch  que o disse. 
Apenas uma ratazana! No conheces Kyrill Machailovitch e nem chegars a conhec-
lo. Ele foi para 
longe. Mas, de alguma maneira, tinha sempre razo. Sou, de facto, apenas uma 
ratazana. Deixa-me ir 
para junto das outras ratazanas como eu, por favor...
- Para mim, s a rapariga mais bonita que existe - disse Forster com voz rouca. 
O seu corao 
batia descompassado e respirar tornava-se uma tarefa rdua. - Milda... no deves 
saltar deste comboio 
e desaparecer para sempre! No podes fazer isso. Eu amo-te...
- Werner Antonovitch! - Ela levantou a cabea. Isso ainda  pior do que todas as 
tempestades de 
neve...
- No disseste que cresceste no meio da tempestade e da neve? Eu tambm posso 
aprender.
- Nunca, Werja, nunca...
De repente, ela lanou os braos  volta do pescoo dele, levantou-se nas pontas 
dos ps e beijou-
o.
Foi um beijo desesperado, um grito com lbios frios que o fez transbordar... Foi 
um beijo com 
todo o fervor da sua alma dilacerada.

Captulo sexto

Entretanto, Karsanov terminava a sua conversa telefnica com Irkutsk.
Ainda devia haver algum a quem Pal Viktorovitch tinha algo a dizer.
- Comecemos ento! - disse ele em primeiro lugar, e olhou para os revisores que 
estavam ao p 
de si. - Mande chamar os homens mais fortes da segunda classe e rena-os no 
vago dos correios. Temos 
ps suficientes? Seria uma situao ridcula se o transiberiano fosse detido por 
uma simples tempestade 
de neve! Camaradas, isto agora  um trabalho patritico! Voltamos a estar na 
frente de batalha!
- Quero falar com luri - disse Mulanov a Vitali, o director do comboio, enquanto 
se dirigiam para 
a segunda classe a fim de convocar os homens mais robustos.
luri era o maquinista-chefe e responsvel por toda a viagem.
- Talvez haja uma possibilidade de deixar de lado esse nojento Karsanov, quando 
nos pusermos 
em marcha. Isto  apenas uma questo de organizao...
Afinal, parece que havia no transiberiano mais doentes do que gente saudvel. 
Era assustador 
observar a
quantidade de doenas - a maioria delas invisveis e
ocultas - que seguia neste comboio.
 medida que Mulanov, Vitali e Wladlen avanavam atravs das carruagens 
procurando os 
homens mais fortes
para ir buscar as ps ao vago das bagagens e remover o amontoado de neve, viam, 
estendidos nos 
bancos, centenas de invlidos. Desviavam os olhos e relatavam com voz rouca que 
o mdico tinha 
observado que os trabalhos pesados lhes encurtava a vida.
Apenas se apresentaram no vago das bagagens aquele general meio senil, 
Karsanov, os 
funcionrios do comboio, trs engenheiros, dois comerciantes, o tenor e, 
naturalmente, Werner Forster.
O tenor esclareceu logo prontamente que, apesar do vento frio, iria cantar umas 
ariazitas para 
animar a equipa de trabalho.
- Camaradas! Encham-lhe a boca de neve! - gritou, de imediato, o general. - O 
que este individuo 
pretende  assassinar-me lentamente!
Karsanov lanou um rpido olhar ao pequeno grupo de voluntrios e sentiu 
vergonha - 
principalmente do alemo.
-  tudo? - perguntou ele rouco de excitao interior. - Vinte homens no comboio 
inteiro?
- E diz que os russos so um povo to saudvel! - opinou Forster suavemente.
- Ns somos um povo saudvel, Werner Antonovitch! - gritou Karsanov. O seu rosto 
tornou-se 
congestionado como um tomate. - Quero provar-lhe. Tenho plenos poderes em 
Irkutsk.
- Isso  ptimo. - Forster acenou com a cabea. Uma pessoa at pode fazer 
habilidades quando 
tem plenos poderes.
- Avancemos!
Karsanov fez sinal a Mulanov e ao director do comboio, Vitali Diogenovitch. Eles 
elevaram o 
olhar at ao tecto abaulado do vago e pressentiram a chegada de complicaes 
graves. Mas ainda 
desconheciam a vilania enrgica que emanava do sensato, bondoso e paternal 
Karsanov.
Comeou tudo logo na primeira carruagem da segunda classe. A acocoravam-se 
todos juntos, 
apertados uns contra os outros, camponeses e operrios, trabalhadores e demais 
camaradas que 
atravessavam a Sibria e se espalhavam como estrelas pelas diversas paragens 
desta gigantesca terra 
virgem.
Cada um em seu lugar, no qual queria ficar at ao fim da sua vida - pioneiros de 
uma nova era!
Principalmente livres!

Livres como esta taiga, sem precisarem mais de se apertarem num apartamento de 
uma s 
diviso. Sem terem de viver aglomerados em blocos de apartamentos, nos quais 
tinham de compartilhar 
a casa de banho com dez famlias. A o condomnio distribua senhas para os 
balnerios, com as quais 
cada pessoa tinha o direito de chafurdar na banheira uma vez por semana. Meia 
hora, camarada e depois 
rua! H mais pessoas  espera! O ltimo inquilino ainda estava na fila,  
espera, pouco depois da meia-
noite... mas, ao menos, podia-se tomar banho!
Quem tivesse dinheiro podia mesmo utilizar sais de banho perfumados! No  um 
acto social, 
camaradas?
Agora aglomeravam-se nos vages do transiberiano rodeados de todos os odores que 
um ser 
humano  capaz de produzir. Qualquer excesso misturava-se com o cheiro dos 
cabazes que os camponeses 
traziam na bagagem.
Quem  que j assistiu a uma viagem de camponeses siberianos? Aquilo  uma 
aventura, digo-vos 
eu!
Nos cestos cacarejavam galinhas e grasnavam patos e cheirava a cebolas e pepinos 
azedos. Havia 
mesmo um porquinho muito satisfeito a grunhir dentro de um cesto e que de vez em 
quando molhava 
alguns dos camaradas que se sentavam por baixo dele.
Karsanov abriu a porta do compartimento.
Todos os rostos ficaram sombrios ao aperceberem-se do que ia acontecer.
Pal Viktorovitch deitou um olhar muito rpido aos assentos e ento abarcou com 
um gesto todos 
os homens.
- Levantem-se e dirijam-se ao vago das bagagens!
- ordenou ele. - Inclusive os doentes, que sero examinados. Temos quatro 
mdicos no comboio!
Era mentira, mas quem poderia prov-lo?
Apesar disso, ningum se mexeu no compartimento, apenas as mulheres comearam a 
choramingar deploravelmente, como se lhes quisessem levar os maridos para a 
forca.
L fora, a tempestade de neve uivava e toda aquela massa branca acumulava-se, 
cada vez mais 
alto, nas paredes do comboio. Era praticamente intil contrariar a neve com ps, 
no meio deste temporal, 
mas Irkutsk ordenara e nenhum russo se atreveria a desobedecer.
- So todos invlidos? - berrou Karsanov, tremendo de raiva. - Camaradas, tenho 
um remdio 
infalvel no bolso que cura num instante todos os achaques! Ateno!
Meteu a mo no bolso do casaco, retirou o seu carto da KGB e segurou-o bem 
alto.
Falava-se tanto em curas milagrosas dos fenmenos sagrados de Lourdes ou de 
Ftima... mas 
tudo isso eram questes insignificantes face ao resultado que produzia esse 
carto de identificao. S de 
olhar para ele, qualquer russo adquiria outra vez, inesperadamente, todas as 
suas foras.
Posto isto, todos os homens saltaram de imediato dos seus lugares, pouco 
importando se h pouco 
estavam prximos da morte, e arrastaram-se atravs do corredor at ao depsito 
das bagagens.
At mesmo os soluos das mulheres terminaram. Apenas olhavam estarrecidas para 
Karsanov 
com olhos esbugalhados e benzeram-se, com gestos rpidos, quando ele virou 
costas e se dirigiu ao 
compartimento seguinte.
Da para a frente, Karsanov no se deteve em mais pormenores. Mostrava o carto 
da KGB e 
ordenava:
- J para o vago das bagagens! - e no houve ningum que o contrariasse.
S houve um campons na carruagem trs, compartimento cinco, que ficou sentado e 
sorriu para 
Karsanov.
- Voc  surdo? - vociferou Pal Viktorovitch. -  cego? Do que  que ainda est 
 espera?
- Das minhas pernas, camarada - respondeu o campons calmamente. Inclinou-se 
para a frente, 
subiu um pouco as calas e acenou com a cabea. Debaixo da fazenda surgiram duas 
pernas de pau, as 
quais estavam quase naturalmente pregadas a um par de sapatos grosseiros.

- As verdadeiras ficaram em Wiasma, camarada. Estou  espera das prteses h 
trinta anos.
Karsanov acenou com a cabea e saiu rapidamente do compartimento.
-        Este homem est dispensado - comunicou ele a Mulanov. - Depois ocupe-se 
dele. Trate de 
saber o seu nome, morada e qual o hospital mais competente para estes casos. 
Quero saber por que razo 
ele ainda no recebeu as prteses. Entendeu, Boris Fedorovitch?
-        No - respondeu Mulanov com delicadeza. No podem ter sido extraviadas. 
Quem  que 
faz coleco de prteses?
-        Voc  um homem obstinadamente imbecil! - bufou Karsanov e continuou o seu 
caminho.
O revisor encolheu os ombros e calou-se.
"Ele no perde por esperar", pensou Mulanov, furioso. "O dia ainda no chegou ao 
fim! Ainda 
no comemos a cavar na neve! Vo morrer pessoas congeladas de frio, tenho a 
certeza..."
Meia hora depois, ambos os vages de bagagens e o do correio estavam cheios de 
homens. 
Pareciam sardinhas em lata, todos comprimidos uns contra os outros, aguardando 
novas ordens.
O chefe do vago do correio era um funcionrio pequeno e gordo e chamava-se 
Lumeneff. 
Andava a correr de um lado para o outro, irritado, no corredor do vago um, e 
estava  espera que 
Karsanov regressasse.
-        Quem me garante que no me roubam nenhum pacote? - gritou Lumeneff de 
longe, 
quando avistou Karsanov. - E sentam-se nos sacos da correspondncia, esmagam-me 
as cartas e como 
cheiram mal, camarada coronel! Recuso qualquer responsabilidade por esta remessa 
de correio! S 
deveriam ter acesso ao vago de correspondncia os funcionrios devidamente 
autorizados! Mas o
que  que est a acontecer aqui? Sim, o que se passa aqui? Sentam-se pessoas 
estranhas, com os seus 
traseiros imundos, em cima de correspondncia confidencial!
Karsanov interrompeu-o com um movimento da mo e f-lo calar-se. Com este gesto, 
conseguiu 
logo que todos os homens fizessem silncio.
Centenas de olhos miravam-no impacientes, mas tambm com um rancor dissimulado. 
Contudo, 
Pal Viktorovitch no se deixava impressionar.
No vago de bagagens nmero um, l  frente, uma enorme cantoria passava atravs 
das portas 
abertas e por cima de todas as cabeas.
O tenor! Estava, de novo, a cantar. Desta vez Devagar corria a neve...! Pelo 
meio, ouviam-se os 
bramidos do general, que empunhava um pau, ou qualquer coisa semelhante, para 
com ele matar o tenor 
 pancada...
- Camaradas! - disse Karsanov quase solenemente.
- Temos de libertar o comboio! Como,  indiferente. Mas ele tem de prosseguir a 
viagem! Somos russos, 
este  um comboio russo, est em solo russo, e  neve russa que o detm. Isso  
suficiente para qualquer 
russo com alma e corao! Espero que pensem na ptria ao retirarem cada pazada 
de neve! Apear!
Era muito fcil de dizer, mas mais difcil de fazer. Mal se abriram as portas, a 
tempestade 
penetrou no vago e atirou com uma nuvem de neve para cima de todos.
Os primeiros homens saltaram l para fora e ficaram logo mergulhados na espessa 
massa de 
neve.
Os prximos estavam hesitantes, mas algum l atrs deu um empurro; os homens 
lanaram-se 
na neve e curvaram-se. Cento e vinte e nove homens saram do comboio desta 
maneira, mas caam na 
neve, davam trambolhes uns por cima dos outros, debatiam-se, gritavam e 
vociferavam, praguejavam 
e pisavam os companheiros.
Era o caos.
Os primeiros feridos apresentavam-se com os narizes a sangrar e a pele gretada. 
Como o gelo 
trazia complicaes demasiado grandes para uma ferida, voltaram a subir para o 
comboio e refugiaram-
se nos compartimentos aquecidos.

-        Um exrcito de piolhos  mais disciplinado! - berrava Karsanov. Viu Werner 
Forster, com 
um sorriso irnico, de p perto da locomotiva com uma p na mo.
Ao lado dele esperava tambm o tenor, com um grosso cachecol embrulhado  volta 
do pescoo.
O general discutia com luri, o maquinista-chefe. Um caso idntico tinha 
acontecido aquando do 
cerco a Leninegrado. Nessa altura tinham-se desobstruido as linhas frreas com 
lana-chamas. Porque 
no se traziam lana-chamas quando se viajava atravs da Sibria? O general 
estava revoltado.
Karsanov calcou um trilho atravs da neve, quase em pedra, at onde estava 
Forster.
Era grotesco, pois dava saltos a cada passo e logo a seguir afundava-se numa 
montanha branca 
de gelo - mas conseguiu formar um carreiro.
O tenor props, ento, elevar o moral dos trabalhadores se entoassem em conjunto 
o coro dos 
escravos hebreus da pera de Verdi Nabucco: "Amada Ptria, quando te voltaremos 
a ver... "
-        No arreganhe os dentes dessa maneira assim to imbecil! - Karsanov 
descomps o 
alemo sem-cerimnia.
- Qualquer pessoa, mesmo um russo, tem de aprender a viver uma situao de 
emergncia!
- Claro. - Forster encostou-se ao cabo da p. - H pouco
esqueci-me de lhe perguntar uma coisa. Quando eu lhe estava a ligar o pescoo, 
apareceu Mulanov e 
chamou-o ao telefone. Ele tinha uma chamada para o coronel Jarsanov...
- Sim, e depois? - ripostou Karsanov, reservado.
- Como  que devo trat-lo: Jarsanov ou Karsanov?
- Continue a chamar-me Pal Viktorovitch, est sempre certo! - Karsanov voltou-se 
bruscamente. 
- Todos os homens para a locomotiva! - gritou ele sobre a multido de homens.
O vento varreu as suas palavras.
A neve bateu-lhes como se tivessem levado uma chicotada.
Num instante, os homens ficaram cobertos por uma camada branca, como uma crosta, 
e pareciam 
criaturas fantasmagricas.
 porta do vago das bagagens nmero um estavam Vitali e Wladlen e atiravam l 
para fora ps, 
traves e paus. No faziam o mesmo efeito que os lana-chamas...
Trabalharam quatro horas em seis grupos, porque de outra maneira no poderiam 
suportar 
aquele trabalho fatal.
Passada meia hora, j o corpo estava como que congelado, a cara coberta por uma 
camada de 
gotas de suor congeladas, as roupas solidificadas e havia uma grande vontade de 
voltar a subir para o 
comboio aquecido.
No vago-restaurante fazia-se ch ininterruptamente. Fedja, o empregado de mesa, 
e os seus dois 
ajudantes distribuam as bebidas fumegantes em copos de carto ou em chvenas de 
plstico.
Mas no ficava por aqui. Nos compartimentos distribuam-se pilhas de garrafas de 
vodca aos 
rduos trabalhadores e o ch aromatizado com vodca contribua bastante para que 
at os homens mais 
fracos conseguissem resistir mais um pouco.
- No julgue que a Rssia tem somente um povo de bbedos! - ofegou Karsanov 
perto de Werner 
Forster. Mas quando se atravessa a Sibria, h que ter uma pequena proviso 
connosco, de certo modo 
como um medicamento!
Apesar de muitos contratempos - por exemplo, Karsanov teve de voltar a percorrer 
o comboio, 
durante duas horas, com o seu carto da KGB e correr de l para fora com todos 
os homens que, 
entretanto, se tinham escondido -, o trabalho avanava a bom ritmo.
Parecia difcil de acreditar: escavava-se mais depressa quando o vento trazia 
mais neve. No se 
via nem ouvia nada do comboio para evacuao.

- Vou cuspir na cara de algum em Irkutsk! - gritou Karsanov aps trs horas de 
comando. - 
Promessas e mais promessas! E o que fazem eles na realidade? Descansam os seus 
prprios traseiros 
perto de foges bem aquecidos! Vou apresentar uma queixa em Moscovo at que 
todos os responsveis 
se mijem de medo pelas pernas abaixo!
No quarto turno tambm trabalhavam Kiaschka e Milda Tichonovna. Escavavam como 
os 
homens, bem tapadas, com as pernas embrulhadas em grossas mantas e atadas com 
cordis.
Milda levantou os olhos para Werner Forster algumas vezes e sorriu para ele. 
Depois enterrava 
outra vez a p no monte de neve e atirava os montes congelados para o lado.
- Suponho que reviu a sua opinio sobre Milda, meu caro Pal Viktorovitch - disse 
Forster, assim 
que fizeram uma pausa e se aproximava o prximo turno.
As pessoas que foram rendidas voltaram para o comboio e
atiraram-se como feras aos copos de ch fumegante.
O ar tresandava a aguardente. Parecia que uma fbrica de vodca tinha explodido.
- A que propsito? - inquiriu de imediato Karsanov, constrangido.
- Ela escava como um homem, assim como Kiaschka. J retiraram de seguida duas 
camadas de 
neve. As duas produzem mais do que os homens!
- Eu no sou cego, Werner Antonovitch.  admirvel, verdadeiramente admirvel! 
De Kiaschka 
ainda podemos admitir... a gaja tem fora!  francamente um exerccio 
revigorante para a sade. Mas 
e a sua Milda? Aquela frgil bonequinha? E a sua resistncia, a tenacidade? Isso 
s vem aumentar o 
enigma que ela esconde. No mostrava grande firmeza ao dizer que era uma 
prostituta em perodo de 
aprendizagem!  certo e sabido! Nada do que ela diz me convence. Quando se olha 
para ela, faz logo 
pensar que parece que nunca fez outra coisa na vida seno cavar...
- Ela disse que foi criada perto da neve.
-        Tambm eu! Como qualquer outro russo, exceptuando os do Sul. Werner 
Antonovitch, 
a sua Milda mentiu-nos aos dois. Quando o comboio retomar a marcha, prosseguirei 
o interrogatrio.
- O que  que voc ganha com isso? - Forster encostou-se a uma parte da 
locomotiva j limpa de 
neve. Quero confessar-lhe uma coisa, Pal Viktorovitch. Eu amo Milda...
- A coisa j vai assim to adiantada?
-        Houve uma exploso interior, Pal Viktorovitch. Nunca ouviu falar disso?
-        Para mim isso no passa de um monte de disparates pegados! Que futuro tem 
esse amor? 
Ela  russa, voc  alemo. Apenas alguns dias num comboio... muito bem! E 
depois? Milda no pode 
abandonar a Unio Sovitica. Voc, pelo contrrio, vai ter de faz-lo, porque o 
seu visto tem um prazo 
de validade.  muito pouco provvel que obtenha autorizao para c voltar. Bem, 
 preciso enfrentar 
uma guerra de papelada burocrtica, a embaixada vai ocupar-se deste caso e 
talvez Milda possa, 
eventualmente, ausentar-se por uns dias... mas  preciso tempo e pacincia, 
Werner Antonovitch! E nesse 
meio-tempo voc vai conhecer uma dzia de outras raparigas bonitas e dormir com 
elas!
-        No creio. No vou renunciar a Milda, Pal Viktorovitch!
- Uma mulher da vida!
- Vamos partir do pressuposto que ela no o seja...
- Pior ainda! A Unio Sovitica pode renunciar s prostitutas, mas no a uma boa 
trabalhadora! 
- Karsanov pegou no copo de ch que Mulanov lhe trouxe.
O tenor, que estava no seu tempo de descanso, cantava no vago cinco um excerto 
de Freischtz: 
"Atravs dos bosques, atravs dos prados...
O general encontrava-se sentado ao p de luri, na locomotiva, e discutia sobre a 
legitimidade do 
regulamento em transportar
lana-chamas nos comboios siberianos.
-        Acho que ela  uma prisioneira em fuga - declarou de repente Karsanov.

-        Impossvel! Que crimes  que pode ter cometido uma rapariga como Milda?
-        Vrios! - respondeu Karsanov com grosseria. Uma cara de anjo, um corpo 
bonito, um par 
de mos carinhosas, lbios que sabem beijar... so argumentos para a inocncia? 
Pode ser culpada desde 
o homicdio at  sabotagem, Werner Antonovitch!
-        Voc est possesso, Pal Viktorovitch! - gritou Forster enfurecido. - As 
suas funes na 
KGB fazem-no ver crimes em todo o lado! Voc  doente, camarada coronel, voc  
um hipocondraco!
-        Espere s! - disse Karsanov venenoso. - O tempo em que se jogava s 
escondidas j 
passou.
-        O que  que queres fazer, Mildaschka? - perguntou Kiaschka, assim que 
tiveram um 
momento para descansar e beber o ch quente com vodca. - Queres ficar junto de 
Werner Forster! Ama-
lo?
- Sim.
Milda disse aquilo to fcil e naturalmente como  o acto de comer e beber.
-        Ele tem de deixar a Unio Sovitica em Vadivostoque. O que  que 
pretendes fazer 
ento?
-        Ainda no sei, Kiaschka.
-        Ele quer casar contigo?
-        Nunca falmos sobre esse assunto. Ao fim de to poucos dias... - Milda 
sorriu tristemente. 
- Est tudo to longe ainda,  to inconcebvel... uma pessoa perde-se nos seus 
pensamentos, tal como na 
extensa taiga.
-        Talvez seja melhor pensares em ter um filho dele.
Kiaschka sorvia o ch mas primeiro dava voltas com ele na boca antes de o 
engolir.
-        Uma criana convence! Uma barriga grande at enternece os funcionrios do 
Estado. A 
tm de te deixar partir com Werner Antonovitch...
-        A mim nunca deixariam! Nunca, Kiaschka!
-        E porqu?
- Andam  minha procura...
- Como se eu j no tivesse adivinhado! - Kiaschka deitou fora o copo de carto. 
- E ento 
imaginaste fugir, ir para a taiga, esconder-te na Sibria. A regio  to 
infinita como o cu. A ningum 
te procura. Nesse lugar s livre como uma doninha ou uma raposa... e quem  que 
encontras? Um coronel 
da KGB e um alemo que facilmente te devora o corao! Uma porcaria de vida, no 
 verdade, Milda 
Tichonovna?
- Ainda falta muito para chegarmos a Vadivostoque...
- Mais cinco dias. O que so cinco dias, Mildaschka? Em cinco dias, Karsanov 
acaba contigo, eu 
conheo os mtodos da KGB! Um gancho de ferro onde nos podem pendurar tem mais 
corao do que 
esse Pal Viktorovitch. Nem mesmo Werner se pe contra ele. O que significa a 
coragem para a KGB?  
uma migalha que sopramos de cima de uma mesa...
Como j haviam retirado duas camadas de neve, ningum se escandalizou quando 
voltaram para 
o comboio e subiram para uma carruagem.
Fedja acolheu-as com sanduches de carnes frias. Ele, os seus dois ajudantes e 
ambos os 
cozinheiros do transiberiano eram as pessoas mais invejadas do comboio: no 
precisavam de ir escavar 
a neve.
- No precisas de me contar o que fizeste, se no quiseres - disse Kiaschka mais 
tarde, quando se 
sentou com Milda no seu compartimento.
Estavam sozinhas. Os homens encontravam-se a trabalhar l fora e as mulheres 
observavam-os 
pela janela.
- Agora no quero saber mais nada. No tens dinheiro?
- No.
- O que  que pretendes fazer na taiga sem dinheiro?
- Vou trabalhar para um stio qualquer. S quero viver, mais nada.

- Isso querias tu. Mas Werner Antonovitch entrou na tua vida. E agora? s capaz 
de deix-lo?
- No, Kiaschka. - Milda inclinou a cabea para trs e encostou-a ao banco. De 
repente comeou 
a chorar, baixinho, quase sem se ouvir. Os seus lbios estremeciam e as lgrimas 
abriam caminho atravs 
do rosto salpicado de neve. - Agora amo-o mais do que a prpria vida.
- Este  o discurso idiota do costume! Tens de separar-te dele em Irkutsk e mais 
tarde em Tchita. 
A tens uma oportunidade de mergulhar de verdade na Sibria. Uiva  lua, 
Mildaschka, morde a casca 
das rvores, grita o teu desgosto na taiga... apenas tens de separar-te de 
Werner Antonovitch e fugir para 
bem longe, tal como tinhas planeado. - Kiaschka inclinou-se para a frente e 
envolveu o rosto de Milda com 
ambas as mos. - Eu quero ajudar-te, minha pequena - disse a ordinria Kiaschka, 
agora com a ternura 
de uma me.
"Oh! Eu conheo estas dores da alma. No sou feita de pedra e no existo apenas 
da barriga para 
baixo. Tambm tenho sentimentos e amores verdadeiros! Sem cobrar dinheiro por 
isso! Mas do que me 
serviu isso? Um ficou debaixo de um guindaste, o outro foi condenado e 
desterrado; diz-se que para 
Magadan. E s porque era um lder estudantil que cantava a liberdade e a 
dignidade humanas. Matei-me 
por duas vezes e foi assim que amei... e no que  que me tornei? A puta de 
servio no transiberiano! No 
 um bom exemplo nem um modelo a seguir, eu sei. Mas a vida tem de continuar de 
qualquer maneira, 
mesmo sem Werner Antonovitch!
Encostou-se, escarranchou as pernas uma para cada lado e abriu o casaco. Entre 
as suas coxas 
estava pendurada, por uma tira de couro, uma bolsinha lisa.
Pasmada, Milda olhou para Kiaschka.
- Ficaste admirada com qu? - Kiaschka riu-se no seu modo grosseiro. -  o 
melhor esconderijo! 
Quem quiser meter-se comigo no pode faz-lo s escondidas! Neste lugar  que eu 
ganho o meu dinheiro 
e aqui aguardam tambm os rublos at que eu os possa pr no banco! Milda...
Abriu a bolsinha, que estava cheia de moedas. Uma
pequena fortuna, conseguida honestamente com trabalho e que s Kiaschka podia 
conceber.
- Quando me disseres: "Saio na prxima estao", dou-te como capital inicial 
quinhentos rublos. 
Sim, farei isso! Pensa nisso, Milda. No  contra Werner Antonovitch que falo,  
sim contra Karsanov. 
Ele  um demnio... eu tenho um faro especial para estas coisas...

Ao fim de quatro horas e meia, a linha frrea estava desimpedida.
luri, o maquinista-chefe, fez uma tentativa: deixou o comboio arrancar e 
dominou, com imenso 
barulho, aquele largo espao gelado.
As pessoas bateram palmas, agitaram os braos como se fazia com o lanamento de 
um barco  
gua, at se beijaram uns aos outros e - como ponto culminante - o general 
estendeu a mo ao tenor e 
disse, sorridente:
- Espero sinceramente que a partir de hoje  noite voc fique rouco!
Karsanov circulava por ali e mostrava-se to orgulhoso como se todo aquele 
trabalho tivesse sido 
feito s por si.
- A organizao  metade de uma vida! - disse ele a Forster. - s vezes , 
mesmo, a vida inteira! 
Os meus parabns, Werner Antonovitch. Voc bateu-se com muita coragem! No est 
cansado?
- Voc no sabe que eu ponho em prtica a minha actividade como mineiro, todos 
os dias? Isso 
deixa-me sempre em forma.
Werner Forster atirou a sua p, atravs da porta, para o vago das bagagens.
Mulanov sentou-se, extenuado, num banquinho. Suava terrivelmente e estava no 
limite das suas 
foras. "Finalmente sou um funcionrio e no um rob cavador. Chamo-me Mulanov e 
no Stachanov! 
A nica coisa que temos em comum  a terminao do nome em nov!

Mas eu pressenti isto, logo que embarquei em Moscovo. Esta viagem seria uma 
porcaria! Uma 
pessoa percebe logo isso ao fim de tantos anos de servio. De qualquer modo, a 
carruagem transpirava 
o perigo de antemo... apenas se podia senti-lo pelo cheiro. E aqui havia um 
demnio, sim!"
Por toda a parte, os homens regressavam ao comboio, subiam e eram acolhidos 
pelas mulheres 
como heris.
Os solteiros dirigiam-se ao vago-restaurante e misturavam-se completamente com 
Fedj a e os 
seus homens. No estava programada uma afluncia to grande - os cozinheiros 
sucumbiram.
E quando o general enviou a mensagem que queria que lhe levassem ao 
compartimento um prato 
de escalopes, eles quase romperam a chorar.
Mas o comboio continuou. Atravessou a tempestade de neve, afastou, por completo, 
os obstculos 
e desafiou todos os poderes da natureza.
Vitali telefonou para Irkutsk e comunicou a boa notcia da continuao da 
viagem. E veio a saber 
que j estava pronto a seguir um comboio alternativo.
- J no  preciso, camaradas! - ripostou Vitali, mordaz, ao aparelho. - 
Resolvemos tudo pelos 
nossos prprios meios! At o prprio camarada general colaborou!
Foi uma notcia que no produziu qualquer efeito de satisfao no competente 
pessoal de Irkutsk.
O transiberiano levou dez horas para chegar... Por precauo, quatro altos 
funcionrios de 
Irkutsk ficaram, por isso, de cama com febres altas e estavam, por conseguinte, 
incomunicveis.
J o caso era diferente com Dementi Michailovitch Skarnejkin...
Ainda nos lembramos - o fabricante de sabo, a quem tinham roubado os sapatos 
novos no 
comboio. O mesmo com cujos sabonetes Brejnev lavava as mos! Pois bem, o tal 
Skarnejkin tambm tinha 
ajudado a escavar a neve enfiado num grande par de botas, as quais lhe tinham 
sido emprestadas por luri. 
Agora sentia comicho em dois dedos dos ps e Skarnejkin supunha, com razo, que 
estavam gelados.
- Quem  que paga isto? - gritava ele para os revisores que se tinham deslocado 
ao seu 
compartimento. Estes observaram os ps de Skarnejkin, massajaram-lhe os dedos e 
tambm registaram 
que se tinha realmente verificado um enregelamento.
- E quando eu tiver de amputar os dedos? Fizeram de mim um aleijado! Os 
caminhos-de-ferro 
soviticos transformaram-me num invlido! Foi num dos vossos comboios que me 
roubaram os sapatos! 
Nos meus prprios sapatos, os meus dedos nunca ficariam congelados. Mas numas 
botas, dois nmeros 
acima, ui! O vento soprava l para dentro e cortava-me os dedos! Sou um 
desgraado! Mas eu vou 
escrever a Brejnev! Mutilaram um homem vivo, estropiaram o camarada que fabrica 
os sabonetes que 
Brejnev...
- Isto  um caso jurdico grave - disse mais tarde Vitali, o director do 
comboio, a Mulanov, o 
revisor. Deveriam tomar-se providncias. Ainda temos Dagorski sob priso. A ele 
 que devamos pr as 
culpas pelos dedos congelados...
- Ele negaria tudo. - Mulanov abanou a cabea.
- Ele parece um brutamontes? Sim. Comporta-se como um touro selvagem? Sim. 
Perseguiu Milda 
atravs do comboio? Sim. E quem agrediu quatro homens antes de chegar a ser 
algemado? Dagorski! 
Quem  que cuspia na cara de quem tentava aproximar-se dele? Dagorski! 
Resumindo: no deu qualquer 
oportunidade a que o julgassem inocente!  simplesmente o indivduo que  
preciso condenar!
Prosseguiram o caminho para ir falar com Dagorski e
participar-lhe o infeliz acidente com os dedos congelados de Skarnejkin. Mas 
Vitali e Mulanov sofreram 
um choque violento, no vago de bagagens nmero dois, quando viram um banco de 
madeira cado.
- Dagorski? - perguntou o revisor das bagagens pasmado quando os dois apareceram 
e 
perguntaram por Dagorski. Este revisor chamava-se Amorfskij e tinha mesmo cara 
disso. Sofria do 
estmago e bebia sempre ch de hortel-pimenta.

- Dagorski? Como assim, Dagorski? Ele foi ajudar a escavar a neve...
- O que  que aconteceu com ele? - gritaram Vitali e Mulanov em unssono. - 
Amorfskij, onde est 
esse patife agora?
- Talvez no seu compartimento, talvez na locomotiva, talvez ande outra vez a 
correr atrs de um 
rabo de saias... eu sei l! O coronel Karsanov ordenou: "Todos os homens l para 
fora!" No foi preciso 
mais nada! Devia contrariar a KGB? Esto doidos, camaradas! Vo ter com o 
coronel...
Meia hora depois de vasculharem o comboio todo, sabia-se o seguinte: Oleg 
Tichonovitch 
Dagorski, aquele brutamontes, ficara para trs.
Enquanto todos embarcavam e o comboio se ps em movimento ele deitara-se na 
neve. Vira, com 
um riso malicioso, passar por si o transiberiano.
Agora Dagorski estava livre e ningum podia voltar a apanh-lo; s por um mero 
acaso  que 
podia ir parar s mos da milcia.
Mas, em todo o caso, o revisor Mulanov, em posio de sentido, participou o 
acontecido ao 
coronel Karsanov.
- Quem  que poderia pensar numa coisa destas? - lamentou-se ele ainda. - Ficar 
a criatura ali 
estendida na neve, na tempestade, na mais completa solido. E ainda por cima sem 
haver provas de que 
ele  culpado!
- E voc acha que algum voluntrio se iria dar como culpado pelo roubo de um par 
de sapatos? 
- Karsanov abanou a cabea. - Ningum  to idiota.
- Conhecemos todos os seus crimes, camarada? - perguntou Mulanov em tom 
dramtico.
- O brinco da viva do general, Olga Federovna Platkina ainda faz parte das 
suspeitas que 
recaem sobre ele!
- Tambm isso no  motivo para ter ficado na taiga!
Karsanov olhou pela janela.
L fora o mundo parecia ainda mergulhado em neve. O coronel encolheu os ombros, 
arrepiado. 
A noite avanava atravs da cortina acinzentada causada pela tempestade de neve. 
Dentro de meia hora 
j estaria escuro.
O que faz uma pessoa sozinha na taiga numa noite assim?
-        Ele teve com certeza medo - disse Forster, como se pudesse ler o 
pensamento de 
Karsanov. - Nada mais do que medo! Faz-se muita coisa absurda. Abandonam-se 
comboios... ou ento 
salta-se para dentro deles...
Karsanov voltou-se. Nesse momento ele no tinha um ar nada paternal.
-        Estou demasiado cansado para continuar a discutir
consigo - disse ele. - Dou-lhe uma trgua at amanh.
Logo cedo retomarei o interrogatrio rigoroso, e ento...
-        Acenou a cabea pensativo e olhou l para fora, para o
incio do crepsculo, para o desencadear da tempestade.
-        ...A sua doce Milda no imitou Dagorski.
-        Isso no vai acontecer, Pal Viktorovitch. No enquanto eu estiver aqui.
-        Fico muitssimo mais descansado. - Karsanov levantou-se.
Mulanov comeou a abrir os bancos para transform-los em camas e a colocar a 
roupa de cama.
-         desagradvel perder dois detidos. Considere, todavia, desde j Milda 
como presa...

Uma hora mais tarde, Milda voltou para o compartimento. J era de noite. O uivo 
da tempestade 
soava medonho atravs da janela.
Karsanov, que j estava deitado na cama a ler, soergueu-se:
-        Isto  o cmulo! - rosnou ele. - Entra aqui com a maior naturalidade! 
Werner 
Antonovitch, por acaso est a pensar em dormir com ela mesmo debaixo dos meus 
olhos e dos meus 
ouvidos?

-        Voc  um porco, Karsanov! - replicou Forster tranquilo. - Volte a deitar-
se. Se era disso 
que estava  espera, pode desiludir-se! Milda fica aqui, sim... mas como 
convidada!
-        Debaixo do seu cobertor.
-        Com o meu cobertor.
- Veremos.
- No vai ver nada. Infelizmente...
Milda sentou-se timidamente e olhou para o enraivecido Karsanov, que voltou a 
deitar-se de 
costas e prosseguiu a leitura do seu livro.
- Onde devo ficar? - perguntou ela em voz baixa.
-        No posso ficar com Kiaschka. Ela tem de fazer o seu trabalho, e eu no 
posso estar l sentada 
junto dela...
- Ouviste bem. Ficas aqui, nem que houvesse cem Karsanovs! - disse Forster em 
voz alta e em tom 
provocador. - Deita-te, Milda, e dorme...
-E tu, Werner?
- Hei-de arranjar um lugar.
- Em cima! - bufou Karsanov.
- Eu no estou cansada - disse Milda tristemente. Apesar disso, tremia em 
consequncia deste dia 
difcil de esgotamento. - Posso muito bem ficar sentada...
- Tu vais deitar-te!
Forster empurrou-a pelos ombros para cima da cama, tapou-a e beijou-lhe os olhos 
fechados.
Ela levantou a sua mo pequena, acariciou-lhe o pescoo ao de leve e sorriu 
debilmente. Depois 
estendeu-se e adormeceu quase de imediato.
Werner Forster levantou-se e dirigiu-se  janela. Perto das pernas de Milda 
havia espao 
suficiente para dormir no assento.
Karsanov seguiu-lhe os movimentos pelo canto do olho.
- Realmente! O amor  mesmo um acto celestial! - disse ele desdenhoso. - Werner 
Antonovitch, 
voc tem a alma de um russo, mas em contrapartida a burrice de todos os alemes. 
Apague a luz. O livro 
 maador e olhar para si durante muito tempo tambm  igualmente cansativo!
Depois fez-se apenas uma tnue escurido, j que no corredor luzia uma luz de 
presena que 
confundia todos os contornos.
Forster esperou, como todas as noites, at que Karsanov comeasse a ressonar, 
inclinou-se mais 
uma vez sobre Milda e beijou-lhe os lbios apertados.
-        Vou tirar-te daqui! - disse ele baixinho e puxou-lhe o cobertor at ao 
queixo. - Juro-te que 
nunca amei nenhuma rapariga como te amo a ti!
A meio da noite assustaram-se todos.
Mulanov abriu a porta do compartimento e precipitou-se l para dentro.
Forster acendeu a luz, Karsanov assustou-se e bateu com a cabea de encontro  
parede. Muda 
encolheu-se como uma minhoca que se pisa.
Mulanov estava plido e to fraco das pernas que teve de
segurar-se  porta.
- Acordem, camaradas! - balbuciou ele. - Por Santo Estvo... acordem! Aconteceu 
uma coisa 
terrvel! Assassinaram Kiaschka Ivanovna...

Captulo stimo

"Sem palavras"  a expresso que se deve utilizar quando se quer mostrar que 
antes de enfrentar 
qualquer realidade, uma pessoa deve, em primeiro lugar, respirar fundo face a 
uma situao 
extraordinria.
H momentos na vida de uma pessoa em que as coisas acontecem mais depressa do 
que o crebro 
consegue pensar - ou em que o destino nos ultrapassa.
Neste caso, uma pessoa esfora-se para voltar  realidade - e era isso que Pal 
Viktorovitch 
tentava fazer naquele instante.
O chamamento assustado de Mulanov tinha-o espantado, pois estava no mais 
profundo sono e 
foi arrancado de um sonho muito agradvel. Ainda por cima bateu com a cabea e 
sentiu mais dores na 
ferida do pescoo provocada pela queda da mala.
Antes de se deitar, Forster ligou Karsanov mais uma vez e esfregou-o com uma 
pomada 
medicinal. Era uma pomada sovitica do posto clnico do transiberiano que j 
estava a ficar um pouco 
amarelada, aparentemente devido ao pouco uso; e havia dvidas que o efeito 
antibacteriano do seu 
preparado ainda fosse eficaz.
Milda Tichonovna agarrou-se a Werner Forster com um grito agudo.
Este tambm ficou to perplexo com a notcia e no conseguiu fazer mais nada do 
que acariciar 
as costas de Milda. Isso provocava apenas o efeito de um calmante.
Mulanov atirou-se para a cama de Forster, limpou a cara e tremeu violentamente.
- Ainda ningum sabe - gaguejou ele. - Apenas o camarada Ivan Ivanovitch 
Lakterian. Quis ir  
casa de banho e estava no seu pleno direito, camaradas. Quando abriu a porta e 
pretendia baixar as 
calas... o que foi que ele viu estendido num canto? Um amontoado de carne e 
sangue: Kiaschka! Perdeu 
logo a vontade do que ia fazer,
digo-vos eu! Puxou as calas para cima e veio ter comigo. Estava branco como a 
cal, o corpo tremia todo 
e balbuciava: "Camarada revisor, Kiaschka est deitada na casa de banho cinco. 
Acho que lhe aconteceu 
qualquer coisa. V l ver com os seus prprios olhos!" Fui a correr... e 
realmente l estava ela! Numa 
poa de sangue com os olhos esbugalhados. Camaradas, fiquei com o estmago e os 
intestinos 
embrulhados do susto. A primeira coisa que fiz, foi sentar-me na sanita...
- Monstruoso. - Karsanov retomou a fala. Sentou-se na cama, com o seu pijama s 
riscas, e fazia 
esforos para se mostrar um homem  altura do seu cargo. - Afaste o indivduo do 
cadver! J ligou, ao 
menos, para frkutsk?
- Ainda no, camarada coronel! Vim logo a correr para aqui. O pnico que se vai 
estabelecer no 
comboio quando se souber que houve um assassnio! Primeiro um roubo e agora at 
mataram uma 
inofensiva prostituta! Que tempos ns vivemos! Mas eu disse logo  partida, tive 
um pressentimento: este 
comboio  diferente dos outros! Vamos ter aborrecimentos neste comboio! A minha 
impresso...
- No se lamente, seu desequilibrado! - vociferou Karsanov, e puxou as pernas 
para fora da cama.
Via-se que no possua umas pernas bonitas de se verem: tinha varizes e a 
barriga das pernas 
muito grossa era o que mais saltava  vista. Na praia de Sotchi, as raparigas 
bonitas nem sequer olhavam 
para ele. Talvez fosse por isso que sofria do fgado e era intratvel...
- J examinou a morta?
-        Examinar? Aquilo deu-me volta ao estmago!
- Mulanov encostou-se  parede, extenuado. - Sangue por todo o lado! No cho, 
nas paredes!
- Voc no foi soldado, homem? - gritou Karsanov.
- Naturalmente, camarada coronel. Sargento na primeira frente de combate do 
exrcito branco...
- E no pode ver sangue?
- J vi de mais, camarada...

Era um argumento aceitvel.
Karsanov vestiu as calas por cima do pijama s riscas, abotoou o colarinho do 
casaco, o que o 
deixou um pouco mais apresentvel para a sua funo, e olhou na direco de 
Werner Forster.
- Lamento que logo voc tenha presenciado tal coisa num comboio sovitico - 
disse ele 
constrangido. - Os assassnios no acontecem normalmente no nosso expresso. De 
qualquer modo j tem 
que contar na Alemanha.
- Assassnios h em toda a parte. - Forster beijou Milda nos lbios apertados e 
embrulhou-a no 
cobertor. Acontece que no meu pas atiram os assassinados dos comboios; 
infelizmente j sucedeu 
algumas vezes.
- Tambm vem? - Karsanov preparava-se para sair do compartimento.
Mulanov procurou um cigarro e ficou agradecido quando Forster lhe atirou com o 
seu mao para 
o colo.
Milda foi de gatas at ao canto extremo da cama e puxou o cobertor at ao 
queixo. Os seus olhos 
estavam esbugalhados de medo.
-Kiaschka... - balbuciou ela. - Pobre Kiaschka. Que Deus tenha piedade dela...
- Deixe-se dessas observaes reaccionrias! - berrou Karsanov. - Deus no  
para aqui chamado. 
Mas isto  um aviso para si, Milda Tichonovna! Assim terminou a sua... colega! 
Primeiro atravs da 
sarjeta e depois dentro da sarjeta... com a garganta aberta, rasgada!
- Como  que voc sabe que abriram a garganta de Kiaschka? - perguntou logo 
Forster.
Karsanov olhou para ele perplexo.
- Foi um modo de dizer, Werner Antonovitch. Revisor!
- Camarada coronel? - Mulanov encolheu-se.
- Comunique a Irkutsk! E tambm ao director do comboio sobre a casa de banho 
nmero cinco! 
Depois disso trate de bloquear o corredor da carruagem cinco! Nem uma palavra 
aos outros passageiros! 
O caso tem de ser tratado com o maior cuidado. Mesmo sendo burro, Bons 
Fedorovitch, numa coisa voc 
tem razo: nada de pnico! Nada de ficar impressionado! Quando chegamos a 
Irkutsk?
- Dentro de duas horas, camarada coronel.
-  possvel tirar o cadver do comboio sem ser visto?
- No me parece! A menos que faamos um embrulho de Kiaschka e a faamos passar 
como 
correio para Irkutsk...
- S voc  que podia ter tal ideia! - disse Karsanov azedo. - Que maravilhoso 
seria o mundo, se 
se exterminassem os estpidos! Deixava de haver problemas com a alimentao! 
Vamos, Werner 
Antonovitch?
- Estou pronto - respondeu Forster.
- No me deixem sozinha! - lamentou-se Milda. Tremia como se estivesse sentada 
num bloco de 
gelo. - Por favor, no me deixem sozinha! Tenho tanto medo...
- No vai acontecer-lhe nada! O assassino est agora mais ocupado em confundir 
as pistas. Voc 
 muito pouco mteressante! - Karsanov arrancou o cigarro da boca de Mulanov e 
pisou-o.
- No esteja para a como umas cuecas velhas! - gritou ele. - At chegarmos a 
Irkutsk temos de 
fazer uma reconstituio de todos os factos que precederam a morte de Kiaschka! 
Talvez at consigamos 
chegar ao assassino...
Saiu para o corredor, olhou para a esquerda e para a direita - mas as portas de 
todos os 
compartimentos estavam fechadas com as cortinas corridas. As pessoas dormiam.
Karsanov empurrou Mulanov pelas costas.
-        Que horas sO?
- So precisamente trs horas e dezanove minutos, camarada coronel.
-Vamos...

Andavam s apalpadelas atravs do corredor, porque a luz de presena iluminava 
muito mal. 
Chegaram  carruagem cinco e pararam  porta da casa de banho. Mulanov limpou o 
suor frio do rosto.
- Fechei a porta  chave - disse ele.
-        Pelo menos conseguiu raciocinar! - Karsanov apontou para a porta. - Abra-
a!
Mulanov tirou do bolso a chave de quatro entradas, com a qual se fecham e abrem 
todas as 
portas, e destrancou-a.
Dentro da casa de banho cinco havia luz - via-se por debaixo da porta.
-        Vou a correr buscar o director do comboio, Vitali Diogenovitch - 
tartamudeou Mulanov.
Davam-lhe vmitos quando pensava naquilo que estava atrs daquela porta: 
Kiaschka era uma 
rapariga e jazia no cho, entalada entre a parede e o lavatrio - e havia sangue 
por todo o lado!
"Quem se admirava com aquilo?", pensou Mulanov fulminante. "Uma mulher to 
vistosa e cheia 
como Kiaschka tambm devia ter mais sangue do que as outras pessoas... "
-        Faa isso - ordenou Karsanov, como se estivesse a comandar um batalho. - 
Temos de 
concluir isto aqui primeiro.
O revisor foi a correr. E levava bastante velocidade, como se o prprio 
assassino, em pessoa, fosse 
a correr atrs dele.
Karsanov empurrou a maaneta da porta lentamente para baixo; e ento olhou para 
Werner 
Forster.
-        Agora no suje as calas! - disse ele, mas a sua voz
tornou-se, de sbito, enferrujada.
At mesmo para um oficial da KGB um assassnio no era um divertimento - 
principalmente no 
para Karsanov!
No conseguia habituar-se a ver a morte. Acontecia, de vez em quando, sempre que 
se enforcava 
um preso numa cela da Cadeia de Lublianca... mas Karsanov sentia sempre uma 
sensao de peso no 
estmago quando, no exerccio do seu dever, tinha de examinar o enforcado.
- H sempre um lado fraco em todas as profisses, camarada.
- Uma vez, num dia cinzento, tive de ir buscar dezanove pessoas soterradas numa 
mina do vale 
do Ruhr informou Werner Forster.
Depois ps a mo sobre a de Karsanov e empurraram o puxador para baixo.
A porta abriu-se. A primeira coisa que viram foi o sangue no cho de azulejos... 
depois olharam 
para Kiaschka. Tinha realmente um aspecto de fazer embrulhar os intestinos a uma 
pessoa.
Karsanov engoliu em seco.
-Atroz... - balbuciou ele, por fim.
Vitali Diogenovitch vinha a correr pelo corredor. Como no estava de servio, 
tambm trazia 
vestido um pijama s riscas. No entanto, no tinha nenhumas calas vestidas por 
cima do pijama, como 
Karsanov. Tinha tambm o cabelo todo despenteado. Contudo, para um homem que 
estava de folga, 
apresentava-se razoavelmente vestido.
- Isto no  possvel! - gaguejou ele tambm.
No  possvel! No meu comboio! Sou um desgraado, um infeliz!
Deitou um olho  casa de banho, mudou de cor, ficou esverdeado e cambaleou at  
parede do 
corredor.
Karsanov torceu a boca num sorriso amargo e irado. Tambm a ele o espectculo 
tinha 
impressionado, sentia-se gelado dos ps  cabea.
Os mortos na guerra no pareciam to terrveis - tinha, por vezes, que viver-se 
a seu lado e j no 
impressionavam tanto. Os mortos nas celas - pareciam, pelo menos, mais humanos. 
Contudo, o que ali 
jazia devia ter sido Kiaschka Ivanovna Pletjeva, e aquele quadro era superior s 
foras at de Karsanov.
Tudo aquilo deve ter sido provocado pela fria de um animal em forma de gente, 
ou ento de um 
homem num xtase sangrento que aplicara golpes sucessivos, alcanando assim a 
satisfao.
- No devemos tocar em nada at chegarem os peritos - disse Forster em voz 
rouca.

- Claro que no! - Karsanov olhou para aquela massa humana sem vida, que fora em 
tempos a 
bonita Kiaschka. - Quem  que teria tido a coragem de fazer uma coisa destas?
- Esta  uma pergunta frequente, Pal Viktorovitch.
- No tarda e voc est a fazer aluses polticas!
- Vocs, os Russos, com o vosso sentimentalismo! Por acaso dei a entender alguma 
coisa?
- O seu tom de voz, Werner Antonovitch! Sempre acusador! - Karsanov olhou para 
trs, para o 
corredor.
Mulanov estava de volta. J se tinha acalmado um pouco, enquanto Vitali ainda 
precisou de mais 
algum tempo para conseguir encarar o espectculo medonho daquela mulher 
esfaqueada.
- J informei Irkutsk - anunciou Mulanov.
- O meu colega, Wladlen Ifanovitch, ainda est na cabina telefnica e mantm 
contacto com a 
milcia. Querem vir ao nosso encontro e entrar no comboio. Assim que o comboio 
entrar em Irkutsk e os 
passageiros desembarcarem, j no  possvel haver qualquer tipo de controlo. E 
nesse caso, o assassino 
tambm pode escapar!
- Muito esperto! - Karsanov tornou a deitar uma olhadela a Kiaschka. O assassino 
tinha-lhe 
rasgado o vestido at ao pescoo e desferido vrias punhaladas.
Era preciso investigar como  que aquilo tinha acontecido. Era preciso tentar 
reconstruir o caso 
at onde fosse possvel. Em primeiro lugar, punha-se, logicamente, a hiptese de 
Kiaschka, no 
desempenho da sua profisso, ter recebido um cliente na casa de banho e dado de 
caras com um animal 
selvagem.
Karsanov atirou com a porta e fez sinal ao director do comboio para que se 
aproximasse.
- Tranque-a! E pinte um letreiro: "Fechada devido a trabalhos de reparao"!
- Imediatamente, camarada coronel! - balbuciou Vitali,
afastando-se da parede e desatando a correr.
"Para bem longe daqui", pensava ele. "Kiaschka, a nossa querida pombinha, to 
engraada e to 
companheira. No era m, era uma pessoa sempre simptica, um raio de sol... se 
assim se poderia 
chamar... e agora estava para ali cada! Despedaada! Aquilo no poderia ter 
acontecido antes ao nojento 
do Karsanov? O destino  injusto..."
- Tenho uma ideia - disse entretanto Karsanov a Forster. - O assassino est no 
comboio e no 
pode sair. Se saltasse a esta velocidade partia o pescoo. A esta hora est 
tranquilamente deitado na sua 
cama, no seu compartimento, ao p dos outros camaradas. Provavelmente est a 
beber um gole de ch, 
a ler um pouco ou ento a conversar com algum que tambm no consegue dormir. 
Talvez esteja a falar 
sobre o tempo ou sobre poltica! Ningum se apercebe de que ele  um monstro! 
Ningum? - Karsanov 
agitou a mo no ar. - Com tanto sangue que Kiaschka perdeu, o assassino tambm 
deve estar salpicado 
de sangue! Deve estar pegado s solas dos sapatos... No viram que todo o cho 
da casa de banho estava 
vermelho? Isso vai denunci-lo!
- Quer ir de compartimento em compartimento revistar toda a gente? Nessa altura 
teremos o 
pnico que voc quer evitar. - Forster abanou a cabea. - J vamos ter alvoroo 
que chegue em Irkutsk.
- Vamos fazer de uma maneira mais discreta! - Karsanov certificou-se de que a 
porta da casa de 
banho estava realmente trancada. - Vamos andar de compartimento em compartimento 
e
desculpamo-nos em cada um deles. Faremos como se estivssemos  procura de 
algum. Podemos dizer 
que um amigo nos prometeu jogar uma partida de xadrez e no apareceu.
- s quatro da madrugada?
- Um russo est sempre a jogar xadrez. No lhe importa que horas so!
- E o que  que espera encontrar, Pal Viktorovitch?
O assassino, com toda a certeza, j se lavou h muito tempo.

- As solas dos sapatos ensanguentadas! No pode t-las lavado com muito 
pormenor! Grande 
parte do sangue fica entranhado entre a sola do sapato e o taco. Isto faz parte 
de uma velha experincia!
- Julga que o assassino  algum idiota?
- No! Acho que ele  um criminoso que age por impulso! E pessoas assim, 
normalmente, deixam 
escapar qualquer coisa. Quando despertam do seu xtase, quando voltam ao normal, 
esquecem-se de 
algumas insignificncias!  assim que se identificam os criminosos.
- Mas voc no  um criminalista, Pal Viktorovitch. Voc  um entusiasta 
poltico.
- Vai recomear? Estes Alemes! No podem estar juntos, Russos e Alemes, sem 
comearem logo 
a discordar em questes polticas!
Karsanov ps-se em movimento.
Vitali Diogenovitch vinha do compartimento dos revisores.
J tinha pintado a tabuleta e pregou-a na porta da casa de banho, com dois 
pregos. Depois disso 
martelou bem e o som das marteladas retumbou atravs do silncio da noite, no 
transiberiano. "Fechada 
devido a trabalhos de reparao!"
- S imbecis! - exclamou Karsanov quase com tristeza. - S imbecis  que pregam 
pregos numa 
porta, quando se pode colar o cartaz! Venha, Werner Antonovitch, j me estou a 
irritar!
Voltaram para o compartimento e Mulanov seguiu-os como um co fiel.
Claro que as marteladas acordaram alguns passageiros, mas o revisor acalmou-os e 
esclareceu 
que a casa de banho nmero cinco estava a ser reparada: havia uma avaria 
qualquer no autoclismo. Seria 
devidamente arranjado em Irkutsk...
Os passageiros ficaram satisfeitos com a explicao, fecharam as portas dos 
compartimentos e 
voltaram a adormecer.
Milda ainda estava encolhida nO seu canto, quando Forster e Karsanov entraram no 
compartimento.
Mulanov ficou parado  porta,  laia de guarda de honra.
- Ela... ela est mesmo morta? - balbuciou Milda. A sua voz estava fraquinha 
como a de uma ave.
- Mais morta era impossvel - respondeu Karsanov insensvel e sarcstico. - Foi 
um trabalho 
metdico.
- Tenha um pouco de considerao por Milda! - reprovou Forster.
- Considerao! Uma pessoa foi chacinada, na verdadeira acepo da palavra, e 
ainda por cima 
tenho de ter tento na lngua! Werner Antonovitch, algum precisava mostrar a 
morte  sua Milda!
Karsanov sentou-se pesadamente. A cama rangeu, como se fossem OS ossos de uma 
pessoa a 
estalar.
Forster estremeceu. Os nervos! Um homem no tinha cabos de ao no corpo, ao 
invs dos nervos, 
com toda a certeza! Algures por ali haver um limite...
Tambm Karsanov parecia estar a atingir o seu limite. Olhou de soslaio, com 
inveja, para o 
alemo que acendia um cigarro.
- Tambm quer um? - perguntou Forster.
- Com prazer!
-  de uma fbrica ocidental, em decadncia!
- Voc  um sujeito antiptico, Werner Antonovitsch! - Karsanov fumava apressada 
e 
profundamente, inalando com prazer aquele tabaco adocicado. - Quando  que 
partimos?
-  consigo. No me quero comprometer.
- Podemos ter sorte.
- O assassino vai defender-se.
- Naturalmente!
Karsanov ergueu-se, tirou a sua mala da bagageira e retirou de l um objecto 
alongado. Parecia 
uma caneta de tinta permanente grossa, tinha at um aparo, e meteu-a no bolso do 
casaco. Era de um 
brilho cromado bao e tinha apenas a desvantagem de deformar o bolso onde era 
colocada.
Forster observou Karsanov com interesse.
- Mal posso acreditar - disse ele sarcstico - que o nosso assassino se vai 
render, quando voc o 
salpicar de tinta.

- No faa tantas perguntas, Werner Antonovitch. - Karsanov meteu a pretensa 
caneta de tinta 
permanente no bolso exterior do peito do casaco. - A seu tempo ser informado.
Werner Forster olhou para aquele objecto cromado e tudo o que j tinha ouvido 
dizer dos agentes 
soviticos, veio-lhe  memria. Passaram-lhe pela cabea vrios conceitos; 
imagens que ele tinha visto em 
jornais e revistas; a liquidao de incmodos exilados russos e polacos, croatas 
ou checos.
Seria essa a inveno infernal dos servios secretos, silenciosa, rpida e 
metdica para eliminar 
uma pessoa?
E este Karsanov estava ali sentado to quieto, com a "caneta de tinta 
permanente" no casaco... 
Era difcil de entender.
- J sei o que isso  - disse Forster paralisado. - No  nenhuma caneta de 
tinta permanente, mas 
sim a famosa pistola de cido ciandrico! Uma coisa diablica...
Karsanov no pareceu, de modo nenhum, aflito com isso. Apenas abanou a cabea.
- Com essas suas fantasias, voc no devia ser engenheiro de minas, mas sim 
narrador de contos 
de fadas - disse ele calmamente. - Claro que  uma caneta de tinta permanente.
- Pois sim! Alm disso, h o entusiasmo pela inveno do cido ciandrico. O 
aparo  ao mesmo 
tempo removvel e recarregvel. J vi desenhos pormenorizados sobre isso.
- Ento vamos! - Karsanov ps-se de p. Terminou de fumar o cigarro e esmagou-o 
no cinzeiro 
da janela. - Quero, pelo menos, obter alguns resultados para poder enfiar 
debaixo do nariz dos colegas 
da milcia, quando eles embarcarem.
Karsanov voltou a abrir a porta e Mulanov, que esperava no corredor, adoptou uma 
posio de 
sentido.
- Est tudo calmo no comboio - informou ele.
L fora, surgiam algumas aldeias por entre a escurido salpicada de neve. A 
taiga animava-se, 
 medida que se aproximavam regies mais povoadas.
Irkutsk e o lago Baical faziam-se anunciar.
Gigantescas pilhas de toros e tbuas interrompiam a monotonia. Apareciam as 
grandes serraes 
perto das linhas frreas, um pouco antes dos pontos de encontro dos desterrados 
que viviam aqui neste 
acampamento e que se estendiam pela floresta com machados e serras.
A madeira e as peles eram a primeira riqueza da Sibria at que se descobriu o 
petrleo, os 
minrios de ferro, o ouro, as minas de diamantes...
E dominavam-se aqueles gigantescos dilvios atravs de represas. Era produzida 
electricidade 
para milhes de pessoas... para o desenvolvimento da terra mais rica do mundo.
- Dorme - disse Werner Forster a Milda. Deitou-a na cama como se faz a uma 
criana e voltou a 
tap-la. - Agora precisas de dormir...
- Como  que eu posso dormir, Wernuschka...
Era a primeira vez que ela pronunciava o seu nome em russo, de uma forma to 
carinhosa. 
Entrelaou os braos  volta do pescoo dele e no o largou.
- Ainda vamos ter muito por que passar, Mildaschka
-        disse ele, afectuoso, e beijou-lhe os olhos suavemente.
-        Este assassnio  apenas um adiamento. Karsanov no
nos esqueceu. Depois de Irkutsk vai voltar a ocupar-se de
ns.
- E se eu me apear em Irkutsk?
- Cada pessoa que sair ser examinada pela milcia.
- Saltei para o comboio, tambm posso descer da mesma maneira... - Ela agarrou-
se a Werner. 
- Kiaschka ia proteger-me... quem vai
faz-lo agora?
- No estou c eu?
- Tu s alemo! O que  que podes fazer na Unio Sovitica?
- Veremos. J tenho uns planos.

Karsanov meteu a cabea pela porta do compartimento.
- Werner Antonovitch! - chamou ele. - Eu sei que as circunstncias o preocupam 
por no haver 
stio para a sua Milda dormir. Mas no precisa de desesperar por isso. A cama de 
Kiaschka agora est 
desocupada; Milda Tichonovna pode mudar-se!
Forster libertou-se e saiu para o corredor.
Mulanov sorriu ironicamente, de esguelha. Devia atirar-se com este Karsanov para 
fora do 
comboio, era o que queria dizer o seu olhar. "Camarada Forster, sou inteiramente 
da sua opinio... "
- Voc continua um porco, Pal Viktorovitch - disse Forster rude. - Lamento muito 
ter de dizer isto 
a um oficial da KGB. Sou uma pessoa pacfica, mas voc torna-me difcil 
continuar assim! Admiro o seu 
pas, tinha a mais elevada considerao pelo seu trabalho, fui acolhido em todo 
o lado como um amigo... 
at que voc apareceu!
- Voc no me compreende! - Pal Viktorovitch Karsanov abotoou o boto do seu 
casaco. Por 
baixo vislumbravam-se as riscas do pijama. - Voc -me simptico, apesar de 
tudo! Mas detesto que me 
tomem por imbecil. No suporto essa maldita presuno dos Alemes, essa mania da 
sabedoria e da 
superioridade que tm sobre os outros! Se corrigisse essa virtude, ento eu 
beijava-o em ambas as faces.
- Muitssimo obrigado! Disso livramo-nos os dois.
Forster fechou a porta atrs de si. Ainda conseguiu ver Milda, que se voltava 
para a parede. 
Naturalmente, sentia vontade de chorar...
- Por onde comeamos? - perguntou Forster, dominando-se a custo.
- Naturalmente pela carruagem um.
- Acha que o assassino se encontra entre as pessoas mais simples?
- No! Mas temos de proceder de uma maneira sistemtica. Carruagem por 
carruagem.
- Devamos procurar na primeira classe, Pal Viktorovitch. Se foi um crime com 
estupro, ento 
teremos de perguntar queles que podem pagar o preo de Kiaschka. Voc sabe que 
ela no era barata! 
Os camponeses e trabalhadores precisam dos seus rublos e tm mais em que gast-
los do que entre as 
pernas de uma prostituta.
- Talvez deva inspeccionar as botas do general, que lhe parece? - ponderou 
Karsanov. - Ou ento 
as do tenor?
- Porque no?
Mulanov estava a ficar impaciente. Suspeitar de to altas individualidades 
provocava-lhe 
arrepios nas costas.
- Se eu pudesse dizer uma coisa... - objectou ele.
- No! - interveio Karsanov rude. - A ideia de Werner Antonovitch no tem 
lgica...
- Pense em Oleg Tichonovitch Dagorski, aquele touro! Um homem simples, mas 
estava sempre 
disposto a pagar qualquer preo por uma horinha de exerccio fsico!
- Bem pensado - condescendeu Karsanov.
- Mas Dagorski j no est no comboio. Ah, quando eu penso nesta situao 
ridcula!
- Talvez ainda esteja...? - Mulanov comeou a tremer face a esta sua prpria 
reflexo. - Se ele se 
vingou de Kiaschka por tudo o que lhe aconteceu no transiberiano...
- Um pensamento grave! - Karsanov semicerrou os olhos. - Ele  bem capaz de uma 
monstruosidade destas! O que  que acha, Werner Antonovitch?
Forster mordeu o lbio inferior. Achou que o que Mulanov dissera tinha alguma 
lgica. Por outro 
lado...
- Ningum  to conhecido neste comboio como Dagorski - disse Forster por fim, 
pensativo. - E 
mais ningum faria tal coisa! As suas probabilidades de descobri-lo neste 
comboio so praticamente nulas. 
Um gigante como ele no pode esconder-se com facilidade por a em qualquer 
canto. Tambm no pode 
gozar com os passageiros inocentes. No, Dagorski anda a percorrer a taiga, 
enterrado na neve! Ento, 
o assassino est sentado algures num compartimento e tem um ar perfeitamente 
normal e discreto.

- Que maada! - Karsanov pegou, pouco depois, na sua grossa "caneta de tinta 
permanente". - 
Mantenhamo-nos sistemticos! Vamos comear pela carruagem
Forster fez questo de frisar logo que a busca carecia de objectividade.
Na carruagem da segunda classe, onde as pessoas se amontoavam sentadas ou 
deitadas, at 
mesmo nas bagageiras, ressonando como bodes, era completamente impossvel olhar 
para as solas dos 
sapatos fosse de quem fosse.
Demais a mais, o pretexto de procurar um parceiro para jogar xadrez era bastante 
idiota, porque 
qual destes saloios iria jogar xadrez com um homem to distinto como Karsanov?
Portanto, contentaram-se em andar por ali a examinar as pessoas; olhavam 
precisamente para 
as solas dos sapatos, que estavam visveis, das pessoas que dormiam e talvez, 
aqui ou ali, apenas com um 
olhar pudessem encontrar, com uma vaga suspeita, um determinado tipo de pessoas.
- Grandes patifes! - opinou Karsanov ao inspeccionar a carruagem dois. -  
assustadora a 
quantidade de caras torcidas que anda por a  solta pelo mundo! Pelas caras 
podiam identificar-se pelo 
menos trinta assassinos,  vontade! Werner Antonovitch, j alguma vez viu tantas 
fisionomias sombrias, 
no meio de uma multido, como neste comboio?
-  assim em todo o lado, Pal Viktorovitch! Nem toda a gente pode ter uma beleza 
inocente. 
Quando voc est deitado a ressonar (j me dei ao trabalho de o observar 
atentamente) tambm no  
o que se possa chamar de um retrato de um deus!
- Por que razo tem voc que levar tudo para o campo pessoal?
Karsanov interrompeu as buscas. Era um trabalho intil, e ele odiava caminhar em 
vo.
- S o acaso poder ajudar-nos. Que diabo, h aqui um assassino no comboio...
- Sim, isso  quase certo.
Voltaram para a carruagem deles. Forster estava preocupado com Milda, que ainda 
no tinha 
adormecido, tal o medo que a possua.
Pelo caminho, encontraram Vitali Diogenovitch, que continuava nas proximidades 
da casa de 
banho nmero cinco.
De passagem, ainda deitaram um olhar  cabina telefnica, onde Wladlen 
Ifanovitch continuava 
a falar com Irkutsk.
- Vem ai uma comisso a caminho - elucidou ele quando reconheceu Karsanov. - Os 
camaradas 
de Irkutsk esto muito nervosos.
- Isso  de admirar? - Karsanov bateu com os punhos um no outro. - Primeiro o 
roubo, depois o 
assassnio... e tudo isto no Expresso Transiberiano, o orgulho da Unio 
Sovitica! Em Moscovo tambm 
tm de saber disto...
Mulanov suspirou profundamente. "Moscovo", pensou ele. Seria preciso enviar um 
monte de 
correspondncia intil: relatrios, protocolos, depoimentos. A burocracia 
sovitica  clebre pela sua 
profundidade.
- Devo transmitir mais alguma informao a Irkutsk, camarada coronel? - 
perguntou Wladlen 
Ifanovitch com o auscultador no ouvido.
- No! Informar o qu? - Karsanov fez sinal que no, de mau humor. - No pode 
evitar que os 
passageiros que querem apear-se em Irkutsk saiam, nem det-los por precauo. 
Seria uma falta de 
considerao pelas pessoas! Outra busca, nestas circunstncias, no  realmente 
possvel! Uma merda, 
camaradas!
Fedja encontrava-se  porta do compartimento da carruagem nmero cinco, da 
primeira classe. 
Estava de p,  espera havia muito tempo, sonolento e com olheiras, mas sempre 
aprumado no seu casaco 
branco.
Segurava uma bandeja nas mos, na qual havia algumas chvenas de ch fumegante. 
Alm disso, 
havia tambm um prato com bolachas e fatias de queijo. At ali no se soubera 
que o vago-restaurante 
dispunha daquelas iguarias.

- Fui eu que encomendei isto... - disse Mulanov, hesitante. - Pensei para comigo 
que uma refeio 
ligeira iria fazer bem aos senhores...
- At que enfim voc teve uma ideia inteligente! - disse Karsanov sarcstico, 
mas ao mesmo tempo 
benevolente.
Mulanov ficou radiante.
Fedj a serviu o ch na mesinha articulada e ofereceu tambm uma chvena a Milda.
Karsanov j petiscava um pouco de queijo.
O general surgiu, de repente, vindo do compartimento vizinho. Tambm ele usava 
um pijama s 
riscas. Pelo menos  noite, a fraternidade nesta terra era perfeita.
- Cheirou-me a ch! - disse ele. -  verdade? Tenho um olfacto muito apurado, 
sabem? At j me 
custou algumas horas de sono.  realmente ch! E agora pergunto eu, qual  a 
razo da preferncia de 
servio para este compartimento? Um general tambm no tem sede?
Fedj a olhou desamparado de Karsanov a Mulanov. No tinha cabimento um simples 
empregado 
de mesa discutir com um general sovitico.
- Tem razo, camarada general - disse Karsanov, estendendo uma chvena ao 
general. Este 
sentou-se na cama de Forster, perto de Milda, facto que Karsanov registou, no 
sem troa.
- Estamos numa situao difcil. Andamos  procura de um assassino...
- Perfeito! - O general saboreou o ch quente com satisfao e depois serviu-se 
de algumas 
bolachas. - Como  o nome do jogo? Este no conheo. Eu jogo sempre com a minha 
mulher  ao "Passeio 
de Tren em Sampetersburgo". Efectivamente, Sampetersburgo e no Leninegrado! Ao 
que parece, a 
revoluo ainda no chegou s fbricas de brinquedos...
"Um sujeito infantil", pensou Karsanov, e envergonhou-se perante Forster. Devia 
proibir-se que 
ele continuasse a usar uniforme. Um general!
- O jogo chama-se "assassnio"! - disse ele em voz alta e de modo grosseiro.
Milda estremeceu.
Fedja saiu rapidamente do compartimento com a bandeja vazia. Era melhor evitar 
discusses 
quando uma pessoa era uma pobre de esprito. Quanto menos se faz, mais 
complicaes surgem na vida 
quotidiana.
- Assassnio? - O general cortou um pouco de queijo. - Excelente! Ainda posso 
entrar no jogo ou 
o nmero de jogadores  limitado?
-  limitado, camarada general! - disse Karsanov com desprezo.
- Avante! Podemos comear! Quais so as regras do jogo?
- Pega-se numa prostituta do comboio, marca-se encontro com ela numa retrete e 
apunhala-se a 
mulher. Depois foge-se.
- Devo dizer, camarada, que acho o jogo muito estpido. - O general bebeu o seu 
ch at ao fim. 
- Alm do mais  macabro! Devia ser proibido! Sem qualquer valor didctico!
- Estamos justamente  procura do assassino. - Karsanov
recostou-se.
O comboio comeou a andar mais devagar. Apareciam grupos de casas construdas 
nas clareiras 
da taiga. Construes solitrias, nas quais viviam pessoas que s conseguiam 
suportar a solido desta 
terra pelo amor que lhe tinham.
-Samonagaisk... - sussurrou Mulanov. -  aqui que embarcam os camaradas da 
misso especial...
O expresso ofegou, as rodas rangeram ruidosamente.
Surgiu uma estao. Estava bem iluminada e havia poucas pessoas  espera sob o 
telheiro. Numa 
outra via achava-se uma locomotiva e algumas carruagens.
O general encostou a cara ao vidro frio da janela.
-        Outra paragem imprevista? Porqu to depressa?
-        Samonagaisk! - Mulanov ergueu-se de um salto.
O comboio travou suavemente e depois parou.

Os menos dorminhocos aperceberam-se; e os que se deram conta, viraram-se para o 
outro lado 
e voltaram a dormir.
"Esperemos que no seja preciso escavar outra vez", pensavam eles meio a dormir. 
"Esperemos 
que no seja preciso ir de novo l para fora para aquele gelo arrepiante! 
Pagmos uma viagem de 
comboio e no trabalhos ferrovirios... "
-        Os novos jogadores! - anunciou Karsanov sarcstico e levantou-se 
prontamente. O seu 
escrnio era sincero.
-        Camarada general, agora vamos apanhar o assassino. - Saiu do compartimento 
apressadamente.
O general olhou para ele assombrado. Depois voltou-se para Forster e o seu rosto 
ficou comprido 
como uma cabea de cavalo.
-        Um assassnio de verdade? - perguntou ele com voz duvidosa. - Aqui no 
comboio? Quem 
foi? Porventura o tenor?
-        No! - Milda Tichonovna escondeu, desesperadamente, o rosto entre as mos. 
- Kiaschka 
Ivanovna...
O general ficou literalmente sem fala.

Captulo oitavo

O director da comisso especial de Irkutsk era um homem alto, de olhar lgubre, 
com um nariz 
comprido e vermelho por causa do frio. Usava um casaco de pele de urso lavvel e 
chamava-se Stepan 
Petrovitch Plotkin.
Karsanov cumprimentou-o cerimoniosamente, como competia a um oficial da KOB.
O expresso retomou a sua marcha logo que Plotkin e os seus quatro assistentes 
embarcaram. Era 
impossvel que o assassino tivesse saltado do comboio sem ser visto.
-        Onde est a morta? - perguntou Plotkin sem rodeios. Havia pouco tempo, uma 
hora, e o 
comboio chegaria a Irkutsk.
-        No lavabo nmero cinco - respondeu Mulanov rapidamente.
-        No tocaram em nada?
-        Somos alguns principiantes, Stepan Petrovitch? - retorquiu Karsanov.
-Vamos...
No continuaram. Do outro extremo do vago aproximavam-se passos. Atravs do 
corredor, 
ressoava um barulho, altos gritos e uma grande correria. Karsanov agarrou na sua 
"caneta de tinta 
permanente".
Plotkin empunhou imediatamente uma pistola.
Os assistentes, por trs dele, formaram de imediato um muro impenetrvel.
O que quer que se aproximasse seria,  partida, bloqueado aqui.
Corria atravs do corredor - quem mais poderia ser, num pijama s riscas? - o 
fabricante de 
sabonetes, Dementi Michailovitch Skarnejkin. No estava sequer sonmbulo, nem 
mesmo tinha ficado 
louco com o roubo dos seus sapatos... no, ele saltava ao longo da carruagem e 
dos corredores, fazendo 
um barulho infernal e gritava a todos os que se lhe atravessassem no caminho:
-        Felicitem-me, meus amigos! Dem-me um abrao! J os tenho de volta! J 
recuperei os 
meus lindos sapatos novos! De repente encontrei-os debaixo da minha cama, fiis 
como um cachorrinho! 
Olhem para eles! Ei-los! No so uns sapatos magnficos?
Agitava os sapatos no ar com ambas as mos. Segurou-os com a sola virada para 
cima, at 
mesmo debaixo do nariz de Karsanov e Plotkin, que olhavam para ele furiosos.
Eram, de facto, sapatos novos que mal tinham sido usados, um trabalho digno de 
nota. No 
entanto, apresentavam umas horrveis manchas vermelhas - mesmo entre a sola e o 
taco.
Sangue...
A agitao foi enorme. No exactamente porque havia sangue pegado aos sapatos de 
Skarnejkin 
- isso ningum via na fraca luz das lmpadas de presena -, mas porque as 
pessoas tinham sido 
arrancadas de um sono profundo, estavam despenteadas e haviam batido algures com 
a cabea.
Era c uma exigncia! Uma pessoa estava ali, muito satisfeita na cama, numa 
viagem aborrecida 
atravs da taiga montona e coberta de neve, e, de repente, algum desatava aos 
gritos e a agitar um par 
de sapatos no ar.
-        Diabos te levem! - berrou algum num dos compartimentos.
-        Come os sapatos, j que gostas tanto deles!
E um outro camarada - ah, h pessoas to brutais como um touro! - correu pelo 
corredor, deu 
um pontap a Skarnejkin e depois desapareceu a correr.
O desgraado cambaleou, mas continuava a segurar os
seus lindos sapatos como um tocador de pratos numa orquestra, prestes a baterem 
um no outro. Por fim, 
admirou-se muito ao ver que, ao fundo do corredor, estava uma falange de homens 
com um olhar 
tenebroso e que inclusivamente lhe apontavam uma pistola.
Skarnejkin emudeceu, escondeu os sapatos atrs das costas e empalideceu.

-        Podem atirar sobre mim  vontade! - balbuciou ele. - No volto a entregar 
os meus 
sapatos! O que se passa para ficarem assim to furiosos? So uns sapatos 
normais. O que tem isso de to 
extraordinrio?
-        O sangue! - disse Karsanov em tom duro.
-        Camarada, mostre-me os seus sapatos outra vez.
-        S mesmo  fora! - Skarnejkin estendeu as mos.
- Antes que atirem em mim...
-        Eu sou Stepan Petrovitch Plotkin, capito da milcia - disse o director da 
comisso 
especial, e guardou a pistola.
-        Um capito, e quer roubar-me os sapatos! - gritou Skarnejkin desesperado. 
- Em que 
tempos vivemos, irmos?
Karsanov tirou-lhe os sapatos das mos e mirou as solas. Depois estendeu-os a 
Plotkin.
-         sangue! - declarou ele em voz surda.
-        E a anlise comprovar como o sangue  de Kiaschka.
-        Nesse caso, temos o assassino! - Plotkin examinou o pobre Skarnejkin com 
um olhar 
penetrante.
-        Confirma que estes sapatos so seus?
-        O que  isso de confirmar? Tenho muito orgulho neles!
-        Uma besta de assassino! - disse Plotkin, abalado.
- E doido ainda por cima! Devia ser entregue a uma instituio...
-        Gostaria de esclarecer um equvoco, camarada -
intrometeu-se Karsanov. - O industrial Dementi Michailovitch Skarnejkin  um 
homem honesto. Ele 
fabrica sabonetes...
-        Com os quais o prprio Brejnev se lava! - gritou Skarnejkin entretanto. - 
O que  que 
quer exactamente de mim e dos meus sapatos?
-        Apenas algumas perguntas!
Karsanov ainda deitou um olhar s manchas de sangue e pensou, arrepiado, em 
Kiaschka, 
atrozmente chacinada na casa de banho nmero cinco.
-        Onde estavam os seus sapatos?
-        Debaixo da minha cama! Como por magia! Deitei-me  noite, descalcei os 
sapatos 
emprestados, de resto, a coisa mais horrvel que se pode imaginar. At podia 
nadar neles de to grandes 
que eram! Ainda li um pouco e depois adormeci. At agora! Ento acordei, porque 
me parecia que a 
bexiga me ia rebentar. Toquei, por acaso, debaixo da cama... e o que  que l 
estava? Os meus sapatos 
que tinham sido roubados! Camaradas, quase tive um ataque cardaco de tanta 
alegria!
-        E os sapatos emprestados? - perguntou Plotkin, como se j soubesse.
-        Ainda l esto... atirados para debaixo da cama. O que 
que quer dizer? O ladro deve ter tido compaixo! No fundo da sua alma  capaz 
de haver um homem 
sensvel. Talvez seja a necessidade que o impele a roubar, quem sabe?
Karsanov e Plotldn olharam-se rapidamente. Uma alma sensvel!
-        Os sapatos esto confiscados! - esclareceu Plotkin oficialmente. Os olhos 
de Skarnejkin 
quase lhe saltaram das rbitas.
-        O qu? - balbuciou ele. - Confiscados? Primeiro roubados e depois 
confiscados pelo 
Estado? Porqu? Qual , pois, a diferena? Protesto.
-        Pode faz-lo, por escrito, em triplicado, ao Ministrio Pblico de 
Irkutsk! - Plotkin 
examinou meticulosamente as solas.
O assassino tentara limpar o sangue, mas no havia tido tempo suficiente para 
lavar os sapatos 
por completo. Ento tinha-os levado a Skarnejkin, na esperana de que ningum o 
controlasse.
O que teria interrompido a limpeza dos sapatos do assassino?
-        Em breve ter os sapatos de volta, camarada!
-        Quando? - gritou Skarnejkin. - Quando eu tiver netos, nessa altura 
trar...
-        Assim que tivermos o assassino.
-        Que assassino? - Dementi Michailovitch passou, deste modo, com ambas as 
mos pelos 
cabelos j revoltos.

- Aquele que levou os sapatos! Algum cometeu um homicdio, com os seus sapatos 
calados, 
camarada, h duas ou trs horas! - Plotkin no deveria ter dito aquilo, pelo 
menos no to directamente, 
talvez devesse ter sido um pouco mais discreto.
Skarnejkin comeou a soluar, meteu-se no primeiro compartimento que encontrou, 
sentou-se ao 
colo de um homem que dormia no banco e comeou ento a tremer. O homem grunhiu e 
continuou a 
dormir.
-        Um co de sangue frio, este assassino! - disse Plotkin e entalou os 
sapatos debaixo do 
brao esquerdo.
- Agora mostre-me a vtima, camarada coronel!
 porta da casa de banho nmero cinco Vitali Diogenovitch continuava de 
sentinela.
Mulanov acenou-lhe pelas costas de Plotkin e fez-lhe alguns sinais. Vitali 
compreendeu 
imediatamente. Ps-se em sentido diante de Plotkin e fez o relatrio dos 
acontecimentos.
- Nada de especial a assinalar! No comboio ainda ningum sabe do assassnio.
-        Menos um par de camaradas que sabem calar-se
- lembrou Karsanov. - Boris Fedorovitch, abra a porta. - Mulanov pegou na chave 
de quatro entradas 
e abriu a
porta da casa de banho. Depois desviou-se para o lado. No queria voltar a ver 
Kiaschka naquele estado.
Karsanov empurrou a porta.
Kiaschka Ivanovna estava noutra posio. Com a travagem a fundo do comboio, 
tinha ficado 
virada de lado. Agora era possvel ver-lhe a cara e, alm do medo, tinha uma 
expresso de espanto.
Plotkin debruou-se sobre ela, sem pisar o lavabo.
-        Um golpe na garganta - disse ele, prosaico. - Foi morte imediata. Os 
outros golpes no 
peito e no ventre foram de menor importncia.
-        Uma besta com sede de sangue! - declarou Karsanov rouco. - Sem sombra de 
dvida foi 
um crime sexual!
-        Isso vai ser revelado na autpsia. - Plotkin recuou.
Os seus assistentes comearam a fazer o trabalho de rotina, como  habitual em 
todo o mundo em 
qualquer equipa especializada em homicdios: fotografaram a morta, detectaram 
pegadas, procuraram 
pormenores ou particularidades...
Plotkin encostou-se  parede na parte de fora do recinto e puxou de um cigarro. 
Karsanov 
recusou. Depois de ter fumado os decadentes cigarros ocidentais de Forster, no 
queria fumar aquela erva 
corrosiva.
-        Com que ento Kiaschka Ivanovna era uma puta?
- perguntou Plotkin.
-         uma maneira um pouco rude de pr o problema.
- Mulanov intrometeu-se. Achava Kiaschka culpada, mas queria amenizar um pouco a 
sua reputao: - 
Era uma pessoa alegre que contagiava com a sua boa disposio. Estava sempre 
pronta para a 
brincadeira.
-  uma maneira de colocar a questo - declarou Karsanov com ironia. - Distraa-
se bastante e 
ganhava razoavelmente bem com isso...
Plotkin abanou a cabea e expeliu o fumo do seu cigarro pelas narinas. Nunca se 
tinha pensado 
numa coisa daquelas...
-        Ela possua ento muito dinheiro? - perguntou ele.
-        Devia ter entre seiscentos e setecentos rublos. - Mulanov lembrou-se. Como 
tinha sido o 
dia de ontem?
Kiaschka tinha contado o dinheiro no seu compartimento de revisor: moedas 
grandes e pequenas 
e notas. Vitali Diogenovitch ainda tinha ajudado a pr as moedas em montinhos; e 
Fedja contou uma 
anedota que ouvira de um passageiro.
Foi um convvio animado, porque Fedj a levara um pouco de vodca da cozinha do 
vago-
restaurante.
Algumas horas mais tarde apareceu o assassino e Kiaschka estava morta.
-        Onde  que ela guardou o dinheiro? - Plotkin olhou para a mo 
ensanguentada de 
Kiaschka. Era a nica mo que ele podia ver do lugar onde estava. - Numa mala, 
numa bolsa?

- Muito melhor, camaradas! - Mulanov sorriu embaraado. - "Aqui no chegam sem o 
meu 
consentimento." Era o que Kiaschka sempre dizia, com toda a certeza! Ela trazia 
o dinheiro numa bolsa 
de couro, entre as pernas...
-        Foi uma boa informao, Bons Fedorovitch! - disse Karsanov, respirando com 
dificuldade.
Foi, outra vez, com Plotkin at  casa de banho e olhou l para dentro. A parte 
de baixo do corpo 
de Kiaschka estava nua. O vestido estava puxado para cima, at ao pescoo... mas 
no lugar onde deveria 
estar a bolsa de couro, no havia nada.
- Ainda  preciso fotografar? - perguntou Plotkin aos seus homens.
Eles disseram que no.
- Ento podem sair!
Karsanov cerrou os dentes.
Os assistentes no trataram o corpo de Kiaschka com delicadeza. Viraram-na de 
barriga para 
baixo e atiraram-na contra o lavatrio da casa de banho.
Plotkin acenou com a cabea satisfeito. Debaixo do corpo estava um cinto de 
couro no qual a 
bolsa do dinheiro era, aparentemente, pendurada, mas estava cortada.
-        Um homicdio por roubo! - disse Plotkin a Karsanov. - Um motivo muito 
simples!
-        E as vrias facadas que indicam muita raiva?
Karsanov saiu rapidamente para o corredor, para no ter de olhar para Kiaschka 
mais tempo.
- Esse  o segundo acto da tragdia, camarada coronel. Kiaschka foi assassinada 
por causa do 
dinheiro... e quando o assassino viu que ela estava morta, continuou a apunhal-
la s cegas.
-         primeira vista no, mas  segunda! O assassino no 
mesmo um assassino, ou melhor: nunca tinha matado ningum. Foi a primeira vez. E 
quando viu o que 
tinha feito, esse crime dominou-o e o horror apoderou-se dele enquanto 
continuava a apunhalar.
-        Um demente, portanto!
-        No! Algum que teve medo at de si prprio. Algum que descobriu o animal 
selvagem 
que tem em si e no consegue contentar-se. - Plotkin pisou o cigarro.
Nesse momento, o coronel Karsanov sentiu uma grande venerao por aquele homem. 
" um 
bom psiclogo", pensou ele. "As coisas podem ter sido assim - mas tambm podem 
ter sido de outra 
maneira! No bastava a cincia para conhecer um homem."
-        Vamos percorrer o comboio e tomar nota de toda a gente que estiver 
impaciente. No 
exteriormente... O desassossego encontra-se apenas nos olhos! - esclareceu 
Plotkin. - Uma pessoa que quer 
dinheiro e cora contra a sua vontade!
-        E como  que ele ia saber que Kiaschka escondia o seu dinheiro entre as 
pernas? - 
perguntou Mulanov.
Era admirvel: o modesto, calado e fiel funcionrio Mulanov derrotou um velho 
criminalista 
como Plotkin com as melhores reflexes da sua cabea!
O director da comisso especial de Irkutsk coou a cabea e abanou-a vrias 
vezes.
-         isso! Como? H duas possibilidades: o assassino viu a bolsa quando... 
tratava de 
negcios com Kiaschka... ou ento ouviu falar disso no pequeno crculo de 
conhecimentos da morta. Quem 
 que tinha conhecimento da bolsa de cabedal?
Mulanov ficou calado. A situao estava a ficar praticamente sem sada.
-        Uma mo cheia - respondeu ele hesitante. - Eu, Vitali Diogenovitch, 
Wladlen Ifanovitch, 
Milda Tichonovna e Werner Antonovitch Forster...
-        Quem  esse? - perguntou Plotkin em voz alta.

-        Um alemo. Engenheiro de minas e convidado do Governo. Eu responsabilizo-
me por ele! 
- Karsanov disse isto e abanou a cabea.
Mulanov olhou para ele pasmado. "Responsabilizava-se por ele", pensou, e no 
compartimento quase que 
lhe parte a cabea.
- O seu libi  to slido como as fronteiras da Unio Sovitica - acrescentou 
Karsanov.
-        Ento aqui h coisa! - replicou Plotkin lacnico.
-        H qualquer coisa que no bate certo! Cinco pessoas sabiam, seguramente, 
que Kiaschka escondia 
o seu dinheiro muito... teimosamente. Podemos reunir este grupo. - Olhou para 
Mulanov e Vitali. Wladlen 
j ele tinha conhecido quando embarcou. - E quem  essa Milda Tichonovna?
-  uma da nova gerao! - Karsanov fez um sinal negativo. - Ela estava comigo e 
com Werner 
Antonovitch no compartimento e... ainda l deve estar.
-Uma... - Plotkin no pronunciou a palavra.
- A noite inteira no compartimento! E voc no se importou? - Karsanov ficou 
vermelho como um tomate.
-        Camarada, eu entendi isso como uma pequena brincadeira de homens - disse 
ele 
cerimonioso. - Apesar de no termos motivo para estar com essas brincadeiras. 
Contudo, Werner 
Antonovitch  um homem honrado!
Foi nesse momento que Mulanov duvidou de que as pessoas s tivessem um crebro 
na cabea. 
Karsanov devia ter dois e comandava-os de c para l sempre que era preciso.
Pela segunda vez, ele defendeu o alemo... quem diria?

Karsanov pressentiu que as buscas no dariam em nada.
Irkutsk estava cada vez mais perto, a taiga tornava-se mais iluminada, surgiam 
casas para as 
quais a floresta era um jardim ameaador.
Depois atravessaram-se extensos campos, regies industriais que produziam o 
efeito de feios 
borres na paisagem.
O assassino podia apear-se livremente em Irkutsk. No se podiam deter, com 
facilidade e por 
precauo, quarenta ou cinquenta pessoas, se bem que isso no fosse um problema.
Mas os tempos modificaram-se - os soviticos j no eram to annimos como 
antigamente; 
tinham adquirido personalidade prpria...
Era impensvel dizer a um inocente: "Ests preso! s um assassino!" E ainda por 
cima sem 
provas...
O Partido estava cheio de protestos de funcionrios. Ser funcionrio pblico na 
Unio Sovitica 
era ainda uma coisa entre a honra e a pancada...
Plotkin e os seus assistentes passaram o comboio a pente fino at Irkutsk. 
Carruagem por 
carruagem.
Ele interrogou o prprio tenor, o qual confessou, com
exactido, que j tinha matado duas mil seiscentas e trinta
e quatro vezes. Na maior parte das vezes com uma espada
- em cena!
O general riu-se tanto que at lhe correram lgrimas pelas faces.
Plotkin sentiu-se profundamente ofendido e descomps o tenor. Estava a 
investigar um crime e 
no num ensaio de uma pera cmica.
Ento abriu a porta do compartimento vizinho com violncia. Milda Tichonovna 
estava a dormir. 
Werner Forster encontrava-se sentado  janela e agarrou espontaneamente no seu 
passaporte alemo 
e no ofcio do Ministrio de Moscovo.
Karsanov surgiu ao lado de Plotkin e sentou-se na sua cama desmanchada.
- Este  Werner Antonovitch - disse ele em voz baixa para no acordar Milda.
Estupefacto, Forster voltou a guardar os papis, porque Plotkin, generosamente, 
lhe fez um sinal 
negativo com a cabea.
- J lhe tinha dito que somos amigos, camarada - disse Karsanov.
- E esta  Milda? - perguntou Plotkin.

Karsanov agitou as duas mos no ar.
- Baixe a voz, Stepan Petrovitch! Ela est a dormir...
- Estou a ver! Mas preciso dela acordada!
- Porqu?
- Talvez me possa contar qualquer coisa sobre pKiaschka.
- Claro! Mas assim no apanhar o assassino! Quer levantar o vu sobre a 
carreira de prostituta 
de Kiaschka? O assassino no est em Sverdlovsk nem em Vadivostoque. Est aqui 
no comboio! E Milda 
permaneceu aqui no compartimento desde que comeou a escurecer. No  verdade, 
Werner 
Antonovitch?
- O camarada coronel tem razo. - Forster olhava para Karsanov, abismado. - 
Todos ns nos 
assustmos com a notcia que Mulanov nos trouxe!
Milda mexeu-se, suspirou sibilante a dormir e encostou a cabea no colo de 
Forster. Um bichinho 
que procurava proteco e calor.
Karsanov colocou o dedo indicador nos lbios.
- Stepan Petrovitch, por favor, fale um pouco mais baixo!
Plotkin voltou a coar a cabea. "Que fazer?", interrogava-se. "Karsanov  
coronel da KGB! 
No posso descomp-lo. Mas o que  que ele julga? Quem  que dirige aqui as 
investigaes? Quem  que 
decide quem deve falar? Quando eu quiser interrogar esta prostitutazinha, vou
faz-lo!"
Claro que para poder alcanar a paz universal teria de desistir dessa ideia! S 
levaria a uma 
discusso interminvel.
"Mas vou queixar-me! Estou aqui a cumprir o meu dever na posio de capito da 
milcia!"
- Onde  que ela guarda o dinheiro? - perguntou Plotkin, venenoso, e apontou 
para a rapariga 
adormecida.
A pergunta surpreendeu Karsanov de tal maneira que ele no soube o que 
responder.
-        Entre os seios! - respondeu Forster calmamente.
-        Um lugar seguro... e eu asseguro-me disso com as minhas mos!
Plotkin abandonou o compartimento com um rudo que mais parecia um grunhido e 
fechou a 
porta.
Karsanov descalou os sapatos e deitou-se na cama.
- Era mesmo Kiaschka? - perguntou Forster baixinho.
-Sim... - respondeu Karsanov lacnico.
- Porque  que voc fez isso?
Karsanov estremeceu violentamente, como se tivesse sido picado por uma 
tarntula. Estava 
perfeitamente escandalizado.
-        Voc perdeu o juzo? - berrou ele.
-        Pal Viktorovitch, no me refiro a Kiaschka! O que eu queria dizer  por 
que razo fingiu 
 minha frente e de Milda?
Karsanov deixou-se cair outra vez na almofada.
- Tem um cigarro que me d? - perguntou ele apenas.
-        Claro!
Forster foi buscar um mao ao bolso do casaco, cautelosamente, para no acordar 
Milda, e 
atirou-o ao coronel.
Seguiu-se depois o isqueiro.
Karsanov acendeu um cigarro vagarosamente e fumou em silncio durante um 
momento.
- Chamou-me seu amigo! - exclamou Forster, passado um bocado.
-        Foi apenas uma maneira de falar.
-        Defendeu o sono de Milda como um pai. Estou estupefacto,
Pal Viktorovitch!
-        No  nenhum mistrio - disse Karsanov tranquilamente. Seguia com a vista 
as pequenas 
nuvens de fumo.
-        Quis evitar que Plotkin apanhasse Milda no comboio em Irkutsk. A sua 
desconhecida de 
Sverdlovsk  caso meu! E assim poupei-me!
Era muito fcil de dizer, mas Forster sabia a gravidade da situao que estava 
por trs disso 
tudo. Karsanov continuava o mesmo - s podia modificar-se como um camaleo muda 
de cor...

- Por um largo momento, senti simpatia por si, Karsanov - disse Forster, agora 
mordaz. - Por 
favor, queira desculpar o meu deslize! Voc continua um nojo!
As frentes estavam definidas.
Atravs da janela surgiam os primeiros subrbios de Irkutsk.

Captulo nono

Era a primeira vez, nestes anos todos, desde que o Expresso Transiberiano parava 
em Irkutsk, 
que a estao estava cheia de milicianos que a bloqueavam por completo.
Apenas poucas pessoas deram por isso. Devido ao grande atraso do comboio, j era 
de manh, 
hora em que todos ainda dormiam.
Os comboios de mercadorias chegaram em duas horas; a vida nesta cidade 
gigantesca,  beira 
do Angara, ainda no tinha comeado.
Ali s estavam dois passageiros que queriam embarcar no Expresso. Gelados, 
tinham esperado 
horas a fio por causa do atraso e foram surpreendidos por aquele sbito 
bloqueio. No havia respostas 
para as perguntas que se faziam a razo de estar ali a milcia.
Corria, ento, o boato de que ia descer um camarada importante de Moscovo, mas 
era pouco 
credvel, porque os membros do Governo utilizavam avies do Estado.
Portanto, s restava esperar, batia-se com os ps para aquecer e aguardava-se 
atrs dos 
milicianos. Dentro de poucos minutos
saber-se-ia o que significava tudo aquilo...
Era um equvoco.
O transiberiano parou, as portas abriram-se, os revisores saltaram para a gare, 
seguiram-se 
quatro homens que pareciam, de alguma maneira, soldados, apesar das suas roupas 
civis. E finalmente 
apareceu um camarada que assumiu logo o comando, a vociferar por entre aquele 
cenrio:
- Todos os passageiros para Irkutsk renam-se em frente ao comboio!
E ali ficaram todos com malas e pacotes, maletas e sacos, com as golas dos 
casacos levantadas. 
A maior parte deles estava quase a dormir em p, dcil como uma manada de gado 
que tivesse sido 
reunida.
E tal como numa contagem de cabeas, iam a trote isoladamente, atravs da 
passagem estreita 
deixada pela milcia. Atrs de uma mesa estava Plotkin, que examinava 
meticulosamente cada um deles.
O controlo dos bilhetes de identidade era o mais inofensivo. Causava grandes 
aborrecimentos, 
j que os quatro assistentes revistavam cada passageiro, revolviam cada volume 
de bagagem e todos os 
que tivessem mais de setecentos rublos no bolso eram levados pelos soldados da 
milcia.
Plotkin no tinha dvidas de que s podiam ser tomadas medidas superficiais, j 
que as despesas 
eram maiores do que a necessidade. Contudo, devia ser feita alguma coisa, era o 
essencial! No se podia 
deixar andar um assassino  solta por a, sem demonstrar, pelo menos, que se 
estava no seu encalo.
Plotkin mirava, carrancudo, cada um dos passageiros que por ele passava, em 
passo de marcha.
Caras vulgares, camaradas inofensivos, cansados da viagem e nada mais os 
abalava, desde que 
Karsanov os tinha obrigado a sair do quente dos seus compartimentos para ir 
escavar neve no meio da 
taiga, sob um frio enregelador.
Ficavam parados em frente da mesa de controlo, de braos levantados, deixando 
que os 
apalpassem. Alguns protestavam sem resultado e sentiam-se dominados pela 
fadiga...
Plotkin tentava acalm-los, interiormente dava-lhes razo, e ficou satisfeito 
quando a parada 
dispersou.
"O assassino ainda est no comboio", pensou ele. "Naturalmente, no se pode 
notar numa pessoa 
se ela matou outra. Deve haver homens de bem que desfazem as suas mulheres em 
cido sulfrico, como 
o tal Alanajew, e por quem todos so capazes de responder pela sua 
integridade... Mas estes passageiros 
so to inocentes como o contedo da sua bagagem."
Plotkin abandonou a sua mesa e voltou para o comboio.

Karsanov e Forster encontravam-se em frente  porta da casa de banho cinco, onde 
estava 
pregada a tabuleta: "Fechada devido a trabalhos de reparao!"
Mulanov, na plataforma, segurava a porta aberta. Esperava-se pela ambulncia e 
pelo caixo de 
zinco, no qual Kiaschka seria transportada.
Talvez se se dirigisse o comboio para outra via, o caso pudesse passar mais 
despercebido.
A respeito de um crime no se podia prever nada...
Os passageiros que estavam na estao de Irkutsk no tinham dvidas de que a 
milcia procurava 
estupefacientes.
Essa epidemia maldita tinha-se infiltrado na Unio Sovitica vinda do Ocidente. 
Cada vez mais 
jovens eram detidos, faziam-se buscas em arrecadaes nas quais eles se 
encontravam e se injectavam 
com esse veneno.
Plotkin subiu para o comboio. A sua cara exprimia resignao.
- Todos uns cordeirinhos brancos, no  verdade? - perguntou Karsanov. Tinha-se 
vestido 
entretando e j no se via nenhum pijama s riscas por baixo do casaco.
Plotkin ofegava acentuadamente.
- Estava  espera de outra coisa?
- De que maneira  que vo levar Kiaschka? - perguntou Forster.
Plotkin olhou para a porta da casa de banho e ento abanou a cabea.
- De maneira nenhuma.
- Stepan Petrovitch, quer isso dizer que... - concluiu Karsanov.
Plotkin acenou com a cabea vrias vezes.
- Sim,  isso mesmo! Kiaschka fica no comboio!
-        At Vladivostoque? - tartamudeou Karsanov, embaraado. - Isso  
monstruoso! Quem 
 que deu uma ordem dessas? Onde j se viu uma coisa destas? Deixar um cadver 
ali estendido, dias a 
fio, debaixo dos olhos da polcia! Numa retrete! Camarada Plotkin, isso 
contradiz todas as normas!  
desumano... para com a morta e tambm para connosco!
-        Eu sei! Tambm  um caso excepcional. - Plotkin fechou a porta da 
carruagem.
O cordo da milcia deixava agora passar os passageiros que iam subir para o 
comboio. O revisor 
afastou-os da carruagem onde estava o corpo de Kiaschka.
-        O assassino ainda est no comboio, com isso estamos todos de acordo, no 
?
-        Sim! - respondeu Forster. - Mas no me parece que volte ao stio onde est 
Kiaschka para 
lhe levar flores.
-        Ele est  espera de uma coisa. Aguarda que ns faamos descer o corpo! 
Est sentado 
 janela  espera de ver o caixo. Depois, quando vir o corpo a ser levado, vai 
sentir-se livre da sua 
monstruosa aflio interior!
- Pobrezinho, no fundo, deve estar a sofrer muito! - disse Karsanov, trocista.
- Mas o corpo de Kiaschka no abandonar o comboio! - continuou Plotkin, 
elevando a voz. - O 
transiberiano vai prosseguir viagem! O que  que far o assassino? Vai ficar 
desesperado! "Porque no 
levaram o corpo de Kiaschka?", perguntar-se- ele sem cessar. "Que se passa no 
lavabo nmero cinco? 
No se pode deixar l um cadver estendido!" Camaradas, o pnico vai devor-lo! 
E piorar com o 
passar das horas, at se denunciar! Ele no , de maneira nenhuma, um assassino 
experiente, no 
esqueam. Est desesperado com o crime que cometeu! Aguardemos... o tempo 
trabalha a nosso favor.
L fora a milcia dispersava. O comboio deu um solavanco - a locomotiva foi 
trocada.
No vago-restaurante circulava um carrinho elctrico e Fedja carregava caixas e 
caixotes. O 
carregamento estava completo.
Na casa de banho nmero cinco, um dos assistentes estilhaou o vidro. O frio 
enregelador entrou 
de rompante naquele pequeno espao. Mulanov tinha desligado o aquecimento com 
uma chave especial.

Dali por uma hora, Kiaschka estaria completamente congelada, como se fosse um 
bloco de gelo. 
No havia problema nenhum em lev-la at Vadivostoque. No havia melhor 
conservador para o frio 
do que o gelo siberiano.
-        Tambm vem connosco, Stepan Petrovitch? - perguntou Karsanov, logo que se 
trancou, 
de novo, a porta da casa de banho.
-        Naturalmente! - Plotkin voltou a coar a cabea. Os seus quatro 
assistentes deixaram o 
comboio. - Alojei-me na cabina telefnica. Os passageiros no conseguem v-la e 
eu tambm no quero 
ser visto. Quando quisermos contactar um com o outro, Pal Viktorovitch, ter de 
vir ter comigo. O 
assassino deve acreditar que est sozinho com o seu cadver...
-        O que  que voc acha? - perguntou Karsanov mais tarde, enquanto o 
transiberiano 
deixava a gigantesca estao de Irkutsk. Estava na janela do corredor com 
Forster e contemplava aquela 
bonita e grande cidade.
Irkutsk, o corao da Sibria!
Irkutsk, o orgulho de geraes de pioneiros!
A noite ainda se estendia sobre as casas  beira-mar, embora o fascnio fosse 
idntico ao do sol 
quando iluminava a cidade.
"Tambm isto  a Sibria", pensou Werner Forster. "O que  que ns na Alemanha 
sabemos 
sobre o assunto, sobre o que aqui se passa? Taiga... isso para ns significa o 
fim do mundo."
A realidade era bem diferente: era ali que comeava o mundo! Um novo mundo, 
pleno de 
incalculveis tesouros e riquezas do solo.
Poucas pessoas no Ocidente compreendiam que era ali que nascia a imortalidade da 
Rssia.
-        O que  que quer dizer? - inquiriu, Forster, arrancado aos seus 
pensamentos pela 
pergunta de Karsanov.
-        Que continuemos a viagem com o corpo de Kiaschka...
-        Uma sensao esquisita! Mas se ns a sentimos, como se sentir o 
assassino? Neste ponto 
tenho de concordar com Plotkin. Para uma comisso de homicdio alem, tudo isso 
seria certamente 
impensvel. Um cadver abandonado no cho...
-        No esperava eu outra coisa! - observou Karsanov venenoso. - - Tinha de 
ser! Isto s  
possvel na Unio Sovitica... O estafado, maldito e demagogo prego do 
Ocidente!
-        Meu Deus, no recomece, Karsanov! - Forster virou a cabea, Irkutsk tinha 
ficado para 
trs, iam agora na direco do lago Baical. - Eu sei que voc  um patriota; e 
felicito-o por isso. Pelo que 
eu vi do seu pas at agora... e relativamente ao seu tamanho, no  mais do que 
um gro de areia...  fcil 
de perceber a razo que leva um russo a chamar "mezinha"  sua ptria e a am-
la ardentemente. 
Vamos encerrar este assunto, Pal Viktorovitch!
Voltaram  pressa para o compartimento.
Milda continuava a dormir; no tinha dado pela paragem em Irkutsk, pela 
investigao nem pela 
partida; uma prova de como era profundo o seu esgotamento.
Forster debruou-se sobre ela e deu-lhe um beijo cauteloso nos lbios cerrados.
Karsanov sentou-se na cama.
-        Pode dizer-se que voc a ama realmente... - observou ele baixinho.
- S agora  que percebeu, Karsanov?
Forster acocorou-se junto  esquina da cama. Era um espao muito estreito e para 
poder sentar-
se convenientemente tinha de empurrar Milda para a frente. E assim ia acord-
la...
Karsanov bateu na sua cama.
-        Venha para aqui, Werner Antonovitch. Sente-se ao meu lado. Nesse canto to 
duro, vai 
ficar com calos no traseiro.
Werner Forster saltou para a outra cama.
Fedja vinha pelo corredor. Tinha levado mais um ch ao general. Karsanov fez-lhe 
sinal.
- Traga um pacote de leite para mim! E para si, Werner Antonovitch?

- Quero um conhaque duplo! So s uns minutos, camaradas.
Fedja entalou a bandeja debaixo do brao. Estava plido e amarrotado. H vinte 
horas que se 
encontrava a
p... exactamente quando se preparava para ir deitar-se e
dormir uma soneca, Mulanov descobriu Kiaschka morta e
teve de continuar ao servio.
- O leite ainda tem de descongelar. Recebemos novos pacotes em Irkutsk.
-        Despache-se, Fedja! - Karsanov esticou as pernas.
-        Tenho uma sede que estou capaz de lamber os vidros da janela.
Fedja fechou a porta do compartimento e regressou  pressa ao vago-restaurante.
- Tem de me esclarecer umas coisas, Werner Antonovitch - disse Karsanov passado 
um bocado.
Estavam ambos a olhar pela janela. O lago Baical comeava a aparecer - uma 
mancha negra e 
gigantesca. A alvorada principiava; parecia que ia estar um dia sombrio.
Podia ser que de manh voltasse a nevar. O cu erguia-se sobre a terra e o lago, 
como um saco 
carregado.
-        Voc ama Milda Tichonovna. Gostos no se discutem; para mim, Milda  
demasiado nova 
e talvez magra de mais.
-        No  voc que tem de am-la, Pal Viktorovitch!
-        Deixa-me terminar. A reflexo mais importante  esta: como pode um homem 
culto, um 
acadmico como voc, apaixonar-se por uma prostituta?  isso que no me entra na 
cabea.
Forster deitou um olhar a Milda. "Cuidado", pensou ele. "Karsanov  um co 
refinado. 
Aproxima-se de mim cuidadosamente com uma lgica muito difcil de refutar.
A uma prostituta de comboio, como Milda deveria parecer, paga-se e o assunto 
fica por ali. 
Compra-se uma, tal como Karsanov, precisamente, mandou vir um pacote de leite ou 
tal como eu 
encomendei um conhaque. Mas amor?"
- Voc soube, por Kiaschka, que esta era a primeira viagem de Milda - disse 
Forster e reflectiu 
sobre cada uma das suas palavras com rigor. - Ela no  uma profissional como 
Kiaschka.
- E voc tem o dever moral, uma vez que a descobriu, de reconduzir Milda  vida 
civil? Um 
mpeto missionrio, eu diria...
- No  s isso, Karsanov!
- Porque  que voc insiste em me tomar por um velho gag? Eu sei que voc pode 
muito bem 
am-la sem preconceitos morais, porque ela no  prostituta! Eu tenho observado 
a rapariga... at uma 
principiante nesta profisso comporta-se de maneira diferente, mesmo  minha 
frente. Werner 
Antonovitch, voc sabe mais alguma coisa!
-        Eu s sei que a amo exactamente como ela .
-        Um amor que s chega at Vadivostoque... - Karsanov levantou as duas mos 
quando 
Forster quis responder. - Um momento! No me venha dizer que quer mesmo casar 
com Milda! Que quer 
desencadear a guerra de papelada que  necessria para esse efeito. Uma rapariga 
que voc s conhece 
h alguns dias e de quem voc, segundo diz, no sabe nada! Embarca em 
Sverdlovsk, sem bilhete! Werner 
Antonovitch, por trs disso tudo ainda se esconde um mistrio!
- Milda j lhe contou tudo.
- O caso com o automobilista que lhe destroou o corao e fugiu, deixando o 
pobre passarinho 
sozinho ao frio do Inverno?  nisso que eu devo acreditar? Quando Milda contou 
essa histria, eu estava, 
de resto, a observ-lo! Voc aceitou aquele relato como se se tratasse do 
boletim meteorolgico. Voc 
estava demasiado desinteressado, Werner Antonovitch! Tratando-se de uma 
traio...
Werner Forster recostou-se.
Agora percebia perfeitamente como a tenaz de Karsanov se fechava sobre si. A 
tenaz das 
combinaes e das concluses...
De manh, quando Milda acordasse, Karsanov prosseguiria com o seu interrogatrio 
brutal e 
cansativo.

A morte de Kiaschka fora apenas um adiamento. Agora ningum impediria Karsanov 
de destruir 
a pequena couraa de desculpas e mentiras que Milda desajeitadamente erguera  
sua volta.
"Tenho de tratar disto", pensou Forster. "Tenho de fazer imediatamente alguma 
coisa... Mas o 
qu? Meu Deus do Cu, o qu?"
No momento certo surgiu o empregado de mesa, Fedja.
Trazia o leite de Karsanov, um pacote de meio litro, que ainda rangia, porque o 
leite ainda no 
descongelara por completo.
Karsanov no se queixou, para ele estava bem assim. No compartimento e no 
comboio, em geral, 
estava muito calor e at sabia bem uma coisa fresca.
-  nas coisas pequenas - disse ele magnnimo, voltando-se para o alemo - que 
se pode alcanar 
a perfeio. Com certeza tambm na sua terra, Werner Antonovitch! Umas vezes o 
aquecimento funciona 
como se ns fssemos pes prontos a cozer, outras vezes no funciona e ento 
ficamos congelados. A 
maldade da tecnologia!
Karsanov observava a maneira como Fedja colocava aquele conhaque magnfico e 
dourado sobre 
a mesinha.
-        Como  que voc pode beber isso? Isso refresca? - perguntou ele a Forster, 
abanando a 
cabea.
-        A mim refresca!
Werner Forster pegou no copo e agitou o conhaque.
O forte aroma propagou-se pelo compartimento superaquecido.        O                O 
empregado de 
mesa ficou  porta e vacilou ligeiramente. Os seus olhos estavam vermelhos de 
cansao, como os de um 
coelho branco. A pele tambm estava lvida.
-        Devia ir deitar-se, Fedja - disse Karsanov. - Se continuar assim, vai 
servir aos passageiros 
gua de lavar pratos e entorna-lhes a sopa em cima...
Fedja acenou com a cabea em silncio; quis, aparentemente, dizer qualquer 
coisa, mastigou as 
palavras e acabou por desistir. Sumiu no corredor como uma grande e rida 
sombra.
L fora, a manh comeava a nascer. Nesse momento, o transiberiano percorria o 
lago Baical, 
o qual - at onde Forster podia ver - estava gelado. A prxima estao seria 
Ulan-Ude, a capital da 
Repblica Popular dos Buriatos.
A fronteira com a Monglia era prxima - podia ver-se na confluncia dos 
Buriatos com os Auls, 
as aldeias de pastores, atravs das quais o comboio passava.
"Foi com isto que eu sempre sonhei desde criana", pensou Forster, e bebeu um 
gole de conhaque. 
"A Sibria, a Monglia, a China! Os segredos nunca revelados da sia.
E o que aconteceu aos meus sonhos?
Estou aqui sentado, com um coronel dos servios secretos, num compartimento de 
comboio 
superaquecido, e brigo com ele por causa de uma rapariga russa, que s conheo 
h algumas horas e de 
quem eu j no consigo separar-me...
A vida no tem algo de louco?"
- Uma proposta, Pal Viktorovitch - disse Forster e recostou-se.
Karsanov acenou com a cabea e sugava, com uma palhinha, o leite gelado do 
pacote.
- Primeiro deixe-nos tomar o pequeno-almoo!
- No  entendo, Werner Antonovitch.
-        Interrogue Milda depois de tomar o caf.
-        Isto  algum truque seu? - Karsanov acabou de beber o pacote de leite. - 
No sei mesmo 
porque  que tenho sempre de abrir excepes consigo! Palpita-me que aqui h 
qualquer coisa errada... 
Sabe como  que eu resolvia o assunto l em Moscovo?
No  preciso muita imaginao para adivinhar.  como v! E como  que eu 
procedo consigo? Como um 
bisav desdentado! E no fundo porqu?
-        Talvez porque realmente simpatizamos um com o outro e no queremos admiti-
lo. 
Quando o meu pai regressou das prises soviticas...

-        Isso j voc descreveu com todos os pormenores, Werner Antonovitch! J sei 
o que o seu 
pai disse! Esta gerao no aprendeu nada com isso! O inimigo continua a vir do 
Leste! Esta gerao 
mete nojo!
-        O meu pai dizia outra coisa completamente diferente. A Rssia no o largou 
at ao fim, 
e comigo no  diferente.
-        Werner Antonovitch, por favor, esse disco sentimental no! No quero ouvi-
lo mais. 
Milda  um caso poltico,  o meu vaticnio antes de voltar a ouvi-la no 
interrogatrio.
Ele estremeceu e tambm Forster se assustou por um momento. No corredor 
rejubilava uma voz 
- o tenor!
Saudava o novo dia. Luminosa manh... uma ria dos Mestres Cantores.
O general precipitou-se para fora do compartimento vizinho, como se perseguisse 
um lobo. Por 
cima das calas do pijama s riscas, usava o casaco da farda.
-        Por que razo se matam as pessoas erradas? - berrava ele
com o Preislied de Wagner. - Seu sdico! Porque no fuzil-lo?
O tenor prosseguia pelo corredor a cantar e desapareceu na casa de banho.
Todo o vago estava acordado.
Milda tambm levantou a cabea, ainda tonta de sono.
- Tomamos o pequeno-almoo primeiro? - perguntou Forster outra vez.
-        Por mim... - Karsanov acedeu. - Dedico esta hora a uma aproximao cordial 
da nossa 
parte. Em todo o caso, voltaremos  poltica mais tarde!
Mulanov vinha pelo corredor para a sua visita matinal.
Acalmou o general e prometeu ter com o tenor uma conversa severa e oficial e 
entrou depois no 
seu compartimento favorito.
- Uma manh desagradvel - informou ele. O camarada Skarnejkin causou 
dificuldades. Est 
outra vez sem sapatos! Mal o acompanharam de volta, a milcia confiscou-lhe os 
sapatos e ficou com eles 
em Irkutsk. Exigiu que eu fizesse uma ligao para o Ministrio da Economia em 
Moscovo. Era com o seu 
sabonete que se lavava...
- Brejnev lavava no s as mos, como provavelmente tambm... - interrompeu 
Karsanov, 
zangado.
- Eu no me permiti at pensar noutra coisa, camarada coronel! - Mulanov sentou-
se na cama 
perto de Milda; esta escorregou um pouco de encontro  parede. - O que  que eu 
devo fazer?
- Pergunte a esse Plotkin que confiscou os sapatos.
- No  possvel! Ele no est oficialmente no comboio... - Mulanov esfregou as 
mos embaraado. 
- O senhor no poderia decidir?
- Eu? Voc est doido, Boris Fedorovitch? Eu sou um passageiro... como todos os 
outros! 
Tambm no estou aqui oficialmente! Isto no  uma viagem oficial, mas sim uma 
viagem civil. Peo-lhe 
que guarde um pouco de discrio.
- Disse bem, Pal Viktorovitch. - Forster sorriu para Karsanov. - Se eu 
compreendi bem, nesta 
viagem voc  um homem comum e no um oficial da KGB.
-        Eu estou sempre de servio! - gritou-lhe logo Karsanov.
- Nesse caso, peo-lhe que trate do caso do camarada Skarnejkin, camarada 
coronel - aproveitou 
logo para dizer Mulanov. O assunto dos sapatos tinha mesmo que se lhe dissesse. 
Skarnejkin no tinha 
realmente pensado em queixar-se. Havia-se resignado, voltou a sentar-se no seu 
lugar e usava os sapatos 
emprestados, que lhe estavam muito largos. Ainda tinha filosofado e pensado 
sobre o seu destino 
monstruoso.
Mulanov sentou-se ao p dele, observou os sapatos velhos, cheio de compaixo e 
comeou:

-        No  preciso deixar-se levar por este tipo de atitudes, camarada! Quem  
o senhor 
afinal? E onde  que ns vivemos? O senhor  um respeitvel camarada do Partido, 
com cujo sabo, 
precisamente... Pois , e ns vivemos num Estado em que a justia est pintada 
nas paredes das casas. 
Mas o que  que lhe fizeram? Roubaram-lhe os sapatos por duas vezes! Da ltima 
vez foi mesmo 
oficialmente! Vou dar aos funcionrios...
Dementi Michailovitch Skarnejkin ouviu este discurso com uma inquietao 
crescente.
-        Voc  um verdadeiro amigo - disse ele a Mulanov, comovido, quando este se 
calou.
No podia supor que o revisor lhe tirava aquele espinho cravado na alma, apenas 
para salvar 
Milda de Karsanov por algumas horas. A manh seria pssima para ela, Milanov 
assim o achava. E j 
no tinha Kiaschka, que sempre arranjava remdio para tudo...
Como ela o tinha conseguido durante dois dias! Colocara-se  frente de Karsanov 
e comeara a 
despir-se. Foi um xito! Grande Kiaschka!
Com ela uma pessoa podia sentir-se segura como se estivesse protegida por um 
rochedo. Agora 
estava ali estendida na casa de banho nmero cinco, debaixo da janela partida, 
congelada e apunhalada 
na garganta.
-        O que  que eu devo fazer? - perguntou Skarnejkin excitado. - Os meus 
sapatos ficaram 
em Irkutsk! Devo exigir que mos enviem, por avio, at Tchita, e mos devolvam 
l?
- Tchita  muito perto, no vai conseguir! - respondeu Mulanov.
Era uma ideia maravilhosa e muito louca: remeterem os sapatos por avio! Isso 
podia manter 
Karsanov ocupado e desconcert-lo-ia.
- Mas podia exigir isso em Chabarovsk! Podia reclamar que queria que lhe 
enviassem os sapatos, 
por avio, at Chabarovsk. A sua ideia  digna de um cidado livre, Dementi 
Michailovitch...
Skarnejkin ficou excitadssimo. Deu um salto e proferiu um discurso sobre a 
Humanidade, no seu 
grande compartimento.
Recebeu aplausos e aclamaes. Isso ainda o levou mais ao rubro. De agora em 
diante andaria 
em pegas. Aqueles sapatos emprestados, perfeitamente desumanos, trat-los-ia 
com desdm. Foi isso que 
ele anunciou e agora dirigia-se  cabina telefnica.
Bateu durante tanto tempo, at que Wladlen Ifanovitch veio ver o que se passava 
e fechava 
rapidamente a porta atrs de si. Ainda se conseguiu ver o capito Plotkin.
-        Est doente? - berrou ele com a sua voz sonora.
Skarnejkin acenou com a cabea.
- Est admirado com o qu? Por eu andar em pegas na Sibria! Nunca aconteceu, 
pois no? 
Uma pessoa pode mesmo adoecer at  medula! Mas eu ainda no estou doente... 
Exijo ter uma conversa 
rpida com o chefe do Ministrio Pblico de Irkutsk! Quero que os meus sapatos 
sejam enviados de avio 
para Chabarovsk...
Wladlen voltou rapidamente para a cabina telefnica e encostou-se  porta.
- Ouviu isto? - perguntou ele baixinho a Plotkin, que estava deitado no assento 
com uma manta 
de l a cobri-lo.
- Naturalmente! - Plotkin coou os plos do peito em vez de coar a cabea. - 
Mande-o dar uma 
volta!
-        Isso  infringir o regulamento dos transportes. O camarada Skarnejkin tem 
um bilhete 
perfeitamente legtimo.
Do lado de fora, Skarnejkin tinha ficado furioso, batia violentamente na porta e 
berrava palavras 
que no eram muito prprias para um industrial de sabes.
-        Ele no deve ver-me aqui - ordenou Plotkin. - Iria logo espalhar por a e 
o assassino 
ficaria de sobreaviso. Destruiria todo o nosso plano. Veja se o acalma! Isso era 
muito fcil de dizer.
Wladlen esgueirou-se outra vez para o corredor e empurrou Skarnejkin de encontro 
 parede. 
Foi um erro, porque Dementi Michailovitch soltou um berro horripilante.
-        Ah! Esto a agarrar-me! - guinchava ele. - Um funcionrio ferrovirio 
sovitico molesta 
um passageiro inocente! Socorro! Socorro! Que vulgaridade!

Os gritos de Skarnejkin, ouviam-se ao longe, ao mesmo tempo que Mulanov pedia, 
hipocritamente, ajuda a Karsanov.
Karsanov perdeu o controlo quando tambm apareceu o director do comboio, Vitali 
Diogenovitch, para ajudar Mulanov a prender aquele Skarnejkin, causador de 
tamanho distrbio - 
Skarnejkin chegou mesmo a arrancar, entretanto, dois botes do casaco do 
uniforme de Wladlen.
-        Quero ordem aqui! - gritou Karsanov e deu um salto. O sorriso irnico que 
Forster 
reprimiu, provocou-o ainda mais. -  de mais! Para o diabo consigo, Werner 
Antonovitch e mais a sua 
pretensa puta Milda Tichonovna! Considere um privilgio se eu o deixar ficar no 
comboio quando 
chegarmos a Tchita...
Saiu a correr e Vitali, que lhe deu passagem, foi atrs. Nessa altura, toda a 
gente saa a correr do vago-
restaurante ou ento amontoava-se no corredor a discutir. Hoje punha-se a 
questo se era normal haver 
tantos lutadores no Expresso Transiberiano ou se se tinha aberto uma 
desagradvel excepo neste 
comboio.
- Eh! Onde se meteu Kiaschka? - gritou um homem. Era um individuo gordo com o 
rosto 
vermelho e estava assim porque tinha vontade de pagar a Kiaschka e podia faz-
lo. - Quem  que a 
comprou por vinte e quatro horas? Isso so atitudes capitalistas!
-        Kiaschka ficou em Irkutsk - disse Vitali, com grande presena de esprito.
Era a primeira vez que algum dava por falta de Kiaschka.
- Porque  que pergunta? - continuou Vitali. - Escreva um carto a Kiaschka para 
a posta-
restante nmero um de Moscovo.
-        ptimo! - elogiou Karsanov, e bateu nas costas de Vitali. - Foi uma 
reaco rpida!
Ao longe ouviam Skarnejkin aos berros. Apressaram o passo.
Mulanov aceitou, entretanto, a oferta de Forster para beber o resto do conhaque. 
De que outra 
maneira  que um pobre revisor podia permitir-se uma tal extravagncia? Uma gua 
ordinria de vez 
em quando ou uma cerveja azeda... mas conhaque era, para Mulanov, uma coisa que 
se via s atravs do 
vidro da montra de uma loja.
- No se pode distrai-lo por muito mais tempo - disse Mulanov com legitima 
preocupao. Pousou 
a mo no joelho coberto de Milda e olhou para ela como um verdadeiro pai. - 
Filhinha, no escondas mais 
nada de ns: Pal Viktorovich pode ser perigoso para ti?
- Sim, pode. - Encostou a cabea  parede e mirou
o tecto abaulado da carruagem. - Quero descer em Ulan-Ude.
-        Isso vai chamar a ateno de Karsanov e ele apanha-te.
- Ento atiro-me do comboio! - Disse isto muito calmamente, como se fosse uma 
insignificncia. 
Contudo, Forster e Mulanov sabiam que ela falava a srio.
- Se algum tem de se atirar do comboio, esse algum  Karsanov! - disse Forster 
duro.
O revisor Mulanov agitava, horrorizado, ambas as mos.
-        J me chega um assassnio! - declarou ele. - Este comboio deve estar 
possudo pelo 
demnio! Quantas vezes eu j fiz este trajecto, para cima e para baixo, e nunca 
aconteceu nada! Era tudo 
pacfico, at mesmo aborrecido! Havia sempre gente normal! Mas este comboio? S 
anormalidades! Um 
comboio inteiro cheio de monstros! Werner Antonovitch, para dizer a verdade, 
quero alert-lo para uma 
coisa: o senhor referiu-se a um oficial sovitico com intenes criminosas! Como 
revisor, era, portanto, 
meu dever...
-        Mas tambm  seu dever proteger uma rapariga como Milda!
-        E que mais  que eu tenho feito durante os ltimos trs dias? Mas agora a 
situao parece 
ter-se agravado. Milda, filhinha... diz qualquer coisa! Conta-nos o que se passa 
contigo! S se soubermos 
a verdade  que podemos ajudar-te! Eu sou teu amigo... e o alemo est mesmo 
apaixonado por ti...
Milda baixou a cabea. Os seus grandes olhos, que lhe dominavam o rosto, 
escureceram.

Olhou para Werner Forster... com um olhar envergonhado, agradecido e profundo na 
sua 
resposta:
- Eu tambm te amo. Mas tudo isto  to desprovido de sentido...
Forster inclinou-se para a frente e pegou-lhe nas mos frgis. Tal como 
Karsanov tinha 
afirmado, no eram mos de uma prostituta, macias e tratadas. Eram mos 
calejadas, mos de 
camponesa; mos pequenas e plidas, obrigadas a fazer trabalhos de homem.
O rosto de Milda estremeceu.
Quis retirar as suas mos das de Forster com um puxo, mas ele manteve-as 
seguras com punho 
de ferro.
-        Karsanov no vai prender-te... - disse ele, convicto. No soube explicar 
onde foi buscar 
tanta convico.
- Tira essa couraa! Quem s tu, rapariga desconhecida? Milda, a desconhecida de 
Sverdlovsk?
Ela respirou fundo e a sua voz ficou, de sbito, to clara que soou 
completamente estranha, 
esquisita e vigorosa. 
-        Matei um homem - disse Milda Tichonovna. - Rachei-lhe o crnio com um 
machado. Ele 
mereceu-o...

Captulo dcimo

Kargopov, na Ucrnia.
Quem conhece Kargopov? Ningum! Mas conhecem os seus sacos brancos de farinha, 
com o 
letreiro "Cooperativa Maxim Gorki", e conhecem os cartuchos s riscas vermelhas 
com smola, 
cevadinha e flocos de aveia.
Esto nas prateleiras de todas as lojas e milhes de donas de casa pegam-lhes e 
elogiam a sua 
qualidade.
E os pepinos! No se deve esquec-los. Pepinos grandes, suculentos, carnudos, e 
no aquelas 
coisas cncavas e disformes que tantas vezes vemos quando compramos pepinos. E o 
leo de girassol em 
latas redondas, dourado como uma tarde de Vero... tudo isto  Kargopov!
Milda Tichonovna era uma rapariga inocente, honesta e recatada quando foi com o 
seu pai, 
Tichon Ivanovitch Lipski, para a Cooperativa Maxim Gorki e foi apresentada ao 
brigadeiro do segundo 
peloto Kyrill Michailovitch Kuran, um homem gordo, sempre alegre e sempre a 
praguejar.
O velho Lipski era capataz das brigadas de tractores, um homem respeitado e 
indicado como o 
"trabalhador do ano" da Kargapov, uma personalidade que toda a gente conhecia.
- Claro que ela pode trabalhar connosco! - disse Kyrill, e examinou Milda como 
se examina um 
vitelo. Um pouco magra, meu caro Tichon Ivanovitch. No lhe ds comida 
suficiente. O que  que fazes 
ao dinheiro? Esconde-lo debaixo do colcho, ou qu? s um mau pai, meu caro!
As pessoas riram-se. J sabiam o que Kuran queria dizer, j que ele era um homem 
alegre, mas 
tambm grosseiro.
- Ela  a minha mais nova - disse Lipski.
-        Uma gazela assustada, camarada. Muito diferente dos irmos. O irmo, por 
exemplo, 
derruba um boi com o punho. E a irm j tem umas mamas de ama-de-leite, ah, ah!
Ele criava um bom ambiente na cooperativa, era preciso reconhecer. Era bom 
trabalhar quando 
todos se compreendiam.
E assim, por enquanto, Milda foi para a cozinha. Descascou batatas, lavou 
legumes, arranjou 
repolhos, salgou pepinos, cozinhou beterrabas e lavou as saladas.
Todos simpatizavam com ela e era considerada como uma irm.
Alimentavam-na bem e engordavam-na como a um ganso e Milda comeou a ficar um 
pouco mais 
cheia. Reconheciam que ela j era uma mulher e no uma jovem magricela com 
roupas de mulher.
E passado um ano, j tinha uns bonitos seios redondos como mas, pernas bem 
torneadas e 
esbeltas, o seu cabelo brilhava como seda, as suas ancas tinham umas formas que 
os homens olhavam com 
prazer, em resumo: Milda tinha-se tornado numa beleza.
- A minha obra! - dizia o gordo brigadeiro Kuran sem cessar, quando via Milda no 
ptio, pela 
janela do seu escritrio. - Se ela continua assim, todos os galos vo correr 
atrs dela!
Nessa altura, Milda conheceu o serralheiro Luka. Precisamente como se conhece um 
rapaz... Na 
cooperativa, na Stolovaja, o grande espao de convvio organizou um baile... Foi 
um acontecimento 
alegre. Os homens comportavam-se como gavies e as mulheres riam-se  socapa 
como as rolas. Luka 
foi buscar Milda para danar, no sem antes ter - bem-educado - pedido licena 
ao velho Lipski...
Aps uma dana, vieram trs, depois quatro, depois seis e Milda parecia 
enfeitiada, com a sua 
carinha vermelha, a boca sorridente e os olhos brilhantes.
Uma beleza, digo-vos eu, uma verdadeira beleza! Kargopov podia sentir-se 
orgulhosa, tal como 
se sentia da sua farinha e do seu leo de girassol.
S uma coisa incomodava.
E era precisamente o gordo brigadeiro Kuran.

H algum tempo que se falava dele... s escondidas, j se v, porque Kuran era 
um homem 
poderoso.
Dirigia a cooperativa de uma maneira prtica. O director estava mais vezes em 
Kiev do que em 
Kargopov. Uma vez que l esteve em servio tratou de dizer diante de todos, 
depois de Kuran o ter 
informado:
- Muito bem, meu caro Kyrill Michailovitch! Continue assim, meu caro Kyrill 
Michailovitch! - 
Depois despediu-se outra vez.
Quem quisesse levar uma vida agradvel em Kargopov, tinha de ser amigo de Kuran.
Como j se disse, falava-se dele s escondidas. Quanto mais gordo ele se 
tornava, mais corria 
atrs das raparigas.
Andava pelos quartos a grunhir como um javali, detinha-se sempre muito tempo nas 
lavandarias 
onde as mulheres, com o calor, apenas vestiam uma camisa atravs da qual quase 
se podia ver o peito  
vontade; ou ento andava pelos campos onde havia plantaes experimentais e onde 
as mulheres, 
isoladamente, implantavam estacas. Era um trabalho manual em que era preciso 
andar curvado e Kuran 
deleitava-se com isso, olhar por baixo das saias das mulheres.
Como hei-de dizer... Kyrill era um grande porco!
E assim, naturalmente, tal como o vento sopra em Abril, Kuran tambm se 
interessava por Milda 
Tichonovna. A sua amizade inocente com Luka desagradava-lhe muito.
Sem rodeios, transferiu o rapaz da serralharia para um posto exterior, onde ele 
tinha de 
permanecer at ao incio do Inverno.
E assim, Milda foi promovida; Kuran f-la administradora do armazm dos 
utenslios de 
jardinagem. Era um lugar tranquilo, porque as nicas equipas de trabalho 
cuidavam elas prprias das 
ferramentas e apenas iam ao armazm quando alguma coisa se quebrava. E ento, 
Milda trocava a 
ferramenta.
Milda Tichonovna tinha muito tempo; catalogava os artigos, escrevia listas 
suplementares e 
aborrecia-se. Recebeu algumas vezes correspondncia de Luka, mas tambm isso 
terminou...
As cartas de Luka perdiam-se num longo trajecto. Um caso enigmtico, meus 
amigos, do qual s 
Kuran podia dar informaes...
Mas tambm ningum perguntava.
Para dizer a verdade, comeou tudo por ser muito inocente, tal como Kyrill 
Michailovitch fazia 
com as outras mulheres.
Foi ao armazm, conversou com Milda, contemplou os seus seios pequenos sob o 
vestido de 
algodo liso e justo, passou-lhe a mo pelos cabelos com um gesto paternal e 
depois deixou que a sua mo 
escorregasse e pousasse no peito de Milda.
Ela recuou um passo, cruzou os braos sobre o peito e disse:
- O senhor tem uma mo muito inquieta, camarada Kuran...
Kuran riu-se crtico. A sua cara redonda tremia e a barriga saltava.
- Como  que posso estar quieto com uma mulher como tu, h? - Riu-se. - Pareces 
to sadia! To 
bonita! Nunca desejaste, minha pombinha?
- No! - respondeu Milda assombrada. - Porqu?
- Porqu? Porqu? Um homem no tem o direito de sonhar com isso, pelo menos uma 
vez? No 
tem o direito de desejar um beijo? No sabes como , quando... Pois bem. 
Mildaschka, h a possibilidade 
de te tornares capataz na horta. S precisas de ser uma rapariga um pouco mais 
amvel...
Dirigiu-se ao posto de distribuio, no se conteve e comprimiu Milda de 
encontro  prateleira 
e assim ela no podia esquivar-se, porque Kuran era um bruto de ossos e carne. 
Ela empurrou-o com os 
punhos de encontro ao seu peito e gritou com ele. O seu rosto bonito e frgil 
ficou, de repente, anguloso 
e a clera f-la parecer mais velha.
- Largue-me, Kyrill Michailovitch! No sou como as outras mulheres! Ficaria 
interessado se eu 
fosse cega? No me agarre!

Era impossvel ir contra a fora de Kuran. Ele teve um riso spero, afastou os 
punhos de Milda, 
agarrou-lhe nos seios, puxou a rapariga para si e beijou-a. Beijou Milda 
selvaticamente onde calhava e 
ento ela deu-lhe uma cabeada.
Nesse instante, ele largou-a e deu-lhe uma sonora bofetada. Ela caiu de joelhos 
e ele voltou a 
levant-la e meteu-lhe as mos por baixo da saia.
Milda cuspiu-lhe no meio da cara gorda e corada; em
seguida, deu-lhe uma canelada e conseguiu alcanar a
porta quando Kuran, com o rosto desfigurado pela dor e
respirando com dificuldade, se apoiou no balco.
- Vou contar tudo! - Milda rangeu os dentes e tinha a voz rouca de raiva. - Vou 
contar a toda a 
gente! Vou apregoar por toda a Stolovaja...
- Faz isso, sua burra! - Kuran limpou a testa. - O teu paizinho trabalha aqui... 
e zs,  posto na 
rua! O teu irmo trabalha aqui... de manh est a comer terra! A vossa casa no 
est arrendada? 
Alugada pela cooperativa? Carregam a vossa carroa e ponho-vos fora de Kargopov! 
E tudo, porque 
uma idiota como tu no quer levantar as saias! E assim d cabo da famlia 
inteira! Pode vir a ser capataz 
da horta! O melhor lugar em toda a cooperativa! Vo rir-se de ti, todos eles, na 
Stolovaja!  s ires dizer 
alguma coisa...
Na manh seguinte, o velho Lipski foi ter com Kuran. Estava muito srio, mirou o 
brigadeiro em 
silncio durante um bocado e o nariz tremia-lhe.
Kuran abanou a cabea negativamente.
- No abras o bico, Tichon Ivanovitch! Ou queres que acontea alguma coisa  tua 
filha! - 
comeou por dizer Kuran.
- s um porco, Kyrill Michailovitch! - disse Lipski sombrio. - Ela s me contou 
a mim, mais 
ningum sabe, s tu e eu... e eu aviso-te!
- Avisas-me! Aba! - Kuran riu-se odiosamente. - Dou-te um pontap no cu, como a 
um burro 
aleijado.
- Eu sou membro do Partido, no te esqueas disso.
- E eu sou o presidente deste distrito, no te esqueas tambm disso! A 
propsito, Tichon 
Ivanovitch, tu s um monte de esterco, mais nada!
- Deixa Milda em paz, digo-te eu! - Lipski inclinou-se sobre a mesa. - Faz o que 
quiseres connosco. 
Haver uma luta que chegar at ao Supremo Tribunal de Kiev!  fome no vamos 
morrer... mas podes 
esconder-te de Ivan, o meu filho! Ele parte-te os ossos de um s golpe!
- Isso  uma ameaa! - disse Kuran friamente. - Atreves-te a ameaar-me! Rua, 
seu monte de 
esterco! Ainda vais ter notcias minhas!
Durante trs dias tudo ficou calmo e esperava-se que Kuran tivesse engolido o 
incidente, a fim de 
no causar escndalo.
Ele voltou a beliscar a lavadeira no traseiro e fechou-se no seu escritrio com 
a rija Eftimia, uma jovem 
viva. At se ouvia c de fora como os mveis abanavam...
E ficaram todos admirados quando Milda saiu do armazm e foi transferida para o 
sector trs.
 preciso que se saiba o que isso era. O sector trs era o pior lugar de toda a 
cooperativa. No 
em categoria, mas por causa do trabalho.
Era a seco de cultivo da terra, como se chamava.
L estavam, quer com sol abrasador, quer com chuva torrencial, e tinham de 
lavrar aqueles 
campos gigantescos. O tempo no era impedimento para trabalhar neste sector; e 
quando o solo estava 
muito mole, devido  chuva, e os tractores se afundavam, era preciso afastarem-
se do sector e desbravar 
a floresta. Eram os trabalhadores mais bem pagos de toda a cooperativa, os 
rapazes mais fortes... e Milda 
era a nica mulher entre estes homens.
Ela cerrou os dentes, sentou-se no tractor, ficou atrs da serra mecnica, 
descarnou as rvores 
abatidas. As suas mos frgeis gretaram, tornaram-se speras e calosas... mas 
ela recusava qualquer 
ajuda.

-  muito simptico da vossa parte, mas no me faam nenhum favor. Quero mostr-
lo a Kuran, 
esse saco de gordura! - disse ela aos rapages, que sempre lhe davam os 
trabalhos mais leves da colnia.
Oh, ela era resistente, tal como o podia ser tambm a gata mais bonita, quando 
era preciso.
Kuran foi, de carro, algumas vezes ao sector trs, ficou calado a observar Milda 
Tichonovna a 
trabalhar e berrava com todos aqueles que tentavam agradar a Milda ou que o 
insultavam.
Claro que choveram reclamaes junto dos responsveis soviticos, reclamaes 
annimas, mas 
algumas tambm assinadas.
A famlia Lipski escreveu para Kiev, para o mais alto administrador da 
cooperativa... mas nunca 
obteve resposta...
O velho Lipski perdeu o seu posto de capataz do sector dos tractores e foi para 
o servio de 
estrebarias.
A cruzava muitas vezes com Kuran, o qual passava com um leno branco sobre 
qualquer uma 
das vigas, que naturalmente estavam cheias de p, e gritava para Lipski:
- Um mandrio! Um carneiro cego! Para que te paga o povo? Para te deitares na 
palha? O gado 
vai-se degenerando, o estbulo est a ficar cheio de musgo e um calo destes 
ainda quer ser pago por isto!
Tichon Ivanovitch Lipski foi pessoalmente  cidade, mas em Kiev ningum tinha 
tempo para ele. 
J se sabia como era... era preciso falar com o funcionrio competente, mas esse 
funcionrio no est 
disponvel nos prximos dois meses e no podia receb-lo. Ou ento o funcionrio 
competente no  afinal 
competente e tambm no sabe quem  competente...
 igual em toda a parte, camaradas!
Lipski andou um dia inteiro a correr as reparties e j lhe ardiam as solas dos 
ps; j tinha 
contado dezanove vezes, a vrios funcionrios, a histria da sua filha Milda. 
Essa mesma histria da 
perseguio que o gordo Kuran fazia a Milda e por isso os tiranizava...
Todos os que o ouviam, davam-lhe razo. Claro, Kyrill Michailovitch era um 
grande porco... e 
depois remetiam-no para o departamento ao lado.
Escada acima, escada abaixo, atravs dos compridos corredores...
Quando,  noite, Lipski se encontrou outra vez na rua, porque as reparties 
haviam fechado, 
relatara muita coisa, tinha os ps esfolados de tanto andar, mas no conseguira 
nada.
No entanto, alguma coisa de bom deve ter ficado disso tudo: dois dias depois, 
Kuran mandou 
chamar o velho Lipski. Atirou-lhe com os papis da repartio  cara e gritou-
lhe irnico:
- Com que ento foste a Kiev fazer queixa! Este Lipski  um amor! Agora dou-te a 
oportunidade 
de viveres mais tranquilo! Fora daqui! E poupa-te de fazer outra viagem a 
Kiev... A demisso j vem 
assinada pela central...
E assim veio o Outono, a poca das chuvas e o trabalho no sector trs tornou-se 
um inferno.
Apenas reluzia um nico rasgo de esperana: Luka vinha fazer uma visita aos 
domingos.
 noite ele ia danar com Milda, sob os olhares do gordo Kuran, que rangia os 
dentes de raiva. 
Luka beijava-a mesmo na altura em que rodopiavam em frente de Kuran e depois 
acompanhava-a a casa.
- Tenho uma tia em Kiev - disse Luka. - Vou escrever-lhe. H muitas fbricas em 
Kiev que 
procuram raparigas jovens.  trabalho leve em comparao com essa escravido no 
vosso sector! Em 
breve essa tortura vai terminar, Milda!
Beijaram-se outra vez. Foi o primeiro beijo que Milda sentiu pelo corpo todo at 
s pontas dos 
ps. Uma sensao maravilhosa que ela saboreou com os olhos fechados.
Nessa mesma noite, Kyrill Michailovitch foi atacado de surpresa na sua prpria 
cama. De 
repente, partiu-se um vidro, um vulto escuro saltou para dentro do quarto e 
antes que Kuran pudesse 
saltar da cama, levou logo o primeiro golpe poderoso directamente no queixo 
gordo.

O desconhecido devia ser um rapago robusto, pois cada golpe desferido sacudia 
Kuran at aos 
ossos. Ele cambaleou de parede a parede, tentou oferecer uma fraca resistncia e 
escorregou, por fim, do 
guarda-fato para o cho.
Contudo, Kuran ainda no perdera os sentidos, como pensou o agressor, e ento o 
gordo 
brigadeiro reconheceu,  plida luz da noite, a figura indistinta embora 
inconfundvel do homem que o 
tinha derrotado: Luka!
O agressor voltou a saltar pela janela e desapareceu. Kuran no o denunciou. 
Procedeu como se 
nada tivesse acontecido. Mas depois aconteceu uma desgraa horrvel no posto 
exterior: uma corrente 
de ao, com a qual se arrancavam da terra as razes das rvores, partiu-se e ao 
cair atingiu Luka, que 
estava perto da raiz a dar instrues ao condutor do tractor, e arrancou-lhe a 
cabea.
Um acidente, sem dvida.
As correntes podem partir-se. Material muito gasto como se dizia! Toda a 
cooperativa ficou de 
luto. Luka teve um grande funeral com msica, bandeiras, muitas coroas de 
flores, lindos discursos e 
glrias pstumas. At veio um funcionrio da central em Kiev.
A corrente partida desapareceu, entretanto, antes que algum comeasse a 
procur-la. O material 
usado nunca mostra os seus defeitos...
Uma semana depois da morte de Luka, Kuran aceitou receber Milda numa atitude 
generosa.
- O que  que se passa, Mildaschka? - perguntou ele amigavelmente. - H algum 
que possa 
ocupar o lugar de Luka?
- No! Voc  um nojo, camarada! - respondeu Milda.
Foi uma conversa curta e precisa.
Sim, e depois chegou o dia em que a vida de Milda mudou para sempre.
Chovia torrencialmente e o sector trs teve direito a uma folga, porque no se 
podia mais 
trabalhar na floresta. Ento aproveitou-se para se limparem os utenslios e os 
veculos e Milda foi 
mandada ao armazm para ir buscar algumas doses de leo lubrificante.
Um dia triste, como se dizia: um dia em que o cu desabava sobre a terra.
Milda Tichonovna saltou do seu pequeno carro, lanou um cobertor sobre a cabea 
e correu s 
cegas, atravs da chuva ruidosa, em direco do telheiro do armazm.
No deveria ter feito isto.
Mal conseguia abrigar-se da chuva. De repente, algum surgiu por trs e enfiou 
um grande saco 
sobre a cabea de Milda, abafando assim os seus gritos e enfraquecendo-lhe a 
resistncia.
Ela foi levantada, levada dali, caiu em cima de uma coisa mole e gritou - chorou 
as suas mgoas, 
abafadas pelo saco que lhe tapava a cabea. Depois arrancaram-lhe as calas de 
trabalho do corpo e uma 
barriga pesada como uma rocha caiu-lhe em cima.
O que se seguiu f-la sofrer em silncio. Ela mordeu a serapilheira com a dor, 
mas manteve-se 
consciente.
Os seus pensamentos eram to terrivelmente claros que ela guardou todos os 
pormenores de tudo 
o que lhe aconteceu.
Assim que tudo passou, ela levou uma pancada na cabea e perdeu os sentidos.
No contou a ningum o acontecido, nem sequer ao pai. O que ela s podia provar 
 que lhe 
tinham enfiado um saco na cabea. Kuran arranjaria testemunhas em como a essa 
hora estava bem longe 
do armazm de material.
No dia seguinte, deram por falta de Milda no sector trs.
Ela ficou no armazm principal da cooperativa, foi para o posto de entrega de 
ferramentas, no 
qual j trabalhava uma mulher no to jovem nem bonita como Milda, mas mais 
experiente e acima de 
tudo solcita. Entregou-lhe um machado de cabo curto, e Milda assinou o recibo 
com o seu nome completo 
e entalou o machado debaixo do brao.

Ento atravessou, muito silenciosamente, a grande praa central da cooperativa, 
entrou no 
escritrio da administrao e bateu  porta do gabinete de Kyrill Michailovitch 
Kuran.
Milda Tichonovna estava embriagada de dio, quando ele gritou:
- Entre!
Estava sentado, exibindo a sua gordura, com as pernas esticadas por baixo da 
secretria e... 
comia. Na melhor das boas vontades, podia chamar-se "comer" ao que ele estava a 
fazer.
Estava mergulhado numa montanha de comida e molho de carne que tinha erguido  
sua frente 
- enquanto sonhava com a sobremesa - bolos e frutas cristalizadas. Era a maneira 
como ele tragava tudo, 
a grunhir e a mascar como se fosse um porco sentado junto do comedouro a 
chafurdar com o focinho na 
papa.
- Aha! - disse ele quando reconheceu Milda, que tirou o leno da cabea e o 
sacudiu. Continuava 
a chover, no to violentamente como no dia anterior. Era, contudo, uma chuva 
que encharcava a terra 
incessantemente, tornava os caminhos intransitveis e o trabalho na cooperativa 
um autntico martrio.
O Inverno j se adivinhava.
Com a chuva, assobiava tambm um vento frio. Era um tipo diferente de frio 
daqueles dos dias 
frescos de Outono... era o bafo gelado que exalava de um gigantesco frigorfico: 
da Sibria...
-        Quem est a, quem est a? - disse Kuran bem-disposto, e continuou a 
mascar. - To 
plida, minha avezinha? Devias comer mais beterraba, d mais sangue s veias...
- Tem razo, Kyrill Michailovitch - respondeu Milda calmamente. - O sangue faz-
me falta. Muito 
sangue!
Aproximou-se da mesa e ficou a pouca distncia do ruminante Kuran, que parecia 
continuar a 
grunhir.
Este meteu um bocado de comida na boca, mastigou ruidosamente, deslizou um olhar 
pelo corpo 
de Milda e lembrou-se, aparentemente com agrado, de como eles tinham estado 
deitados - o saco enfiado 
na cabea, o vestido levantado at ao pescoo, uma rapariga frgil mas bem 
torneada que se saboreou 
como um clice de licor doce de Caz.
- A cozinha vai fornecer-te natas durante uma semana inteira - declarou Kuran 
generoso. - Diz 
que foi ordem minha. A confirmao por escrito ir logo a seguir. - Ele apontou 
para o monte de bolos 
e de frutas cristalizadas. - Gostas, Mildaschka?
- Obrigada, Kyrill Michailovitch.
Ela fixou o seu grande crnio redondo, um ponto mesmo no meio da cabea e deixou 
escorregar 
o machado debaixo do brao de modo a conseguir agarrar o cabo.
Kuran estava ocupado com o seu molho de carne. Verteu-o num prato fundo e pegou 
na colher.
Milda agarrou no machado com ambas as mos e levantou-o com uma rotao dos 
quadris sobre 
a sua cabea, como se fizesse lanamento do disco, e ento deixou-o cair sobre o 
crnio de Kuran.
Tal como se estivesse a rachar lenha, no podia ser outra coisa. A gorda cabea 
de Kuran abriu-
se ao meio. O sangue e os miolos jorraram como pedaos de madeira que se racham; 
o corpo pesado caiu 
para a frente como um saco e resvalou ento para o lado na cadeira.
As pernas enfiadas nas botas engraxadas estremeceram ainda durante um bocado e 
depois 
ficaram quietas.
S o sangue continuava a jorrar do crnio de Kuran. Era um rudo que Milda nunca 
mais 
esqueceria.
Ficou a olhar para o morto durante um grande bocado, depois colocou o machado ao 
lado do 
crnio rachado e saiu do edifcio da administrao da cooperativa do mesmo modo 
silencioso como tinha 
entrado.
Sentou-se na cantina, mandou vir um ch com mel e esperou.
No demorou muito tempo.
Havia sempre qualquer coisa que precisavam perguntar ao camarada Kuran, mesmo 
sabendo 
que a esta hora ele estava a comer e no queria ser incomodado.

Quem descobriu o morto naquele cenrio desagradvel foi o segundo-escriturrio 
Nikita, que se 
benzeu s escondidas e depois deu o alarme.
Milda permaneceu sentada na cantina. "Para qu fugir?", pensou ela. Fugir para 
onde? Em 
breve saberiam quem tinha levado o machado do armazm.
"E se eu me esconder", continuou Milda a pensar, "vo interrogar o meu pai, a 
minha me e o 
meu irmo e tambm no vo deixar a minha irm em paz e suspeitariam que me 
tinham levado embora. 
Isso s iria trazer dificuldades.
Eu fiz isso, rachei a cabea a um porco em forma de gente e no me arrependo. 
Para qu ser 
cobarde agora e esconder-me?"
Quando tudo na Unio Sovitica ia de mal a pior e ningum se incomodava com o 
que devia, 
porque as pessoas eram realmente indolentes e todos dependentes dos planos 
anuais que faziam - houve 
uma coisa que funcionou rapidamente: a milcia chegou  cooperativa num 
curtssimo espao de tempo.
As pessoas aglomeravam-se  porta da administrao e discutiam.
Pelo menos concordavam que devia ser erigido um monumento ao assassino ainda 
desconhecido 
em Kargopov - maior e mais bonito do que o de Lenine, aquele com o punho 
erguido, que estava na praa 
do mercado e devia ser feito um discurso.
No tinha a menor importncia que a milcia tivesse outra opinio... Kuran tinha 
sido um canalha 
infernal, um demnio em vida, um garanho pronto a perseguir todas as mulheres 
bonitas, que j tinha 
despertado em muitos maridos o desejo de mat-lo. Mas nenhum o tinha feito... 
at hoje!
- Camarada, onde ests? Deixa-me abraar-te! s o nosso irmozinho.
Passaram-se duas horas at que a milcia registasse tudo. Fotografaram o crnio 
rachado de 
Kuran, descobriram uma srie de impresses digitais no cabo do machado; havia 
terra e lama deixadas 
pelas solas de umas botas e no havia, de certeza, nada pegado s solas limpas 
de Kuran; e 
principalmente miraram, pensativos, um leno de cabea perto do prato do molho 
de carne que estava 
sobre a mesa.
- No tem importncia para o caso - esclareceu o camarada Lobnovitz, o 
substituto de Kuran e 
um bom homem, com quem podiam desabafar os que diziam mal de Kuran pelas costas. 
- As mulheres 
faziam parte da vida dele, tal como arrotar depois das refeies! Reparem no 
golpe, camaradas! Isto  
obra de um homem forte como um touro. Temos de passar a pente fino todos os 
maridos trados que 
pesem mais de noventa quilos... comecemos pelos ferreiros...
A milcia comeou por onde quis. E foi naturalmente pelo armazm de ferramentas 
que conduziu 
directamente a Milda.
Quando a milcia entrou na cantina, curiosa por saber quem seria a mulher com 
tal fora, Milda 
ergueu-se na sua fragilidade juvenil e disse em voz alta:
-        Sim, fui eu!
Acreditaram logo nela quando compararam as suas impresses digitais com as do 
cabo do 
machado.
- Com estes bracinhos? - perguntou o comissrio, e abanou a cabea. - Rachou um 
crnio ao 
meio? Milda Tichonovna, com esses msculos to pequenos no levanta nem um 
repolho!
- Desferi o golpe com todo o meu corpo - disse ela sem indcios de agitao.
- O corpo de uma pequena andorinha...
- D-me o machado e eu mostro-lhe...
O comissrio hesitou, examinou Milda outra vez e ento acedeu com um aceno de 
cabea.
Estenderam o machado a Milda e conduziram-na a uma pequena mesa pouco segura.
- Tem de destru-la... - declarou o comissrio. - Faa favor!

Milda Tichonovna olhou para a mesa. Depois ergueu os braos com o machado... mas 
quando os 
ergueu por cima da cabea, de repente algo se despedaou em Milda.
O machado caiu-lhe da mo, estatelou-se no soalho... Milda vacilou, vergou os 
joelhos e rolou aos 
ps do comissrio. Foi como se tivesse quebrado a espinha dorsal com o peso do 
machado.
- Levem-na l para fora com cuidado... - disse o comissrio muito srio. - Com 
muito cuidado. E 
levem-na para Kiev. Temos de defender a lei e no a alma destruida de uma jovem 
mulher...

A audincia do processo teve lugar em Kiev. Todos os que tiveram uma folga na 
Cooperativa 
Maxim Gorki estavam l atrs sentados nos bancos. Meia Kargapov tinha vindo  
cidade, em parte em 
carroas abertas de camponeses.
O velho Jefim Timofejevitch, de quem se afirmava que tinha combatido na guerra 
entre a Rssia 
e o Japo - o que era um enorme exagero, ao qual ele no se opunha - entrou 
mesmo em Kiev com dois 
bois atrelados a uma carroa de estrume.
Eram trs dias de caminho desde Kargopov e contou a todos, de cada vez que 
parava, a tragdia 
da bela Milda Tichonovna Lipski. Entre Kargopov e Kiev j toda a gente sabia o 
que acontecera e todos 
tinham pena de Milda.
A audincia foi breve.
Milda confessou tudo, a me chorava alto, seu pai praguejava em voz alta e 
gritava na sala que 
Kuran tinha sido um fornicador, mas o tribunal no aceitou o seu testemunho.
Onde iramos parar se rachssemos o crnio a todos os homens que perseguem todos 
os rabos 
de saias que encontram? No tardaria e a raa masculina seria exterminada...
Por entre os gemidos do povo de Kargopov, o tribunal condenou Milda Tichonovna a 
dez anos 
de trabalhos forados. At foi uma sentena benvola... os antecedentes de Kuran 
foram, de facto, uma 
atenuante que ficou registada.
Mas dez anos na Sibria... Camaradas, no voltaramos a ver Milda. Troncos de 
homens jaziam 
numa cova do campo de trabalho, como  que um cisnezinho como Milda ia aguentar?
O velho Jefim Timofejevitch cuspiu na sala e aproximou-se do juiz perfeitamente 
desconcertado. 
Um cheiro ainda pior que estrume exalava dele, mas nem por isso abalou 
ningum...
O ancio baixou as calas, mostrou o seu traseiro cheio de rugas ao Supremo 
Tribunal e soprou 
o desafio conhecido. No se podia acus-lo de desrespeito ao tribunal... Jefim 
exteriormente mostrava-se 
muito respeitador.
A milcia j havia informado o tribunal durante o julgamento que tinha havido 
distrbios com 
a multido na rua. Nas escadas do venervel edifcio parou uma carroa de 
estrume puxada por dois bois 
meio cegos...

Milda viu a famlia mais uma vez. A partida para a Sibria - onde no conhecia 
ningum e no 
lhe sabiam dar informaes - tinham de assistir  despedida da condenada.
Sentaram-se em frente uns dos outros numa sala pequena, separados por uma grande 
mesa... num 
dos lados sentava-se Milda com o guarda, do outro lado o pai Lipski, a me, a 
irm e o irmo.
Por toda a sala amontoavam-se caixotes e sacos.
Eram prendas, presentes de todos em Kargopov para levar na viagem para uma terra 
desconhecida.
Era claro que Milda no podia levar nada daquilo consigo, mas tambm  
importante mostrar 
que provas de amor podem acompanhar uma pessoa pelo caminho...
- Estou muito orgulhoso de ti! - disse Tichon Ivanovitch. - Deus te acompanhe, 
minha querida 
filha. Os anos passam depressa. Ficamos  tua espera!
E a me disse com a voz surpreendentemente mais firme:

- Todo o pas fala de ti. Gostaria de abraar-te, mas no devo.
- Eu fao de conta que no vejo... - disse o guarda e virou-se de costas.
Eles abraaram-se e beijaram-se, o irmo enfiou entre os seios de Milda um 
pequeno mapa da 
Sibria, todo dobrado, e a irm passou-lhe, a seguir, uma navalha fechada.
- Ns esperamos! - disse ento a famlia em coro. Era o sinal para o guarda se 
voltar outra vez. 
Os parentes sentaram-se de novo, decentemente, atrs da mesa.
Um mapa e uma navalha... deviam ser suficientes para dominar a Sibria! A f da 
Rssia  muito 
grande numa fora singular.
Iriam lev-la muito cedo, numa manh de nevoeiro: nove mulheres e dezasseis 
homens. Cinco 
carros celulares conduziram-nos at  estao de mercadorias de Kiev, onde os 
vages fechados 
aguardavam. Eram vages de gado adaptados com tarimbas e um fogo de ferro ao 
meio.
At agora eram cinco vages que tinham sido trazidos de outras regies e que ali 
foram 
concentrados. Para a Sibria ainda havia mais... um enorme comboio, que deveria 
desaparecer na 
imensido da taiga...
Os soldados de escolta tratavam as mulheres com delicadeza, aos homens 
empurravam-nos para 
a frente como rebanhos de carneiros.
Nem todos eram assassinos, ladres, salteadores ou impostores; havia tambm trs 
professores, 
dois escritores, um jornalista, um actor e um director de fbrica.
E entre as reclusas, no vago de Milda, tambm havia uma mdica, uma senhora j 
de idade, que 
falava pouco sobre si. A maior parte das vezes sentava-se no catre e fixava um 
ponto distante, 
completamente alheada.
Quando uma das mulheres se descontrolava e comeava a gritar com medo desta 
gigantesca e 
desconhecida Sibria, encontrava facilmente palavras de conforto.
-        Quem  que matou, camarada? - perguntou Milda  reservada mdica, ao longo 
do 
caminho atravs dos montes Urales.
Era uma pergunta to ingnua que levantou, pela primeira vez, uma ponta do vu 
que escondia 
os seus segredos.
As outras, criminosas de uma maneira geral, arregalaram os olhos avidamente.
- Eu matei alguns mentirosos - disse a mdica. - Estive um ano em Hamburgo e 
contei em Kiev 
como eram as coisas na Alemanha. - A mdica encolheu os ombros. - S devia ter 
aprendido como se ama 
o socialismo...
Uma poltica!
As outras mulheres afastaram-se da mdica. A partir desse momento, ela ficou 
completamente 
sozinha. S Milda se sentava mais vezes ao p dela e contava coisas de Kargopov, 
dos extensos campos 
e do idoso Jefim Timofejevitch, que tinha mostrado o traseiro nu ao tribunal.
O comboio percorria a regio dos Urales. Em Sverdlovsk vieram buscar do vago a 
mdica, duas 
ladras e Milda Tichonovna e levaram-nas para um transporte fechado.
Fim da linha! J em Sverdlovsk? Ficaria num canto da Sibria? Mand-la-iam para 
Karaganda 
ou para mais longe, para Magadan? Iriam descarreg-las algures na taiga 
infinita, num acampamento, 
que s tinha um nome na lista dos servios pblicos?
-        O Inferno pode estar em toda a parte... - disse a mdica quando a 
descarregavam. 
Estavam muito longe da cidade, foram para um acampamento onde comeava a 
floresta.
Uma serrao fazia rudo dia e noite. Inmeros troncos e tbuas serradas estavam 
empilhados 
e o cheiro spero de madeira nova disfarava qualquer outro odor.
-        Uma serrao de madeira! - A mdica olhou em volta.
O oficial da escolta entregou os papis do transporte.

As mulheres ficaram sozinhas no ptio da administrao, apertadas todas umas 
contra as outras como 
vacas numa tempestade. Quatro vultos indistintos com casacos pespontados, calas 
de algodo e 
resistentes botas de campons escondiam a cabea sob os lenos...
-        Sabes o que isto significa, Milda?
-        No. Mas j trabalhei na floresta, na cooperativa. No me importa...
-        Vo enfiar-me, de certeza, no sector hospitalar - disse a mdica. - Diz-te 
doente por uns 
dias, vem ter comigo... e eu vejo como te posso levar para l nas primeiras 
semanas.
As serras chiavam atravs da madeira, as grades separavam-nas.
 esquerda ficava o acampamento dos homens,  direita as barracas das mulheres 
separadas por 
divisrias altas.
Peloto de fuzilamento no havia, nem redes com corrente de alta tenso, apenas 
algumas torres 
de vigia com projectores e metralhadoras e isto apenas no acampamento dos 
homens.
-        Do meu acampamento ningum foge! - disse o comandante meia hora mais 
tarde.
Os novos presos desfilaram  sua frente.
-        Vejo em vocs s gente trapalhona que precisa de ajuda para se reerguer. 
Vo ser 
tratados decentemente se se comportarem de maneira honesta. Somos uma comunidade 
de trabalho e 
todos dependem uns dos outros. Quem entender isto, ser aqui tratado como 
gente...
- Soa bem - disse mais tarde a mdica. Estava no lavabo, tinha tomado um duche e 
agora 
esperava pelo banho de vapor e pela desparasitao obrigatria. Os seus corpos 
nus j brilhavam com 
o suor, estava calor neste compartimento.
Tambm as trabalhadoras do lavabo eram igualmente reclusas, usavam apenas uma 
blusa curta, 
cinzenta, sobre a pele despida.
-        Aguardemos - prosseguiu a mdica. - Ns, os Russos, sempre fomos grandes 
tericos! - 
Era evidente a razo de a terem enviado para um acampamento como este, 
evidenciando tais opinies...

O mundo , no fundo, igual em toda a parte onde h homens e onde, de repente, 
surge uma mulher 
bonita. A natureza organizou tudo de tal maneira que no se pode fazer nada 
contra isso!
Assim que Milda se apresentou ao responsvel do seu posto e assumiu as suas 
funes no sector 
onde se descascavam batatas, reparou que as coisas no eram assim to diferentes 
da Cooperativa Maxim 
Gorki em Kargopov.
O responsvel do sector exibiu uns olhos redondos de boi, contemplou Milda com 
os lbios 
apertados, dando estalidos com a lngua, e disse:
-        Chamo-me Avraam Iljajevitch; s uma pergunta primeiro: queres passar dez 
anos a 
descascar batatas?
-        Quero - respondeu Milda. J conhecia aquele olhar!
No tinha medo. Tambm Avraam tinha uma cabea franzina, pensou ela, to 
prosaica como 
qualquer um que separa e classifica os ovos e exclui os que tm casca fina.
"L o meu relatrio disciplinar, camarada! No cometas o mesmo erro que Kyrill 
Michailovitch. 
O meu corpo no  recinto para festas populares... para mim  sagrado, 
precisamente agora que Kuran 
o profanou. "
- Ento estamos perfeitamente entendidos - disse Avraam Iljajevitch. - Dentro de 
um ano os teus 
dedos j se transformaram em batatas e tu descasca-los...
- So os meus dedos, Avraam Iljajevitch - respondeu Milda calmamente. - Eu 
preocupo-me com 
eles.
E assim que terminou a conversa Milda recebeu o seu banquinho, um enorme balde 
de zinco cheio 
de gua, sentou-se perto de um monte de batatas ftidas e comeou a descasc-
las.
No acampamento havia mil duzentos e setenta e quatro reclusos... em dez anos 
comeriam uma 
montanha de batatas. No eram dados muito exactos...

Avraam Iljajevitch era mais esperto do que Kuran. No atacava -espiava a 
fortaleza como uma 
raposa ronda um galinheiro. De vez em quando aparecia perto das descascadoras de 
batatas - coisa que 
raramente fazia antes -, encostava-se  parede silencioso e ficava a olhar.
Era um homem feio, tinha talvez quarenta anos, com cabelo crespo e preto, quase 
de certeza da 
Gergia ou da Crimeia. Tinha uma cara franca e olhos quase divertidos.
Logo no primeiro dia, as mulheres contaram a Milda que a sua mulher havia 
morrido com uma 
febre ps-parto e pouco tempo depois tambm a criana tinha tido uma pneumonia. 
No voltou a casar 
e nem constava que ele levasse reclusas para a cama, porque no tinha nenhuma 
preferida... Era to 
correcto como o comandante, a quem elas amavam s escondidas.
Com a chegada de Milda tudo mudou.
Devia ter qualquer coisa em si que deixava os homens loucos, como ursos que 
farejavam o mel.
Ela prpria no entendia. Olhava-se no espelho da casa de banho da comunidade ou 
nos azulejos 
brilhantes do lavabo, que frequentava uma vez por semana para tomar um banho 
quente. O cheiro a 
batatas, principalmente quando estavam podres, era semelhante a aguardente 
barata, entranhava-se nos 
poros e s saa com o vapor do banho.
"Tenho um corpo bonito", pensou Milda ento, meio a brincar. "Quem  que pode 
no reparar?"
No entanto, havia outras mulheres que tambm tinham corpo bonito, como por 
exemplo 
Jelisaveta ou a atrevida Anja... mas a estas Avraam Iljajevitch no cobiava com 
os olhos. Mirava-as 
como se faz s galinhas cacarejantes. "Porqu eu? Sempre eu?"
Vestiu-se com as coisas mais velhas que tinha, calou as botas resistentes que 
no deixavam ver 
as pernas bem feitas, usava uma blusa de linho suja e uma saia demasiado larga, 
a qual ainda estava 
presa com um cordel  cintura... um aspecto que, deveras, no atraa!
Porm, Avraam andava ali  volta, cobiava-a com os olhos, suspirava em segredo, 
sorria-lhe 
ironicamente quando os seus olhares se cruzavam e tinha mais tempo para ir  
cozinha do que 
antigamente.
Ela no comentou o assunto com a sua nova amiga, a mdica.
Visitou-a algumas vezes no sector hospitalar, mas Milda
recusou-se a deixar-se examinar.
- Tiveste sorte, Milda - disse a mdica. - As outras duas mulheres trabalham na 
serrao como 
os homens. Mas sabem o que fazem! Uma vem amanh para a enfermaria, j tem 
gonorreia. Ainda estou 
 espera da outra, mas ainda no veio...
Era um sbado e, para dizer a verdade, no aconteceu nada.
Milda tomou o banho de vapor, a sua pele ficou livre do cheiro fermentado das 
batatas. Sentia-se 
esplndida, como que livre, e
sentou-se no vestbulo do lavabo,  espera da roupa que tambm tinha deixado 
pendurada ao vapor.
Ento apareceu Avraam Iljajevitch. Entrou facilmente no lavabo feminino, olhou 
para Milda, que 
estava nua, fez sinal  responsvel pelo lavabo que ralhava e berrava e voltou a 
sair.
 certo que no sucedeu nada. No entanto, este acontecimento despertou em Milda 
uma espcie 
de pnico.
Correu para a sua amiga, na enfermaria, contou-lhe tudo e disse com respirao 
ofegante:
-  preciso fazer alguma coisa! Sei que tambm o matarei se me agarrar.  um 
homem simptico, 
tem olhos amveis, talvez ele at me ame...
-        Ele ama-te com toda a certeza - afirmou a mdica.
-        Mas eu vou mat-lo! No quero voltar a ser violada, quero ser eu a 
entregar-me! 
Compreendes?
-        Com certeza.  uma grande diferena!
A mdica olhou pela janela. Estava um claro dia de Inverno, com um sol 
brilhante, mas muito 
frio. A neve cintilava num tom azulado.

Avraam Iljajevitch passeava no grande espao entre a administrao e a 
enfermaria. Usava uma 
grossa pele de urso com uma gola de raposa prateada. Estava, por assim dizer, 
muito elegante.
Da serrao vinha o barulho estridente das serras e das grades... aqui no havia 
sbados nem 
domingos. A Unio Sovitica precisava de madeira.
-        O que  que fazemos? - perguntou a mdica pensativa. - Milda, o que  que 
vamos fazer 
contigo?
-        No sei. - Milda ps as mos no colo, que tanto protegia, e olhou para a 
sua amiga..- Estou 
aqui para que me digas.
Todo o problema era muito fcil de resolver, as dificuldades comeariam logo que 
deixasse o 
acampamento. Portanto, s havia uma maneira de escapar ao amor de Avraam: a 
fuga!
-        Eles esto  minha espera, disseram-me  despedida; tenho de me esconder 
algures em 
Kargopov...
Milda Tichonovna observou Avraam, como ele andava na neve de c para l, 
impaciente. Estava 
preocupado. Por que razo  que Milda estava na enfermaria? No se sentiria bem? 
Certamente iria 
perguntar ao mdico mais tarde.
-        E a era o primeiro stio onde iriam procurar. No, tens de esconder-te, 
Milda, onde 
ningum te conhea! Talvez durante um ano... depois tudo ser esquecido.
-        Mas haver homens por toda a parte a perseguir-me...
-  um risco que tens de correr. Quem sabe no encontres um que ames... e ento 
ters uma nova 
ptria!
-Talvez... - Ela voltou-se para a janela. - Temos de aguardar.
Trs dias depois - Avraam tinha-se acalmado, Milda no estava doente - trs 
camionetas de 
recolha de lixo trabalhavam no acampamento e dirigiam-se para um lugar de 
combusto de lixo.
Debaixo de uma pilha de roupa velha e rasgada que j no se podia remendar, 
encontrava-se 
Milda, rodeada de mau cheiro e lixo, que se deixou transportar para fora do 
acampamento.
Os postos de vigia controlavam apenas a papelada de viagem, olharam para a carga 
imunda e 
acenaram: podem passar!
Era de noite, a ltima chamada j tinha passado, a contagem dos presos, a 
participao aos 
responsveis.
tudo completo!
Uma noite como tantas outras na serrao Iii perto de Sverdlovsk.
A meio do caminho, prximo de uma colnia, que parecia adormecida, Milda saiu de 
baixo da 
pilha de roupa e saltou.
Caiu na neve, rastejou alguns metros na rua, depois levantou-se, sacudiu a neve 
das suas roupas 
grossas e dirigiu-se  cidade.
Assim que chegou  primeira rua e se misturou com as pessoas, tornou-se uma 
rapariga como 
tantas outras nesta cidade. Quem  que podia adivinhar que ela vinha de um campo 
de trabalhos 
forados?
Foi para a grande estao ferroviria, consultou no painel as partidas dos 
comboios e depois 
esperou, na enorme gare, pela chegada do Expresso Transiberiano.
Para comear, ia na direco oposta a Kargopov - tal como a mdica tinha dito. 
Ningum iria 
imaginar que tinha fugido para a Sibria. Iriam vasculhar todos os caminhos at 
Kargopov... por 
enquanto estava segura na Sibria. Veria que aquela era uma terra de amor. 
Ningum julga isso se no 
a conhecer.
Teve de esperar durante muito tempo, mas quando o comboio entrou finalmente na 
estao, 
perdeu a coragem.
Escondeu-se na gare, por detrs de um quiosque, e mirou as compridas e luxuosas 
carruagens.
Observou como Mulanov e Vitali falavam com o chefe da estao e viu uma mulher 
exuberante, 
ordinria e pintada, apear-se e andar de um lado para o outro. Estava a fumar um 
cigarro e deu uma 
resposta obscena quando o chefe da estao lhe gritou qualquer coisa.

A quatro metros de Milda estava uma porta aberta. S a quatro metros... trs 
grandes saltos! 
Deveria arriscar? Onde  que iria voltar a descer? Um comboio tambm  um perigo 
rolante para uma
presa em fuga.
-        Embarcar e fechar as portas!
A mulher exuberante subiu para a carruagem e o revisor percorreu todo o comboio. 
A gare 
estava vazia.... e
em frente apenas a quatro metros de distncia estava a
porta aberta.
Milda saiu da sombra do quiosque... Olhou para a porta, baixou-se e desatou a 
correr.
Nesse momento reparou num vulto, de certo modo escondido, na janela escura.
L estava um homem a olhar para ela. Tarde de mais!
J no havia retrocesso. Com a coragem do desespero, Milda Tichonovna 
precipitou-se para 
dentro da porta aberta, trepou os degraus e quase caiu na carruagem.
Dois segundos depois, Mulanov correu a porta pelo lado de fora. Esta deu um 
estalido na 
fechadura, a tranca de segurana deu um solavanco para cima. Era o barulho da 
porta de uma cela a 
fechar-se.
Prisioneira num comboio! Com a Sibria infinita  sua frente!
As rodas comearam a movimentar-se, uma vibrao percorreu o comboio, que, com 
um chiar 
suave, se ps em andamento.
Nos primeiros minutos, Milda escondeu-se na casa de banho do vestbulo. Sentou-
se na bacia, 
apertou o rosto nas mos e comeou a chorar como uma criancinha...

Captulo dcimo primeiro

-        Agora j sabemos - disse Mulanov, passado um bocado daquele silncio.
Milda Tichonovna tinha encostado a cabea ao peito de Forster e ele acariciava-
lhe as costas e 
soube naquele instante que nunca mais a abandonaria.
-        Se contarem isto a Karsanov, ele puxa o freio de alarme e leva-a para a 
esquadra de 
polcia mais prxima. Tem alguma ideia, Werner Antonovitch?
Forster no tinha ideia nenhuma.
Enquanto Milda contava a sua histria, haviam passado Ulan-Ude, tinham parado 
durante um 
momento e j iam a caminho de Tchita.
Karsanov parecia estar ainda ocupado com o transtornado Skarnejkin e no tinha 
levado a cabo 
a ameaa de atir-lo do comboio em Ulan-Ude.
-        Desembaraar-se de mim como de um bastardo? - tinha ele berrado. - Eu, um 
cidado 
deste pas, membro do Partido e proprietrio de um bilhete legtimo?  este o 
tratamento que se dispensa 
a um homem que s quer justia? O Estado confiscou os meus sapatos novos... eu 
exijo que o Estado me 
envie os sapatos de avio para Tchita ou para Chabarovsk!
Era uma gritaria! Dentro da cabina telefnica estava sentado o capito Plotkin, 
no queria ser 
visto e por isso tambm no podia intervir para clarificar as coisas... L fora 
Karsanov vociferava, 
ameaava, praguejava e no tinha qualquer possibilidade de chamar  razo um 
javali ferido e furioso 
como Skarnejkin.
At mesmo quando Karsanov mostrou o seu carto da KGB, presenciou um autntico 
milagre 
russo: Dementi Michailovitch Skarnejkin cuspiu no carto e explicou que queria 
efectivamente ser preso! 
Num tribunal, perante centenas de jornalistas de todo o mundo, ele descreveria o 
seu comportamento 
vergonhoso!
- Temos de chegar a Vadivostoque - disse Werner Forster. -  o nico objectivo, 
Mulanov. At 
chegarmos a Vadivostoque temos de impedir que Karsanov venha a saber da 
histria de Milda.
-        Mas como? Como, Werner Antonovitch? - Mulanov esfregou as maos. - Oh, se 
Kiaschka 
ainda fosse viva! Haveria de ter alguma ideia! Eu posso esconder Milda no 
comboio, mas tem ideia do 
que Karsanov poder fazer? At Vadivostoque j ele ter examinado cada canto do 
comboio! S h um 
lugar seguro... a casa de banho onde est Kiaschka.
- No! - gritou Milda desesperada. - No! No!
Ela quase se arrastou at Forster - ficou, de repente, to pequena como uma 
criana.
- Uma proposta idiota, Boris Fedorovitch - disse Forster, zangado, para o 
revisor. - Voc quer 
arrasar completamente os nervos de Milda?
-        Ento proponha outra coisa. Mas tem de ser depressa! Karsanov pode voltar 
a qualquer 
momento. Os nervos de Skarnejkin tambm esto destroados. S  preciso que 
algum tenha a ideia de 
lhe dar uma bofetada e ento termina tudo!
-        E ento fica apenas o ataque directo de Karsanov!
- Forster disse isso em tom muito duro. - Mulanov, no fique a de olhos 
esgazeados. Olhe para 
Mildaschka. Como russo, voc sabe muito bem o que uma pessoa tem de passar 
quando foge de um campo 
de trabalho e  apanhada novamente. Acha que Milda deve passar por isso?

H um ditado que diz: "A mo do destino agarra-nos!" ptimo para quem acredita 
nisto... Pode 
esperar sempre e em qualquer lugar por esta interveno e  raramente enganado, 
porque o destino s 
mostra as suas mos providenciais uma vez...

No vale a pena lutar contra isso, porque tambm aqui, no Expresso 
Transiberiano, o destino tem 
um bilhete e senta-se invisvel no compartimento... Inesperadamente surgiu um 
enorme rudo vindo do 
vago-restaurante, ouviram-se vozes irritadas e ento algum soltou um grito 
sonoro. Soou to 
horripilante como se estivesse a ser arrancada a pele dessa pessoa; depois 
ressoaram pancadas fortes.
Mulanov deu um salto e revolveu os cabelos.
- O que  isto? - gritou ele. - Ser que o pequeno-almoo est assim to mau 
para as pessoas 
baterem em Fedja e destrurem o vago restaurante? Mas que espcie de pessoas  
que viaja hoje em dia 
neste comboio?
O revisor precipitou-se para o corredor, mas regressou logo a seguir e fez 
sinais a Forster.
-         mesmo Fedja! - gritou ele ento. - Coitado! Ataram-lhe os braos atrs 
das costas e 
arrastaram-no! E tudo isto porque se calhar o pequeno-almoo estava mal 
confeccionado!
- Fica aqui sentada e calada, Milda! - disse Forster e
levantou-se. Olhou-a e os olhos dela mostravam-se diferentes do que estavam 
antes de ter contado aquela 
histria.
Havia algo de familiar naquele olhar, a despeito de todo o medo, havia um 
vislumbre de 
solidariedade. Ele envolveu afectuosamente o seu rosto magro e beijou-lhe os 
lbios frios.
E estes lbios agora abriram-se, corresponderam ao beijo, os seus braos 
ergueram-se e 
rodearam-lhe o pescoo. Ela ajoelhou-se na cama e pendurou-se nele; e quando ele 
quis retomar o flego, 
comprimiu ainda mais a sua cabea contra ele e no lhe largou os lbios.
Milda s se deixou cair para trs, sobre a manta amarrotada, quando Mulanov 
entrou no 
compartimento e gritou:
-        Quase assassinaram Fedja!
- Amo-te, Werner - disse ela baixinho. - Amo-te! Amo-te! E no sei porqu...
Arrastaram o pobre e infeliz Fedj a pelo corredor. Trs homens agarravam-no e, 
atrs deles, 
vinha o cozinheiro com uma trouxa de roupa toda amarrotada.
Mulanov gritava a plenos pulmes:
-        Larguem o empregado de mesa, camaradas! Mas que comportamento  este? 
Kusma 
Matvejevitch, voc tambm est metido nisto?
Kusma era o cozinheiro do vago-restaurante. Os passageiros aglomeravam-se 
vindos dos 
compartimentos, o general apareceu - muito imponente - no seu uniforme. Perto 
dele estava o tenor, que 
regressava ao compartimento e estava a pensar se viria a propsito comear a 
cantar uma ria 
apropriada  sua voz.
Fedja estava com um ar terrvel. Tinham-lhe dado murros nos olhos, que estavam 
inchados; ele 
defendia-se desesperadamente,
mordia-lhes e guinchava como um papagaio...
- Saia do caminho, Mulanov! - gritava Kusma, o cozinheiro, por cima da cabea 
dos outros, 
agitando a trouxa de roupa.
-        Encontrei isto debaixo da cama de Fedja! Umas calas cheias de sangue... e 
a bolsa de 
cabedal de Kiaschka com o dinheiro!
Da resultou um monstruoso alvoroo.
Os passageiros que estavam no corredor agrediram Fedja sem hesitao, sem 
perguntar sequer 
se se trataria de um engano.
O general estava aprumado como numa parada,  porta do seu compartimento, e 
gritava em voz 
rouca:
- Fuzilem-no! Fuzilem-no imediatamente!
Finalmente, o tenor encontrou a ria que procurava e comeou a cantar a plenos 
pulmes: "Meu 
Deus, est to escuro aqui... " do Fidlio.
Como se costuma dizer - a indignao que crescia sobre Fedja era uma chusma 
borbulhante.
- Ouam-me! gritava o desgraado sem parar.
Ele mal conseguia ver, porque os seus carrascos lhe batiam nos olhos j inchados 
e davam-lhe 
tantas bofetadas que a sua cara plida no podia estar mais vermelha.

- No  nada disso! Estou a ser vtima de um atentado! Quem me ajuda? Eu quero 
explicar tudo.
Mas ali no havia ningum interessado em ouvir explicaes.
Continuavam a arrastar Fedja, at que o grupo de Mulanov os fez parar. Estava 
parado no 
corredor, firme como um rochedo.
-        Porque  que ningum o ouve? - gritou o revisor.
-        E logo Fedja! Quando corta um dedo, desmaia logo! Deixem-no falar, 
camaradas!
-        No h mais nada para dizer, Bons Fedorovitch! gritou o cozinheiro Kusma.
Desembrulhou a trouxa de roupa e tirou umas calas que agitou no ar.
Toda a gente viu, inclusive Mulanov, que eram sem dvida nenhuma as calas de 
Fedja. Umas 
calas com um rabo to estreitinho que s l cabia Fedja.
-        Isto  uma prova, ou no ? Todas salpicadas de sangue, de cima abaixo! E 
debaixo das 
calas estava a bolsa de cabedal de Kiaschka com todo o dinheiro!
- Fuzilem-no! - ordenava o general. - Encostem-no  parede!
Mulanov comeou a sentir a cabea a ferver. Ps-se diante de Fedja, levantou-lhe 
a cabea baixa 
com ambas as mos e olhou dentro dos seus olhos inchados.
- Foste tu, meu filho? - perguntou ele muito calmamente.
Fedja tentou abrir mais os olhos. A sua boca abriu-se em seco como um peixe, mas 
no saiu 
qualquer som, nem nenhuma palavra sensata...
Passado algum tempo, em que todos estiveram calados, s se ouvia uma respirao 
surda...
-        Claro que foi! - berrou Kusma Matvejevitch. - Ele est condenado! 
Perguntei-lhe logo, 
assim que encontrei as calas debaixo da cama. Por um mero acaso, camaradas! 
Caiu-me uma moeda da 
mo, rolou para debaixo da cama e eu pus-me de gatas no cho para procur-la. E 
o que  que eu 
encontrei quando peguei na moeda? Quase apanhei um choque. "Kusma, fica quieto", 
pensei, "muito 
quieto, ou no sobrevives!" E assim deitado, percebi que era sangue! Fiquei 
paralisado, camaradas, 
calculem. Paralisado! E ento perguntei a este carneiro ordinrio e estendi-lhe 
as calas... Ficou branco 
como cera e respondeu-me: "Lambe-me o cu, meu querido amigo!" Foi o que me disse 
o indivduo! No 
 isso uma confisso? Uma pessoa inocente reage assim?
Tambm Mulanov teve de reconhecer que aquilo era estranho. Deixou o caminho 
livre e ento 
continuaram a arrastar Fedja aos gritos. Dois homens j tinham ido a correr para 
dar o alarme e chamar 
o director do comboio, Vitali Diogenovitch.
Tudo aquilo incomodou Karsanov na sua batalha desesperada com Skarnejkin, 
enquanto ele 
berrava contra a porta da cabina telefnica:
- Encontrmos o assassino! Encontrmo-lo!
O capito Plotkin saiu da cabina telefnica disparado como uma bala, de tal 
maneira que a porta 
bateu de encontro  cabea de Skarnejkin... foi uma pancada violenta e o 
industrial de sabes revirou os 
olhos e caiu no cho.
- Obrigado! - disse Karsanov com a voz a tremer de raiva. - Foi um mero 
acidente! No nos 
podem responsabilizar.
S ento Karsanov percebeu o que  que Vitali gritava, deu meia volta e chocou 
com Plotkin, que 
vinha a correr pelo corredor.
O capito de Irkutsk empurrava para o lado todos os passageiros que lhe 
obstruam o caminho 
e gritava:
- Abram caminho! Abram caminho! Polcia!
A reaco foi monstruosa, j que Fedja reconheceu no s a voz de Plotkin, como 
tambm o seu 
vulto, que, aos seus olhos esmurrados, parecia vir envolto em nevoeiro.
Caiu de joelhos, comeou a chorar em voz alta e a tremer como se estivesse nu, 
exposto ao frio 
da Sibria.

- Ele confessa! - vociferou Kusma, o cozinheiro, e voltou a agitar as calas no 
ar. - Camarada 
capito, como  que chegou to depressa? Ah, isto na milcia  que  
organizao! Mal achmos o 
assassino, e a milcia j est no seu posto!
- Pelo menos at Tchita Karsanov est ocupado - disse Mulanov cansado, quando 
aquela multido 
furiosa passou por ele com Fedja.
- Tchita est prxima. E depois como ? - perguntou Werner Forster. - Toda a 
longa viagem por 
Amur e Ussuri? Quem  que o detm?
- No temos dois assassinos no comboio - declarou Mulanov abalado. - Se se 
passasse tudo outra 
vez neste comboio do diabo! Acho que desde que o transiberiano faz este 
trajecto, nunca aconteceu tal 
coisa. Desculpem-me, tenho de continuar! O dever chama-me!
Werner Forster seguiu o revisor que corria  sua frente. Mas antes deitou mais 
um olhar ao seu 
compartimento.
Milda estava sentada  janela e olhava l para fora. O alvoroo  volta de Fedja 
fora certamente 
uma ptima oportunidade. Quando o assassino fosse entregue  milcia em Tchita, 
Karsanov tambm l 
estaria. A no pensaria em Milda...
Forster apercebeu-se de que era preciso achar um outro caminho para a liberdade.
Depois correu atrs de Mulanov.
O interrogatrio teve lugar no compartimento do revisor.
O capito Plotkin estava em frente ao sucumbido Fedja. Tinham atirado com o 
empregado de 
mesa para cima do banco.
Zangado, Karsanov mirou Forster: no lhe agradava nada que um estrangeiro 
participasse 
naquele espectculo.
Mulanov tinha trancado a porta. Do lado de fora ouvia-se a ondulao das vozes, 
que embatiam 
na parede da carruagem.
Plotkin no tinha nada contra o facto de o alemo estar dentro do compartimento, 
uma vez que 
ele havia sido um dos ltimos a falar com Kiaschka.
- Estas calas so suas, Fedja? - perguntou Plotkin e segurou no ar a prova 
ensanguentada.
Fedja choramingava e dobrava-se como uma minhoca pequena e ficou calado.
- Isto  a bolsa de dinheiro de Kiaschka Ivanovna? -        O capito segurou no ar a 
bolsa de 
cabedal com as notas dobradas e as moedas.
Fedja continuou a gemer e voltou a ficar calado.
- No estamos a fazer progressos! - observou Karsanov. - At agora a sua busca 
psicolgica do 
assassino foi uma brincadeira privada, Stepan Petrovitch. Se o cozinheiro no 
tivesse perdido dinheiro, 
nem tivesse rolado para debaixo da cama, voc ter-se-ia apeado em Vadivostoque 
e Fedja rir-se-ia de 
alegria.
- Tenho de contest-lo! - O capito Plotkin estava visivelmente ofendido. - 
Ainda temos trs dias 
e trs noites  nossa frente, Pal Viktorovitch! Entretanto, Fedja j se 
descontrolou, um carcter to mole 
como ele! De cada vez que passava pela porta fechada da casa de banho nmero 
cinco, devia dizer para 
si: "Kiaschka est l dentro!" Por que razo ainda l estaria? Por que 
continuaria ela a viagem? Como 
 que eles se ocupariam dela? E ento ele mergulharia num pnico ntimo que logo 
o levaria ao colapso 
total!
- O seu pnico interior complica-me, aos poucos, com os nervos! - Karsanov 
revelou uma 
brutalidade notvel.
Sobrepunha-se agora em Karsanov o coronel Jarsanov da KGB, apesar de ningum 
saber se este 
era, de facto, o seu verdadeiro nome.
- Eu j lhe mostro como  que se faz! - Agarrou Fedj a com brutalidade pelos 
cabelos e puxou-lhe 
a cabea destroada e inchada para cima. - Meu rapaz, agora  connosco. KGB!
S aquela palavra produziu em Fedj a o efeito de um raio.
Nisso no era diferente dos demais russos; j o tinham visto em Mulanov. Ter a 
ver com a KGB... 
 a mesma coisa que o prprio Satans passar com os dedos em brasa sobre a nossa 
cabea. Quando um 
russo ouve estas trs letras, lembra-se de todas as longas e esquecidas oraes 
e reza-as s escondidas.
Levante-se! - gritou Karsanov friamente.

Ergueu o empregado de mesa do banco pelos cabelos. Forster admirou-se com esta 
fora 
repentina do seu companheiro de compartimento, o mesmo que tinha um ar 
satisfeito e paternal...
Fedja estava agora de p. Vacilou ligeiramente e Mulanov
amparou-o pelas costas.
- Vista as calas! - ordenou Karsanov.
Um soluo percorreu Fedja.
- No! - balbuciou ele. - No, camaradas, no! Isso no!
Imploro-lhe...
De repente comeou a chorar. Grossas lgrimas brotavam dos seus olhos 
destroados e corriam 
pela cara ossuda.
- Dispam-no! - prosseguiu Karsanov impassvel.
Vitali Diogenovitch e Wladlen Ifanovitch seguraram Fedja e Mulanov despiu-lhe as 
calas do 
uniforme; e quando Fedja ficou ali em cuecas, desatou aos gritos de novo.
Isso no o ajudou em nada. Com autoridade e algumas pancadas na cara, Mulanov 
vestiu-lhe as 
calas ensanguentadas e abotoou-as.
- Servem! - exclamou Karsanov satisfeito. - As calas so dele. - Entre pernas e 
nos botes das 
calas espalhava-se agora uma mancha hmida. Pouco depois, comeou a pingar das 
pernas das calas 
para o cho.
- Ele est a mijar-se de medo! - notou Plotkin com desprezo na voz.
- Isso  bom! - Karsanov sentou-se no lugar perto da janela, no compartimento, e 
limpou o suor 
da testa. Isso elimina a alegria da confisso. O que tem voc a dizer, Fedja?
O empregado de mesa acenou com a cabea, a sua
choradeira terminou e afundou-se outra vez no banco defronte de si.
Quando tocou nas calas, encolheu-se e escondeu rapidamente as mos molhadas 
atrs das costas.
O capito Plotkin teve de admitir, contrariado, que o tratamento psicolgico de 
Karsanov era 
suspeito, mas mais eficaz do que o seu. " KGB", pensou ele. "Claro! So estes 
camaradas impassveis 
que compreendem os pontos fracos das pessoas... "
- Ento foi voc? - perguntou Karsanov, agora bastante amigvel. Fez sinal a 
Werner Forster, 
que estava l ao fundo perto da porta. - Por acaso no tem consigo os seus 
cigarros nojentos e adocicados, 
Werner Antonovitch?
-        Sempre!
Forster atirou o mao a Karsanov. Este tirou um cigarro, enfiou-o entre os 
lbios abertos de 
Fedja e acendeu-o.
O empregado de mesa deu algumas fumaas profundas e depois o cigarro caiu-lhe da 
boca.
Mulanov apanhou-o habilmente.
-        Ainda pega fogo ao comboio! - disse ele em voz alta. - Fedja, meu rapaz, 
j no faz sentido 
negares por mais tempo. Ests condenado. Como  que foste capaz de fazer uma 
coisa daquelas! No foi 
uma mosca que mataste, nem enxotaste...
- Eu no queria... - confessou Fedja numa voz quase imperceptvel. - Camaradas, 
eu no queria 
mesmo... Aconteceu muito facilmente. Tambm no sei como...
Plotkin endireitou-se orgulhoso. A sua teoria! Assassino contra a sua vontade! O 
criminoso que 
se horroriza com o seu feito...
Karsanov lanou ao capito um olhar irado.
- No se iluda, Stepan Petrovitch! Um assassnio  sempre um assassnio! - 
Inclinou-se sobre o 
empregado de mesa. - Como  que foi? Abre a boca ou levamos-te para junto de 
Kiaschka e sentamos-te 
em cima dela...
Fedja abriu os lbios. O seu corpo seco estremeceu outra vez. No compartimento 
superaquecido 
havia um cheiro insuportvel, repugnante e forte, a urina.
-        O cigarro... - balbuciou ele.
Mulanov voltou a meter-lho na boca.

O empregado de mesa puxou umas fumaas profundas e depois
cuspiu-o da sua boca.
Karsanov acenou a cabea, satisfeito. Atravessara a ombreira da porta... um 
homem conformava-
se com o seu destino.
No havia realmente muito que contar.
Naquela noite, no compartimento do revisor, depois de se contar o dinheiro de 
Kiaschka e de 
Fedja ter ajudado a pr as moedas em pequenos montinhos, este regressou ao 
vago-restaurante.
Ainda atendeu a um pedido tardio de um passageiro com sede. Percorreu o corredor 
com uma 
bandeja com gua mineral e uma caixa de bolachas e depois fechou o vago-
restaurante.
Kusma Matvejevitch, o cozinheiro, j estava deitado e ressonava formidavelmente, 
de tal maneira 
que Fedja no
conseguiu suportar. Mas tinha de partilhar o compartimento com Kusma e 
geralmente dormia pouco... 
s conseguia dormir bem quando estava em Vadivostoque nos seus dias de folga.
Fedja mudou ento de roupa e decidiu passar pelo compartimento de Mulanov para 
cavaquear 
um pouco com ele e os outros revisores. Talvez at encontrasse Kiaschka na sua 
ronda aos clientes - isso 
era para ele um acontecimento especial.
Ele assistiu, escondido, algumas vezes enquanto ela exercia a sua actividade, e 
essa espreitadela 
de uma situao ntima sempre o excitou muito. E tambm por isso desejava chegar 
a Vadivostoque...
A havia as vielas do porto, onde se podiam encontrar prostitutas mais 
baratas... a uma como 
Kiaschka no podia chegar um simples empregado de mesa como Fedja.
Contudo, espreitar no transiberiano era uma arte divertida e completamente de 
graa! Mesmo 
quando Kiaschka se apercebia, no ficava zangada. Era como observar um ferreiro 
a martelar o ferro 
sem que ele tambm se importasse com isso.
Mulanov e Vitali j estavam a dormir quando Fedja espreitou para dentro do 
compartimento dos 
revisores. Wladlen, ao que parece, estava no compartimento das bagagens e jogava 
s cartas com o 
revisor do correio, Lumeneff, e o revisor das bagagens, Amorfskij.
"Agora vou deitar-me", pensou Fedja. "Vou beber rpida e dissimuladamente trs 
vodcas: s 
assim  possvel suportar as ressonadelas de Kusma. Apenas duas ou trs horas de 
sono devem ser 
suficientes... "
Ento voltou para trs s apalpadelas e ainda esperou ouvir distintamente o 
trabalho de 
Kiaschka nalgum compartimento... Mas escutou em vo s portas fechadas e 
trancadas.
Pouco depois, viu a prpria Kiaschka  porta da casa de banho nmero cinco. 
Estava de mau 
humor e usava um vestido atravs do qual o seu seio enorme quase saa. Desceu o 
corredor e sorriu para 
Fedja com cara de poucos amigos.
- Uma noite que  uma porcaria, Fedja - disse ela. No h nada para fazer. 
Dormem todos que 
nem pedras! Se lhes dou um safano, resmungam: "Hoje no! Ainda sinto nos ossos 
O efeito de escavar 
a neve!", ou ento comeam a regatear como um cliente antigo! Ainda no ganhei 
nem um rublo at 
agora! Este Karsanov, com o seu comando das operaes na neve, castrou os meus 
clientes...
Encostaram-se  parede do corredor, fumaram um dos cigarros de Kiaschka e 
olharam para a 
taiga asfixiante e mergulhada em neve e gelo, que passava a correr.
- Tens alguma rapariga, Fedja? - perguntou Kiaschka de repente.
- De vez em quando... - respondeu ele. - Nenhuma firme.
-        E porque no?
-        Com o meu emprego? Sempre dentro dos comboios! Nenhuma rapariga quer 
esperar 
para sempre, nem deixar-se enganar, por isso eu arranjo uma, precisamente, de 
tempos a tempos!
Ele fez um sorriso aberto. O seu rosto ossudo nem por isso ficou mais bonito, 
mas adquiriu uma 
expresso de travessura arrapazada.

-        Se ao menos eu pudesse permitir-me... uma mulher como tu, Kiaschka...
Ficaram outra vez calados a olhar para a taiga e ambos pensavam na mesma coisa: 
uma noite 
aborrecida! Desconsolada como a paisagem...
Uma pessoa s podia deitar-se e dormir. J no havia mais clientes... nem para o 
vago-
restaurante, nem para uma prostituta.
-        Ento quanto  que ganhas, Fedja? - perguntou Kiaschka acidentalmente.
-        Cento e cinco rublos. Mas para o ano que vem, quando for promovido a chefe 
de mesa, 
o meu ordenado sobe para duzentos rublos.
-  uma boa maquia, cento e cinco... mas no  uma quantia certa - disse 
Kiaschka e virou-se para 
ele. O seu peito volumoso, sob o vestido fino, encostou-se ao rapaz.
- Deves investir os cinco rublos.
Fedja no era nenhum imbecil, mesmo quando Kusma o chamava assim s vezes. 
Compreendeu 
imediatamente, olhou para o peito de Kiaschka e engoliu algumas vezes, porque a 
sua garganta ficou seca, 
de repente, como um deserto.
-        Cinco rublos? - perguntou ele rouco. - Realmente s cinco rublos?
-Sim...
-        Porqu?
- No  porque te chamas Fedja! Uma noite sem ganhar nada  contra os meus 
princpios! E 
quando so s cinco rublos... O que falta, faz parte de uma ddiva para os menos 
privilegiados!  uma 
boa aco social! Por cinco rublos no h, certamente, fogo-de-artifcio, mas 
apenas um foguete.
Fedja acenou com a cabea em silncio. O corao batia-lhe de encontro s 
costelas, o sangue 
pulsava nas frontes e ardia em brasa na cabea e corriam-lhe arrepios frios pelo 
corpo todo.
Kiaschka! Fedja Alexejevitch Semlakov ia amar uma Kiaschka!
O pequeno e insignificante Fedja, de quem ainda no se sabia o nome completo at 
agora... Cinco 
rublos por esta mulher, em cujos seios outros homens mais ricos depositavam 
montes de moedas!
E ele, Fedja, um rapaz que apenas olhava s escondidas, podia agora...
- No estejas a a olhar especado que nem um boi!
- disse Kiaschka, e dirigiu-se  casa de banho nmero cinco, abriu a porta e fez 
um sinal.
De repente, assumiu um ar to ordinrio, to abjecto e nojento, to 
diabolicamente comercial que 
Fedja susteve a respirao.
Acenou com a cabea em silncio, mal sabendo como mexer as pernas, e olhou para 
Kiaschka com 
olhos de peixe....
O vestido apertado e fino, o peito volumoso, as coxas firmes, o baixo-ventre, 
que se comprimia 
contra o tecido do vestido, formando um tringulo, o desenho dos quadris... tudo 
isto o impelia como um 
punho directamente no estmago e provocava-lhe vmitos at  garganta.
"Eu posso ter Kiaschka... por cinco rublos... Fedja, seu felizardo, porque  que 
queres entregar-te 
precisamente agora?"
- No vais comer nada! - disse Kiaschka e empurrou Fedj a com um safano naquele 
recinto to 
apertado. Atirou com a porta e trancou-a. Ocupado! Ento levantou o vestido...
Fedj a no teve mais consciencia do que se passou dentro da casa de banho nmero 
cinco. No 
tinha qualquer ideia premeditada ao trazer uma navalha no bolso. S sabia o 
seguinte: no precisava de 
pagar os cinco rublos, porque j no iria usufruir da compensao de Kiaschka.
Quando despertou daquela espcie de transe, Kiaschka jazia aos seus ps com um 
golpe na 
garganta, o sangue jorrando ao ritmo da pulsao. O vestido estava levantado at 
ao peito e entre as 
pernas de Kiaschka estava pendurado um cinto de cabedal com uma bolsa, contendo 
dinheiro.

Era um espectculo to vergonhoso e indescritvel que ele rangeu os dentes, 
continuou a 
apunhalar sem cessar a prostituta, at  quinta facada, com um desespero 
selvagem sobre si mesmo, sobre 
o honesto empregado de mesa, Fedja, que foi capaz de matar com as suas prprias 
mos. Ele, o amvel 
e acanhado Fedja Alexejevitch Semlakov, to insignificante neste mundo que 
ningum sequer sabia o seu 
nome completo.

Captulo dcimo segundo

- Mais um cigarro... - pediu Fedja baixinho. - Por favor, mais um cigarro...
- Ser que posso? - perguntou Karsanov e levantou o mao.
Forster acedeu com a cabea. O relato de Fedja lembrou-lhe o destino de Milda, 
mesmo sendo 
completamente diferente.
-        Claro! - disse ele.
Deram o cigarro a Fedj a e enfiaram-no entre os lbios. Ele j no aguentava 
mais, as suas mos 
tremiam violentamente.
-        Ainda h aqui uns pontos obscuros por esclarecer
- disse Plotkin, aps ter deixado Fedja fumar meio cigarro. -
Esqueceu-se de qualquer coisa.
- No! - Fedja abanou a cabea. - De certeza que no!
-        Os sapatos! - Karsanov roubou facilmente o pensamento a Plotkin. - Voc 
usava os 
sapatos de Skarnejkin, o industrial de sabonetes, por altura do crime! Como no 
teve tempo de lavar 
completamente o sangue das solas dos sapatos, voltou a met-los debaixo da cama 
de Skarnejkin.
-  verdade - disse Fedj a simplesmente.
Aps o seu longo relato, sentiu invadir-lhe no corpo uma paz interior, como s 
tm as pessoas que 
esto totalmente resignadas.
Exteriormente, ele ainda tremia, mas por dentro j tinha alcanado um estado de 
perfeita 
indiferena - principalmente da prpria vida.
-        Com que ento roubou os sapatos do camarada Skarnejkin? - perguntou 
Karsanov em 
voz alta.
-        Efectivamente.
- E o brinco da viva do general, Olga Federovna Platkina?
-Tambm...
-        E porqu s um brinco?
-        Ela estava deitada sobre a outra orelha a dormir.
-        Parece evidente! - Karsanov levantou-se e fez um sinal a Plotkin. Tinha 
feito o seu 
trabalho; o que agora se seguia era rotina. O protocolo por escrito...
Em Tchita tratariam de Fedj a e finalmente tambm descarregariam Kiaschka e dar-
lhe-iam um 
enterro condigno. Por enquanto, ela era um autntico bloco de gelo.
- Um sonso, este Fedja Alexejevitch Semlakov! Vejam l que agora at tem nome! 
Com apelido 
e tudo! E o roubo no o incomoda, pois no?
Ento o empregado de mesa disse uma coisa que apanhou Karsanov de surpresa.
- No, camarada coronel. Com um salrio de cento e cinco rublos, uma pessoa  
obrigada a 
roubar. Um homem trabalha sem condies e como resultado disso, fica apenas uma 
pergunta: Porqu? 
Por que razo  a Unio Sovitica assim?
-        Um filsofo do povo! - disse Forster quando Karsanov se aproximou dele. - 
Agora at 
mesmo Fedja  um caso para a KGB!
- Aquilo foi msica para os seus ouvidos decadentes, no  verdade? - rosnou 
Karsanov. - 
Infelizmente no posso mostrar-lhe nenhuma estatstica, porque no as carrego 
comigo. Mas posso 
demonstrar-lhe que a Unio Sovitica est na cauda de todos os pases em 
criminalidade! E temos muito 
orgulho disso!
At Tchita, Karsanov esteve realmente ocupado, como previra Mulanov. Milda 
Tichonovna no 
lhe fugiu.
J no se preocupava com ela, pelo contrrio, estava sentado perto de Plotkin e 
jogava xadrez 
com ele de uma maneira perfeitamente indiferente.
Encarceraram Fedj a numa outra casa de banho, o nico lugar onde ele estava 
seguro e que se 
podia dispensar.
No entanto, os passageiros das respectivas carruagens tinham outra opinio. A 
casa de banho 
nmero cinco estava a ser reparada - e agora tambm estava encerrada a nmero 
dois.

Deu-se origem a congestionamentos, discusses e protestos.
Perto de Tchita, a situao estava to sria que cada carruagem defendia a sua 
casa de banho 
como uma fortaleza. At se colocaram sentinelas e quem viesse de outras 
carruagens era anunciado para 
que no tivesse de ser necessrio apresentar um relatrio.
Aconteceu at que um "estranho" da carruagem seis leu confortavelmente a Pravda 
e ocupou a 
casa de banho durante meia hora. Todos os defensores da porta batiam, mas de 
nada adiantou. Quando, 
finalmente, o camarada saiu, quase o lincharam.
- Desmoronou-se a ordem! - lastimou-se Mulanov  noite.
Entretanto, Forster j tinha voltado h muito tempo para o seu compartimento e 
contado tudo 
a Milda.
Ela veio a saber, desconcertada, da confisso de Fedja e depois disso chegou a 
altura em que 
puderam demoradamente sentar-se sozinhos e beijar-se. No tinham nada para dizer 
um ao outro, porque 
tudo o que havia para dizer estava escrito nos seus olhos, nos seus lbios e nas 
suas mos.
- Cinquenta e cinco anos de revoluo cultural esto condenados, quando se 
fecham duas casas 
de banho! - gemeu Mulanov, e deixou-se cair no banco em frente a Milda e 
Forster. - Comportam-se como 
criminosos! S vendo, Werner Antonovitch: os sentinelas das casas de banho 
seleccionam os recm-
chegados pelo grau de urgncia! E depois ficam  porta, de relgio na mo.  
proibido trancar a porta 
por dentro! Quem demorar mais de cinco minutos... fora com ele! J se 
construram escalas matemticas 
programadas! Temos de tudo no comboio! Quem se sentar mais tempo... - Mulanov 
passou a mo pela 
cara e calou-se por um momento. - Digo-lhe, Werner Antonovitch, que torturaram 
um professor que sofre 
de priso de ventre! O desgraado mendigou e implorou... Sem perdo! Cinco 
minutos, depois acabou-se! 
Onde est a nossa ordem revolucionria?
-        E Karsanov? Onde  que ele est? Isto  novamente um caso para ele!
-        Est a jogar xadrez com o capito Plotkin. - Mulanov acenou com a cabea. 
- D-se por 
muito feliz por ele no estar a pensar em si. J estamos a chegar a Tchita! O 
senhor no joga xadrez?
-No...
-        Um grande erro. Assim como  preciso uma pessoa vacinar-se contra a febre 
tifide, 
varola, febre-amarela ou contra a clera quando se viaja para outros pases, 
tambm  preciso aprender 
a jogar xadrez quando se visita a Unio Sovitica. Arranjava milhares de amigos, 
Werner Antonovitch! 
Karsanov  louco por xadrez, como j tive ocasio de observar ao v-lo jogar com 
Plotkin.
-        E voc, Boris Fedorovitch?
Mulanov fez um sorriso aberto:
-        J sabia jogar xadrez mesmo antes de saber escrever. Sou campeo distrital 
de 
Jaranskoje.
Um pensamento louco passou pela cabea de Forster. Mas nada pode ser 
suficientemente doido 
quando se quer salvar Milda.
Ele inclinou-se para a frente e pousou as mos nos joelhos de Mulanov.
-        Boris Fedorovitch, ensine-me a jogar xadrez...
Estarrecido, Mulanov olhou para Forster quando ele lhe fez aquela proposta 
insensata.
-        Aqui? Agora?
-        Sim, eu no sou burro. Quem sabe se no aprendo muito depressa...
-        Um jogador de xadrez vai aprendendo ao longo da sua vida.
-        Bastam-me as noes bsicas. No quero parecer um completo idiota quando 
desafiar 
Karsanov para um duelo.

-        Quer? O senhor? - Mulanov olhou para Milda horrorizado. - Ouviste, minha 
pombinha? 
Ele quer desafiar um dos jogadores mais experientes! E porque no o prprio 
Spasski, hen? Werner 
Antonovitch, pode ser to inteligente como uma academia inteira... mas no vai 
conseguir nunca, em 
algumas horas, aprender a arte do jogo do xadrez.
-        Tentemos, Mulanov. Conhece a histria do afogado que se agarra a uma 
palhinha. O 
xadrez  a minha palhinha.
Era realmente uma tortura.
Mulanov foi buscar o tabuleiro de xadrez ao seu compartimento, onde Plotkin e 
Karsanov 
meditavam sobre a partida, como verdadeiros campees do mundo. Estavam ambos 
encurralados, mas 
nenhum queria dizer: Fim! Acabou!
E por isso continuavam sentados em frente ao tabuleiro, olhando para as peas, 
fatigando o 
crebro  procura de um lance salvador.
-        Karsanov est encurralado! - anunciou Mulanov, alegre. - Vi o tabuleiro... 
no podem 
movimentar as peas! Bom, comecemos!
Explicou no que consistia o xadrez, como se chamavam as peas e como deviam 
movimentar-se, 
e como tudo ficava completamente absorvido por este jogo nobre, como lhe 
chamavam.
Depois iniciou-se a primeira partida e Mulanov arrancou os cabelos. Mostrou a 
Forster o que 
faria se estivesse no seu lugar e acabou a partida rapidamente aps dez lances 
com xeque-mate.
A segunda e terceira partidas no foram diferentes...  quarta, Milda inteveio e 
ps Mulanov a 
suar.
-        Uma mulher satnica! - gritou o revisor. - S uma mulher pode jogar assim 
de forma to 
pouco lgica!
-        Mas admitiu que Milda jogava bem.
- Joguei muitas vezes com o meu pai - disse ela, e encostou-se ao ombro de 
Forster. - Tnhamos 
autnticos torneios de xadrez em Kargopov, na cooperativa de Stolovaja. Uma vez 
o pai ganhou um 
porco! Um porco vivo! Sentei-me atrs dele e segredei-lhe algumas jogadas. 
Naquela altura eu tinha dez 
anos...
- Eu no disse? Um diabinho, esta Milda! Racha a cabea a um homem e joga xadrez 
como uma 
campe! Vamos, Werner Antonovitch, no faa m figura: mais uma partida! Mas 
sozinho...
Jogaram durante toda a noite. Ao que parece, Karsanov e Plotkin tambm, porque 
nem sequer 
os viram.
De manh cedo chegaram a Tchita e pouco antes da entrada na estao, Forster 
ganhou a sua 
primeira partida contra Mulanov. O ltimo e decisivo lance foi Milda quem lho 
segredou.
- No pode ser! - Mulanov rangeu os dentes.
Um principiante que me derrota! Werner Antonovitch, o senhor teve foi sorte! 
Quando passarmos Tchita, 
continuaremos a jogar!
Mulanov correu l para fora para desempenhar as suas tarefas.
O comboio andava agora mais devagar e passava por umas casas que pareciam sadas 
de um 
livro de contos de fadas. Depois surgiram os bairros novos... modernos, planos, 
incaractersticos e 
uniformes. Blocos de beto macio com janelas.
E l pelo meio, via-se sempre a velha Rssia: casas de madeira pintada com 
frisos esculpidos, 
telhados feitos de ripas de madeira e vedaes igualmente de madeira nos 
jardins.
Tchita, o entroncamento ferrovirio, no Sul da Sibria. A porta de todos os 
exilados para o tempo 
dos czares.
Tchita ficava  beira do rio Ingoda e resistira a uma vida secular graas a 
colonos que nunca mais 
partiram. Estavam condenados  maldio eterna, as "Almas Mortas".
Tchita: aqui estiveram mendigos e prncipes e olharam toda aquela vasta regio 
para onde 
tinham sido desterrados e  qual nunca se renderiam; aqui houve ministros e 
generais, camponeses e 
criados, dirigentes e artfices. Aqui, metade da Rssia tinha estado sujeita ao 
sol ou s tempestades de 
neve e havia rezado em voz alta ou baixa:
- Meu Deus do Cu, aqui as oraes j no podem valer-nos mais...
Tchita era uma cidade que se afundava enquanto se concentrava nas suas lgrimas 
perdidas.
Foi aqui que fizeram Fedj a desembarcar, aps a sada dos passageiros para os 
quais a viagem 
terminara e depois de terem embarcado os novos passageiros.

Plotkin despediu-se de Karsanov como se de um velho e querido amigo se tratasse. 
O xadrez unia 
precisamente no s os povos como tambm a milcia e a KGB!
O transporte de Fedja realizou-se sem sensacionalismo: dois milicianos levaram-
no e ele 
acompanhou-os com passos firmes. Comportava-se como se estivesse satisfeito por 
ter vencido tudo.
No entanto, para retirarem Kiaschka do transiberiano foram tomadas medidas de 
segurana. A 
carruagem foi isolada, uma viatura de carga percorreu a estao at  porta 
aberta do vago, um caixo 
foi iado e dois enfermeiros experientes da morgue do hospital de Tchita 
depuseram a morta congelada 
no caixo de madeira.
Mulanov assistiu a tudo para a saudar mais uma vez - uma palavra estpida, uma 
vez que ela j 
no vivia! - e vieram-lhes as lgrimas aos olhos. Ainda chorava quando a viatura 
de carga, transportando 
o seu triste fardo, abandonou a estao.
Ningum foi ver Kiaschka para alm de Mulanov. No seu pensamento, ecoavam as 
seguintes 
palavras: uma prostituta tambm  gente! Mas o que  facto  que um co , por 
vezes, mais chorado do 
que uma criatura como aquela!
A paragem involuntria durou meia hora, depois tudo passou.
O atraso do transiberiano aumentou - j no conseguiria recuperar no percurso 
seguinte por 
Amur.
Era muito estranho tudo aquilo que sucedia naquele comboio, como dizia Mulanov.
Werner Forster estava  janela e olhava para trs, para Tchita, a cidade-destino 
de inmeros 
exilados. Nisto, Karsanov entrou no compartimento. O comboio tinha deixado a 
estao e percorria agora 
os subrbios. Tambm aqui voltavam a ver-se casas de madeira do tempo dos czares 
e igualmente a 
lembrana da eterna Rssia...
- Eu sei em que  que voc est a pensar - disse Karsanov e sentou-se.
Forster voltou a cabea.
- Ah! Ainda est vivo, Pal Viktorovitch?
- Felizmente, como v! - Karsanov esticou comodamente as pernas. Estava cansado. 
Plotkin tinha-
se revelado um feroz adversrio de xadrez! - Sempre gostava de saber se voc leu 
muita coisa sobre 
Tchita! Muita coisa falsa, ultrapassada, empolada...
- Esteve aqui uma vez a princesa Trubetzkoi  procura do seu marido desterrado. 
Isto  mentira?
- No, est correcto! Esses czares! Uns canalhas, Werner Antonovitch! 
Desprezavam as pessoas! 
Hoje em dia, Tchita  uma prspera cidade comercial e aloja mais pessoas do que 
pode comportar.  um 
lugar onde, no futuro, vo afluir os novos pioneiros da Sibria... - De repente, 
olhou para Milda 
Tichonovna e piscou-lhe um olho. - A Sibria tambm precisa de mulheres! Muitas 
mulheres bonitas! Para 
uma nova raa siberiana! Teria muito prazer em conversar consigo sobre o 
assunto.
"Um demnio", pensou Forster, amargo. "Um autntico demnio! Um verdadeiro 
interrogatrio, 
uma destruio em pleno tom paternal."
- Proponho-lhe uma coisa, Pal Viktorovitch - disse Forster em voz alta. L fora, 
voltou a ver-se 
a floresta, a taiga luminosa impregnada de rochedos. - Um jogo de xadrez...
- Voc? - Karsanov riu-se, jovial. - Voc no sabe...
-        Lembrei-me, sei sim!
- Eu veno-o em trs lances, Werner Antonovitch. Mas faa favor... - Karsanov 
tirou a sua mala 
da bagageira e desembrulhou um jogo de xadrez. - No fundo, vai ser tempo 
perdido, mas vamos colocar 
primeiro as peas. O que  que aposta? - Karsanov esfregou as mos.
-        Dez rublos! De acordo?
- No! - Werner Forster olhou para o lado onde Milda estava sentada a olhar para 
ele pasmada. 
- Contra os seus dez rublos, eu proponho a liberdade de Milda Tichonovna...

Karsanov ficou demasiado perplexo para poder responder imediatamente. Examinou 
Forster com as sobrancelhas franzidas e depois olhou para Milda, cujo rosto 
plido estava dominado por 
uns olhos arregalados de medo.
Karsanov colocou as mos perto do tabuleiro de xadrez.
- Voc sabe que isso  uma loucura, Werner Antonovitch? - perguntou ele com voz 
malvola. - Se 
aceitar a sua proposta, falto pela primeira vez aos meus deveres como oficial e 
servidor do Estado. Em 
segundo lugar, tem de admitir que h qualquer coisa em Milda Tichonovna que no 
bate certo, 
exactamente como eu suspeitava! Em terceiro lugar, voc, como estrangeiro e 
convidado neste pas, est 
a impedir que uma cidad sovitica receba um castigo justo e torna-se culpado 
pela libertao de um 
preso. No preciso de dizer-lhe o que tudo isto significa, inteligente como voc 
. Em quarto lugar, -me 
repugnante, perdoe-se-me o sentimentalismo, entregar de bandeja um homem que eu, 
apesar de todos os 
antagonismos demonstrados, aprendi a respeitar!
- Posso continuar, Pal Viktorovitch? - perguntou Forster estranhamente sereno. - 
Em quinto 
lugar, eu amo Milda Tichonovna sem sequer perguntar quem ela  e de onde vem, 
ou...
- ... e em sexto lugar - interrompeu-o Karsanov -, claro que j h muito tempo 
que voc sabe quem 
ela  e tem-me mentido descaradamente! Mas isso  o privilgio dos apaixonados. 
Em stimo lugar, voc 
no tem qualquer hiptese... eu veno-o de olhos fechados. Vai ser to fcil 
como isso!
-        Ento comecemos, Pal Viktorovitch!
- ptimo! - Karsanov inclinou-se sobre o tabuleiro de xadrez. - S mais uma 
observao: se voc 
perder, j no pode voltar atrs! A prxima estao importante  Mogatcha. L 
tambm h milcia.
-        Onde  que no h? - perguntou Forster.
-        Porventura no seu pas? - Agora Karsanov voltou a ser agressivo. - No 
esteja sempre 
a provocar-me, Werner Antonovitch! Mogatcha vai ser a ltima estao para a sua 
querida Milda... - 
Olhou para a jovem e ela correspondeu ao seu olhar como um animal feroz, 
perseguido e encurralado. 
- Vai tomar parte neste disparate?
-Sim... - respondeu ela. - Tenho confiana em Werner Antonovitch!
- Confiana! Ele tem  de saber jogar xadrez! - Karsanov passou as mos pelos 
cabelos. - Quantas 
partidas vamos jogar?
- Dez! Milda  merecedora de dez partidas?
- Por mim! - Karsanov acenou com a cabea, indulgente. - Milda Tichonovna, faa 
o favor de ir 
ao vago-restaurante e mande trazer o pequeno-almoo para todos aqui no 
compartimento. Tudo estar 
decidido at  hora do almoo. Quem  que comea?
Deitaram  sorte com as cores.
- Comece voc, Pal Viktorovitch...
Milda levantou-se e hesitou. Se ela fosse j ao vago-restaurante tratar do 
assunto com Kusma, Werner 
Antonovitch j teria perdido a primeira partida quando ela estivesse de volta. 
Isso era certo e sabido. 
Ficou de p junto a Forster, ps-lhe a mo direita no pescoo e acariciou-o.
Ele compreendeu o seu gesto e sorriu-lhe animador.
Karsanov reparou:
- Que comovente - disse. - Mas tem de separar-se dele por alguns minutos, Milda. 
Mais tarde 
sero alguns anos! Algum tem de ir buscar o pequeno-almoo, seno ficamos a 
jogar aqui cheios de fome 
e cansao e s faremos disparates. Tem de ser voc! Portanto, voe, minha 
avezinha, e diga ao rapaz no 
vago-restaurante que tem de
apressar-se...
Milda abandonou o compartimento e correu para o
vago-restaurante. Pelo caminho, encontrou Mulanov, que estava a fazer o 
controlo dos passageiros que 
tinham subido em Tchita.
-        Ele leva aquilo a srio! - balbuciou Milda. - Est a jogar com Karsanov 
por minha causa! 
Boris Fedorovitch, ele  o homem mais corajoso que eu conheo... mas tambm o 
mais idiota! O que  que 
ele pode conseguir contra Karsanov?

Mulanov apressou-se a terminar o controlo dos bilhetes para poder assistir a 
esta batalha.
Werner Forster resistia com coragem.
Quando Milda voltou a entrar no compartimento, sem flego devido  correria, 
Karsanov estava 
sentado em frente do tabuleiro com uma cara sinistra e meditava.
O alemo, na sua maneira ingnua, criou uma situao parecida com as que 
exercitou com 
Mulanov, que comprometeu Karsanov. Ele via o que Forster no conseguia ver, 
porque ainda no 
dominava o jogo de forma to perfeita. Via que conseguiria fazer xeque-mate em 
dois lances, se Forster 
deixasse escapar a ocasio.
-        Amo-te - disse Milda baixinho e voltou a sentar-se ao p de Forster.
Enlaou-lhe a cintura com o brao e isso no era s um gesto de carinho, 
servindo tambm para 
poder comunicar com ele por sinais.
Tinham ensaiado uma linguagem gestual. Beliscar uma vez significava: movimentar 
o peo! Duas 
vezes: movimentar a torre! Trs vezes: tens de tomar o cavalo! Acariciar uma 
vez: avanar com o bispo! 
Duas vezes: desta vez com o rei! Trs vezes: vigiar a rainha!
Karsanov olhou ligeiramente para cima. Este par amoroso incomodava-o bastante, 
distraa-o 
demasiado.
- Desencoste-se de Werner Antonovitch! - disse ele a Milda grosseiramente.
- Isso no consta das regras do jogo, Pal Viktorovitch! - replicou Forster.
- Claro que no, mas irrita-me!
- A concentrao  tudo, Karsanov. - O alemo sorriu ironicamente. -  uma 
expresso sua!
Milda meteu a mo debaixo da camisa de Forster. Agora os seus dedos estavam em 
contacto com 
a pele dele e os sinais no podiam ser mais claros.
Mas quando ela tocou o seu corpo e sentiu, pela primeira vez, a pele nua, 
percorreu-a uma 
sensao de poder magnfica e uma saudade indescritvel. "Eu posso senti-lo", 
pensou ela. "Apropriei-me 
de uma parte do seu corpo. Sinto o calor do seu sangue. Que bom que .  
indescritivelmente bom... "
Karsanov encontrou finalmente o seu lance. Fez pular o cavalo e disse 
satisfeito:
-        Ento! No estava  espera disto, pois no? Milda fez um sinal: Acariciar 
uma vez - agora 
o bispo. Forster lanou um olhar rpido ao jogo, procurou o bispo em questo e 
empurrou-o para a 
frente.
Karsanov ofegou pelo nariz:
-        Indecente! - disse. - Um lance indecente, Werner Antonovitch! Que voc no 
sabe jogar, 
vejo eu... mas tem um instinto de hiena! Agora, silncio!
Tambm ningum tinha dito nada.
Karsanov mergulhou na disposio das peas e procurou uma falha na concentrao 
de Forster.
Mulanov apareceu passados uns minutos, abriu a porta devagarinho, lanou um 
olhar ao jogo, 
piscou um olho a Milda e voltou a sair, do mesmo modo silencioso, do 
compartimento.
Para encurtar... a partida durou mais de uma hora.
Milda beliscava e acariciava e Forster obedecia a todos os seus sinais.
S porque ele confundiu uma vez um cavalo, a partida pertenceu finalmente a 
Karsanov.
Depois de um sonoro "xeque-mate", recostou-se e pegou no ch que Milda tinha 
encomendado 
para todos.
Karsanov no reparara que tinham trazido o pequeno-almoo.

- Uma coisa  agora muito clara para mim, Werner Antonovitch - disse ele, depois 
de ter bebido 
e comido um pedao de po com chourio de fgado. Milda tambm encomendara o 
leite de que ele tanto 
gostava. - Voc fez bluff! Voc no  principiante! Uma sorte e um instinto 
desses no tem qualquer um! 
Confesse: Voc  um jogador de xadrez muito matreiro!
-        Estou hoje a jogar consigo a minha verdadeira primeira partida de xadrez - 
disse Forster 
lealmente. - S sei as regras bsicas.
-        Ento voc  um gnio desconhecido do xadrez! E mais ainda! Mais forte do 
que qualquer 
um de ns. O assunto agrada-me! Ainda nos faltam nove partidas!
-        Como quiser, Pal Viktorovitch! Voc  a liberdade de Milda!

Desde que o comboio passara por Tchita que no acontecia nada de emocionante, 
at acontecer 
aquele duelo silencioso, do qual s algumas pessoas tinham conhecimento.
O transiberiano passou por Mogatcha, depois por Skovorodino e mais tarde, j  
noite, por 
Svobodnyi.  direita via-se o incio da vasta plancie  beira do rio Amur.
A China estava muito prxima. O comboio percorria o trajecto ao longo da 
fronteira mais 
instvel da Unio Sovitica. A regio que agora atravessavam era reivindicada 
pela China como sua.
Tanto quanto se sabe, um negociante russo comprara h sculos aquela regio ao 
imperador da 
China e depois intrujara-o descaradamente com o negcio.
O grande problema do futuro da Unio Sovitica j no era com o Ocidente... 
estava cravado nas 
suas costas como uma lana um pouco romba.
Karsanov e Forster jogavam, entretanto, a stima partida. Estavam empatados... 
trs para 
Forster e trs para Pal Viktorovitch. O general tinha vindo do compartimento 
vizinho dar uma olhada 
e sentara-se perto de Karsanov. Ele prprio era um jogador de xadrez - que russo 
no o seria?
Mulanov e, de vez em quando, tambm Vitali e Wladlen, o outro revisor, passaram 
para o lado 
de Forster perfeitamente cientes dos riscos que corriam.
O general perturbava extraordinariamente.
Karsanov rangeu os dentes, mas o que  que um coronel podia dizer a um general, 
sobretudo se 
este estava fardado? Ao contrrio dos revisores, ele emitia sentenas sbias e 
com isso levava Karsanov 
ao desespero.
- Tivemos um coronel no estado-maior - contava, por exemplo, o general - que 
ficava de cabea 
para baixo, encostado  parede, antes de se apresentar diante de um tabuleiro de 
xadrez. Era um 
exerccio da arte do ioga. "Sangue no crebro  meia inteligncia", afirmava ele 
sempre. Apesar disso, 
perdia com regularidade! Ah, ah!
Karsanov precisou de todas as suas foras para no explodir.
-        Basta! - disse ele aps a stima partida.
-        Agora vamos jantar e dormir! Para dizer a verdade, camaradas, sabem h 
quanto tempo 
estamos nisto? Parece-se mesmo com uma mobilizao! Amanh cedo continuamos, 
est de acordo, 
Werner Antonovitch?
-        Posso confiar na sua palavra, Pal Viktorovitch? - Karsanov olhou para 
Forster com os 
olhos avermelhados pelo cansao e bastante ofendido.
- Eu sou um homem de bem! Claro que pode confiar! Voc no vai resistir at 
Vadivostoque! 
Ainda faltam trs partidinhas, Werner Antonovitch... aposto em como vamos fazer 
desembarcar Milda 
Tichonovna j em Chabarovsk!
Levantou-se, espreguiou-se, fazendo estalar as articulaes, e inclinou-se 
diante de Forster.
-        D-me licena que o convide para jantar? - perguntou ele.
-        E Milda?
-        Isso  um assunto seu! Eu no convido uma pessoa que no conheo e que 
dentro de pouco 
tempo ser presa!
Apesar de tudo, o jantar foi bom.

Serviram esturjo fumado, mas antes disso uma sopa de marisco. Como prato de 
carne, havia 
peito de galinha assado e  sobremesa uma salada de fruta com gelado e natas.
O general, que se sentou  mesa com eles, contou histrias sobre a batalha de 
tanques em Gomel, 
na qual ele tinha tomado parte como jovem primeiro-tenente. Karsanov teve um 
pensamento indecente: 
"Que pena que os tanques tenham passado pelo general e no por cima dele..."
 noite todos dormiam como se estivessem anestesiados.
S Milda estava, desta vez, acordada. Beijou Forster, adormecido, no rosto, 
segredou-lhe 
palavras ternas, apertou-se contra ele e acariciou, com ambas as mos, o seu 
tronco nu.
Estava muito calor no compartimento.
Karsanov ressonava como um hipoptamo e mexia as pernas de um lado para o outro. 
Pelos 
vistos, devia estar a sonhar com uma partida de xadrez, a qual no lhe corria 
bem, como com o capito 
Plotkin.
Quando chegaram a Chabarovsk j o Sol brilhava, luminoso.
Muito perto, o rio Ussuri desaguava no Amur. Chabarovsk tornou-se uma cidade 
enorme, com 
uma universidade, clnicas famosas e com a administrao de regies mineiras de 
carvo, de uma extenso 
enorme.
Todas as riquezas que a Sibria ocultava no seu seio podiam ser aqui vistas numa 
pequena 
fraco.
Mesmo que nunca fosse rendvel explorar a Sibria, no havia pas mais rico do 
que a Unio 
Sovitica. E nenhum outro to invencvel!
A eterna Rssia - no era nenhum sonho. A verdade via-se aqui em Chabarovsk, na 
regio mais 
meridional da Sibria.
Karsanov e Forster jogavam a oitava partida. Encarniados, quase fanticos. Cada 
um deles 
lutava contra o tempo... um deles fugia, o outro ia ao seu encontro.
-        Parabns! - disse Karsanov, quando entraram na gare da enorme estao de 
Chabarovsk 
e a oitava partida ainda no estava decidida.
-        Conseguiu, Werner Antonovitch. A prxima estao  Bikin. A j lhe terei 
ganho. Ainda 
faltam duas partidas! Agora estou  frente! Mas esta oitava partida tambm vou 
ganh-la. E ento voc 
ter de ganhar as duas ltimas! E depois? O que significa o empate no nosso 
caso?
- A liberdade para Milda!
- Como assim? Um empate no  uma vitria! Restabelece-se uma situao normal! 
Levo Milda 
comigo, como  minha obrigao de funcionrio do Estado!
- Voc no vai ganhar - disse Forster rouco. - Quando  que chegamos a 
Vadivostoque?
- Ao fim da tarde! J no pode ganhar, Werner Antonovitch. Esta oitava partida 
no lhe corre 
bem...
Fosse que pessoa fosse, Karsanov era, de facto, um jogador de xadrez magistral!
Em segredo, aquilo j se estava a tornar num duelo entre ele e Milda, que 
impelia e dirigia o seu 
jogador ou com carcias ou com belisces.
Havia lances em que chegavam a meditar durante um quarto de hora.
Karsanov levantava-se, entretanto, e bebia o seu leite ou ia apanhar ar ao 
corredor, menos 
aquecido.
Ento, geralmente, entravam no compartimento Mulanov ou um dos outros revisores 
e davam 
conselhos, ou ento o general encolhia-se no lugar de Karsanov, apertava o 
queixo e resmungava:
-        Se fosse eu, tomava a torre! S a torre! Um ataque hbil! Mas Pal 
Viktorovitch, 
infelizmente,  um civil! No  possvel convenc-lo!
Naturalmente um ataque a Karsanov seria mortal, toda a gente via isso. No 
prximo lance, 
perder-se-ia a torre e em seguida seria
xeque-mate.
Chabarovsk deslizava por eles,  medida que se afastava. Julgavam ver brilhar o 
Sol prateado 
 distncia, sobre a cor azulada do Amur e do Ussuri.

Cumes de montanhas cintilavam  luz, l longe, sob a linha do horizonte. Era um 
magnfico e 
claro dia de Inverno, apesar de glacial, e com o cu abobadado, sem nuvens e de 
um azul imaculado.
A oitava partida foi ganha por Forster.
Ele recostou-se, aliviado, e at Milda fechou os olhos por um momento.
Mulanov suspirou baixinho.
Karsanov olhava estarrecido para o tabuleiro. Parecia no estar a entender o que 
lhe tinha 
acontecido.
- Voc  um demnio, Werner Antonovitch! - disse ele por fim. - Continua tudo em 
aberto! Cada 
um de ns v-se forado a ganhar as duas ltimas partidas!
- S eu, Pal Viktorovitch. A indeciso significa, para mim, a perda de Milda! S 
mais uma 
pergunta: o que  que acontece se ainda no tivermos acabado a ltima partida  
chegada a 
Vadivostoque?
- Nesse caso, levamos o tabuleiro para a sala de espera e continuamos a jogar! 
Mantenho a minha 
palavra at ao fim, meu caro.  a minha obrigao de russo honrado!
-De acordo!
Descansaram um pouco, deram uma volta pelo comboio, beberam um conhaque no 
vago-
restaurante - at mesmo Karsanov bebeu um, mas, na verdade, misturado com 
bastante gua com gs. 
Depois disso, retomaram os seus lugares.
A nona partida.
Era, na verdade, uma batalha.

Captulo dcimo terceiro

A pouca distncia de man, uma pequena estao, o renhido duelo ficou decidido.
Forster perdeu a nona partida.
Karsanov realizou um verdadeiro golpe de mestre.
E a dcima e ltima partida era manifestamente m para ambos. Os nervos de Milda 
fraquejavam. Ela no resistia quele esforo e Forster sentava-se muitas vezes 
desamparado perante as 
peas e mal podia reparar nos belisces ou nas carcias de Milda.
Karsanov era, aparentemente, uma pessoa totalmente desprovida de nervos e 
encontrava-se na 
mais perfeita forma. Na realidade, no precisava de continuar a jogar - tudo 
estava muito claro!
S o continuava a fazer porque um verdadeiro jogador de xadrez nunca deixava uma 
partida em 
aberto... seriam precisas razes muito fortes para o obrigarem a isso.
Mulanov precipitou-se l para dentro como se o tivessem espetado com uma agulha 
afiada.
-        Eu j tinha pressentido! - disse ele a Forster com uma voz hesitante, 
quando se 
encontraram no corredor.
- Foi uma loucura! Loucura! Karsanov  um jogador com um crebro de computador! 
Ele adivinha os 
lances do adversrio antecipadamente, mediante as suas probabilidades! E agora, 
Werner Antonovitch? 
E agora? Ele vai desembarcar Milda j em man! S c entre ns, ele j me mandou 
comunicar com a 
milcia em man. Tal  a
certeza que tem! O senhor tem de fazer alguma coisa e depressa. O qu, isso j 
no sei...
Forster regressou ao compartimento.
Karsanov estava sentado, encostado para trs, e tinha os olhos fechados. No 
estava a dormir; 
pelo contrrio, encontrava-se num estado de beatitude interior.
Ouvia tudo o que se passava  sua volta, mas sentia-se demasiado preguioso para 
abrir os olhos. 
Era a primeira vez que ele mostrava claramente como o duelo frente ao tabuleiro 
do xadrez o tinha 
enfraquecido.
-        Quando quiser continuar, diga-me - pediu ele sempre com os olhos fechados. 
- Mais 
quatro lances e fica livre de mim. E eu de si!
-        Confesso que a situao  crtica. - Forster tirou da bagageira o frasco 
de bebida que 
trazia consigo. Olhou para Milda com uns olhos enormes. - Mas voc j conhece 
aquele ditado idiota: 
"Queimar os ltimos cartuchos!" Tenho uma certa tendncia para o heroismo, que  
sempre considerado 
um crime. Hoje compreendo isso melhor! Quando uma pessoa gosta de arnscar...
Karsanov fez um sorriso fraco. O sol batia-lhe na cara. Que dia!
-        Despea-se de Milda, Werner Antonovitch - disse ele com uma amizade 
satnica. - 
Estamos quase a chegar a man...
-        Eu ainda aqui estou, Pal Viktorovitch!
Karsanov continuava com os olhos fechados.
Werner Forster abriu a mala de viagem e tirou uma caixa de couro, contendo 
material de 
primeiros socorros. J a tinha utilizado uma vez para ajudar Karsanov, quando 
ele feriu o pescoo depois 
de lhe ter cado uma mala em cima... e com ela iria agora salvar Milda!
Era uma atitude cobarde, mas no tinha outra alternativa. Forster segurou no 
pequeno frasco 
castanho de ter, puxou por um grosso chumao de algodo do mao e tirou uma 
seringa da embalagem 
hermtica de plstico. Devagarinho, partiu uma ampola de morfina e enfiou o 
lquido na seringa.
Milda deu-lhe um beijo sonoro. O ruido devia distrair Karsanov. Ela segredou-lhe 
palavras 
ternas, raspou com os ps no cho e observou tambm Karsanov, que sorria com os 
olhos fechados.
O corpo de Milda flutuava... "Mais alguns segundos e deixamo-lo descansar", 
pensou ela. "Meu 
Deus, s mais alguns segundos! Quando ele agora abrir os olhos, s haver a 
rendio ou a morte... "

Ela raspou de novo com os ps no cho e fez um rudo com os lbios... Forster 
abriu o frasco do 
ter e segurou o mao de algodo  sua frente. A seringa estava preparada.
- Ento, j est pronto? - perguntou Karsanov indolente. - Gostaria bastante de 
terminar a 
partida...
- Estou pronto, pal viktorovitch! - Forster deu um salto para a frente. Derrubou 
o tabuleiro de 
xadrez, as peas rolaram para todos os lados mas isso agora era a coisa mais 
insignificante do mundo.
Forster comprimiu, com a mo direita, o algodo embebido em ter de encontro  
boca e nariz 
de Karsanov e com a mo esquerda segurou-lhe a cabea, que ele tentava mexer.
Houve uma curta e desesperada luta a dois - homem contra homem.
Karsanov debateu-se, susteve a respirao e inalou naturalmente logo o ter 
adocicado e repugnante e 
tornou-se claro que perderia aquela partida. Aps algumas convulses violentas, 
as suas foras 
diminuram, o corpo relaxou, o ter produziu o seu efeito.
- A seringa! - disse Forster calmamente. Milda entregou-lha. A sua mo tremia 
tanto que a 
seringa quase lhe escorregou dos dedos.
A injeco foi uma coisa de nada. Forster aplicou ao russo uma dose que o 
deixaria a dormir 
durante horas, e em seguida passar-se-ia ainda um perodo precioso at recuperar 
a lucidez; tempo que 
lhes tinha sido concedido.
- J est efectuada a operao - disse Forster, enquanto punha as pernas de 
Karsanov para cima 
do banco. - Ests livre, Milda! Livre! J no tens ningum de quem fugir. Daqui 
a trs dias deixamos a 
Unio Sovitica e estaremos a caminho do Japo!
- Daqui a trs dias... - Ela encostou-se  janela, olhou ento para Karsanov e 
no podia acreditar.
-        Ele no est...?
-        No, est s a dormir. Se tivermos sorte, vai dormir por muito tempo...
O mesmo perguntou Mulanov, assim que entrou no compartimento por um momento, 
para ver 
como estava a partida. Ainda no tinha comunicado com man.
Recuou espantado at  porta por causa do cheiro adocicado. Em seguida, entrou 
rapidamente 
e abriu com a sua famosa chave de quatro entradas uma fresta indirecta sobre a 
janela. Tentara primeiro 
pux-la para baixo, mas no havia conseguido. Estava totalmente coberta de gelo.
Mulanov limpou o suor do rosto com a manga do casaco.
- ptimo - disse ele. - Que ideia! Essa do ter foi ptima! Mas vai fazer efeito 
durante quanto 
tempo?
-        Quase de certeza at amanh de manh...
-        Tanto ter? O seu corao no vai aguentar.
-        Apliquei-lhe uma forte injeco de morfina. Esperemos que Karsanov seja 
to saudvel 
como parece. Boris Fedorovitch, temos de desembarc-lo em man. A partir da, 
ele ter mais dificuldade 
em ir atrs de ns. No deve seguir, de maneira nenhuma, connosco at 
Vadivostoque!
- E o senhor? Viaja sempre com morfina? - perguntou Mulanov, inclinando-se sobre 
Karsanov. 
A respirao dele era regular, dormia profundamente, parecia ter realmente um 
corao forte.
-        Quando estou no estrangeiro, trago sempre uma pequena farmcia comigo. 
Para alguma 
eventualidade... como esta! - Forster fez um sorriso amargo. - Estudei medicina 
durante trs semestres, 
no tenha medo, Mulanov. Fiz o meu trabalho e tive uma ideia... agora  consigo!

Mulanov esperou at que o cheiro adocicado desaparecesse, foi a trote para o 
corredor e em 
seguida foi dar notcia no compartimento vizinho.
- Uma lstima! - gritou ele para o general. - Os nervos de Pal Viktorovitch no 
resistiram: sofreu 
um colapso. Est ali desmaiado. Infelizmente, vamos ter de deix-lo em man...

O general voltou a vestir o casaco do seu uniforme e dirigiu-se para o 
compartimento do lado.
-         uma vergonha! - disse ele constrangido. - Sucumbir perante um tabuleiro 
de xadrez! 
Ficou de boca aberta e at cheira mal! - Aspirou lentamente. - E como estava a 
partida?
-        Eu tinha um bom lance e nisto Pal Viktorovitch tombou de repente e 
arrastou o tabuleiro 
consigo. Caiu como se tivesse sido atingido por um raio... - disse Forster.
Pelo corredor, vinham a correr Vitali e Wladlen para ver Karsanov e piscaram um 
olho, 
furtivamente, a Forster e a Milda, como conspiradores.
Ento decidiram entregar Karsanov em man, aos servios de sade locais. 
Embrulharam-no num 
cobertor para que no se constipasse.
O tempo era escasso. Perto da via frrea, surgiam casas e bairros econmicos que 
se anunciavam 
j perto.
-        E se ele acordar antes de tempo? - perguntou Mulanov baixinho, enquanto 
enrolava 
Karsanov num simples cobertor e depois ainda lhe vestia o casaco de peles por 
cima.
-        Nesse caso, perdi.
-        Isso custar-lhe-ia vinte e cinco anos de trabalhos forados!
- Eu sei. - Forster atraiu Milda Tichonovna a si. - Ela merece o risco, Boris 
Fedorovitch.
Em man, o transiberiano parou apenas o tempo necessrio para retirar Karsanov 
do comboio. 
Quatro homens dos servios de sade, que tinham sido previamente informados, 
carregaram o enorme 
fardo e meteram-no numa ambulncia.
Mulanov conversou com o condutor da ambulncia e explicou-lhe a gravidade do 
colapso nervoso 
que fizera sucumbir o camarada coronel. Como informao complementar para o 
mdico: deviam deixar 
Karsanov dormir descansado, o corao estava bem. S precisava de descanso...
Enquanto a ambulncia se afastava, o general estava  janela do seu 
compartimento e saudava, 
em posio de sentido. Mesmo sendo um homem derrotado, este Karsanov.... Pelo 
menos tinha sucumbido 
a lutar...
-        Agora comea a grande agitao - disse Forster.
O comboio arrancou, o edifcio da estao de man desapareceu, a floresta 
voltava a ficar mais 
prxima.
Do outro lado do comboio podia ver-se o rio Ussuri, que passava perto. Era um 
cordo de gelo 
que se infiltrava e cintilava na terra.
-        Quanto tempo falta para chegarmos a Vadivostoque, Mulanov?
-        Umas escassas quatro horas...
- Quando l em man perceberem que ele s est adormecido pelo efeito da 
morfina, do-lhe um 
antdoto que o acorda num instante!
-        E isso v-se logo? - perguntou Mulanov pensativo.
-        Um bom mdico percebe imediatamente...
-        Temos ptimos mdicos na Unio Sovitica.
- Aguardemos. - Forster deu a mo a Mulanov. - Se estiver uma legio de 
milicianos na estao 
de Vadivostoque, ficamos logo a saber. S posso agradecer-lhe, Bons 
Fedorovitch. Agradecer-lhe de todo 
o corao!
Ento Mulanov disse uma coisa que deixou Forster espantado:
-        Fi-lo por causa de Kiaschka, Werner Antonovitch. Devia-lhe isso. No foi 
por sua causa, 
embora eu tambm goste de si. E Milda Tichonovna? Um destino medonho, como se 
sabe. Ela ficou 
despedaada e mal comeou a viver. Por Milda eu tambm fiz um pouco, claro! Mas 
o que  que se pode 
fazer quando se est dependente do destino de cada um? Uma pessoa j no se 
ocupa dos seus prprios 
problemas! No, assim no pode ser. Mas aqui neste compartimento, Kiaschka 
disse-me: "Bons 
Fedorovich, ocupa-te de Mildaschka quando o nojento Karsanov conseguir afastar-
me do comboio, antes 
de chegarmos a Vladivostoque." Ela saiu do comboio e eu tenho uma promessa a 
cumprir...  tudo!
- Mesmo assim, agradeo-lhe, Mulanov.
-        O senhor ainda quer casar com Milda?

-        Claro! Se no, para qu toda esta encenao?
-        Ento ela deve partir consigo quando chegarmos a Vladivostoque. - Mulanov 
coou o 
nariz. Perto deles o Ussuri corria cintilante.
Sobre o gelo do rio congelado estavam em grupo grandes blocos de ao grossos, 
escuros e 
macios. Tanques!
Em frente ficava a China... tambm aqui aguardavam com canhes prontos a 
disparar e havia 
igualmente batalhes a postos.
"No deve haver muitos lugares neste mundo", pensou Forster, "onde as pessoas 
no sejam 
massacradas..."
-        Como  que quer chegar ao Japo com Milda se ela no tem visto de sada?
- De navio.
-        Em todos os navios h controlo!  completamente intil, Werner 
Antonovitch, pensar que 
pode obter um passaporte falso! Nem pense nisso! Se algum lhe oferecer esse 
tipo de documentos no 
porto, d-lhes um pontap no traseiro! A maioria deixa-se enganar e os 
comerciantes  que fazem negcio! 
Alm disso, Karsanov j estar bem acordado e j h muito tempo que ter dado o 
alarme em 
Vadivostoque. Ele conhece o seu trajecto! Vai mandar isolar todos os navios 
estrangeiros como se 
houvesse peste a bordo! Werner Antonovitch, quer passar por isso com Milda?
-        Essa ser a deciso que ocorrer no momento, Boris Fedorovich.
-        No vai poder derrubar, de maneira nenhuma, toda a milcia de 
Vladivostoque com ter!
- Claro que no. - Forster riu-se aflito. - No posso ir ficar no Hotel 
Inturist, onde reservei um 
quarto. No posso, de modo nenhum, ficar num hotel, porque eles sero todos 
inspeccionados primeiro.
-        Repare que isto  s o comeo.
Mulanov olhou pela janela. O Ussuri ficava para trs e aproximavam-se do grande 
lago Chanka, 
uma imensa pista de gelo com uma central elctrica.
-        Quer percorrer a cidade inteira, bater em todas as portas e perguntar: 
"Desculpe, est 
disposto a hospedar-me e  minha querida e pequena Milda?  que estamos a ser 
procurados pela KGB... 
" - Mulanov respirou fundo.
- Teria um enorme impacte, poderia at fazer tremer a terra! E depois? Quer 
passar a noite ao ar livre? 
 porta da rua? Num parque? Debaixo de uma rvore? Werner Antonovitch, esta no 
 uma terra onde 
pode procurar um quarto e no se preocupar mais com isso.
-Ajude-nos... - pediu Werner Forster em voz baixa.
"Uma pessoa pode esconder-se como um animal", pensou ele. "No porto ou num 
armazm. De 
certeza que tambm haveria um russo que poderia arranjar um quarto para mim e 
para Milda por uma 
mo-cheia de rublos... Mas seria isso uma garantia de segurana?
Ainda no se sabia qual seria a reaco de Karsanov quando recuperasse os 
sentidos. Podia dar-
se o caso de ele ficar calado por vergonha pelo seu ataque de surpresa... tambm 
podia ser que ele 
activasse um sector do controlo. Esta ltima hiptese ajustava-se melhor ao seu 
carcter...
-        No posso ajudar-vos - disse Mulanov, hesitante.
- Aqui no comboio, ainda v! Agora na cidade?
-        Pela vontade de Kiaschka, Mulanov...
-        No sei fazer ilusionismo, camarada. Posso perguntar se os meus colegas 
tm alguma 
soluo. Em Vadivostoque vocs ficam sozinhos.
-        Vamos conseguir. - Werner Forster encostou a testa quente ao vidro gelado 
da janela. L 
fora via-se o gigantesco lago Chanka.
-        Por favor, no comente a nossa situao com Milda - disse ele baixinho. - 
Ela deve 
acreditar que est tudo resolvido.
Mais tarde sentaram-se perto da janela e deram-se as mos, inclinaram-se para a 
frente e 
beijaram-se.

Foram ao vago-restaurante, onde j tinham arrumado a cozinha. Kusma fritou-
lhes, por especial 
favor, dois escalopes e eles
comeram-nos com uma salada de beterraba. Estavam sentados em banquinhos, no 
espao onde se 
arrumavam os utenslios da cozinha.
- Se estivessem a comer no vago-restaurante, caam-me em cima montes de 
pedidos! - tinha dito 
Kusma. - No podem calcular como as pessoas podem ser hostis quando esto a 
comer! Mal um v que 
o outro est a comer algo diferente, desata logo aos gritos, dizendo que tambm 
quer! A cozinha, 
oficialmente, est fechada. Toda a gente sabe que s se servem bebidas e 
sanduches. Meus amigos, 
sentem-se calmamente ao p de mim e comam descansados. Sinto-me culpado por 
Kiaschka...
-        Ela era uma pessoa estranha - declarou Milda pensativa, enquanto comia os 
escalopes, 
com o prato no colo. - Vulgar e ordinria e todos os homens diziam mal dela; mas 
quando se estava 
sozinha com ela, at se lhe podia chamar me! Uma pessoa estranha, Werner...
Ussurijsk, a ltima grande cidade antes do fim da linha, passou ruidosamente. 
Depois foi a 
pequena estao de Artem que surgiu, um sopro da China em territrio russo.
No transiberiano arrumava-se a bagagem numa grande azfama, e as malas 
atravancavam os 
corredores. Na segunda classe parecia que o povo tinha vindo todo para o 
corredor, trazendo metade dos 
seus haveres consigo.
Wladlen e Vitali acalmaram alguns passageiros colricos que queriam agredir-se 
com algumas 
peas de bagagem.
Mulanov encontrou, infelizmente, o fabricante de sabes Skarnejkin, o qual 
reclamava, pela 
ltima vez, que o Estado lhe devolvesse os sapatos que lhe tinham sido 
confiscados. Esses mesmos sapatos 
que lhe haviam sido roubados e que serviram para cometer um assassnio.
Em Chabarovsk ele tentou, em vo, ir esperar o avio que lhe deveria trazer os 
sapatos de volta.
Tinha levado tudo a srio, sobretudo porque Karsanov lhe prometera intervir a 
seu favor.
Depois atirara ao cho com a porta da cabina telefnica, atrs da qual Plotkin 
se escondera. Da 
por diante, sentava-se por ali, com olhar fixo, refrescava os seus inchaos e 
dizia a torto e a direito:
-        Isto  que  justia, camaradas? - dando a impresso de estar ligeiramente 
perturbado.
A viva do general, Olga Federovna, encontrava-se bastante melhor... tinha 
reavido o seu brinco.
Contudo, agora, a pouca distncia de Vadivostoque, rebentaram outra vez todas 
as 
preocupaes relativamente a Skarnejkin. Mulanov sentiu-se culpado por se 
lembrar que, infelizmente, 
o industrial de sabes no ia at Vadivostoque, pois possuia bilhete s at 
Svobodnij.
-        Compre bilhete no comboio, camarada! - tinha dito Mulanov oficialmente e 
sem 
brincadeiras. - Se no,  considerado um passageiro sem bilhete. Leia o quadro 
que regulamenta as 
multas...
- Os meus sapatos! - choramingava Skarnejkin. - Vou viajar s custas do Estado 
at reaver os 
meus sapatos. Vamos ver se no, ah! O camarada Brejnev lava as mos com os meus 
sabonetes e agora 
aqui querem-me... Camaradas! Vou lutar at ao esgotamento total!
Vadivostoque!
Ali estava ela, a cidade  beira-mar... a cidade porturia. A extenso do mar do 
Japo estendia-se 
 sua frente.
Uma enorme quantidade de casas, o bulcio das ruas e vielas - tudo isso era 
Vladivostoque, a 
porta da Unio Sovitica para o Pacfico.
O orgulho da Unio Sovitica!
Um pedao notvel da Europa no meio da sia, com um porto que tem de estar 
constantemente, 
durante todo o ano, a ser desimpedido de gelo.

Vadivostoque! Tal como Forster ia fazer agora, daqui tambm partiram uma vez, 
para uma 
viagem s de ida, que os levou para a Frana ou para a Amrica, logo aps a 
revoluo russa, bares e 
condes, prncipes e gro-duques, generais e almirantes do exrcito do czar - em 
pouco tempo a velha e 
feudal Rssia fora varrida pela onda vermelha.
Vadivostoque! O comboio parou, chiando os traves. As portas abriram-se de 
repente. As 
primeiras malas aterravam na gare.
Forster e Milda estavam  entrada e esperaram at que os grandes volumes fossem 
desembarcados. Depois desceram os dois degraus.
L em baixo estava Mulanov, muito solene com o bon e o casaco escovados. Ajudou 
Milda a 
apear-se e tambm deu a mo a Forster.
- Boa sorte! - disse ele perto deles. Nada mais. Que mais se poderia dizer? Mas 
virou-se mais uma 
vez, a penas para Milda, que estava atrs dele, e beijou-a em ambas as faces. - 
Faz o que  certo, minha 
filhinha! - disse-lhe apenas.
Depois virou as costas rapidamente e correu ao longo do comboio. Foi uma fuga 
aos seus 
sentimentos.
Forster seguiu-o com a vista e depois ergueu a mo. A tinha um papelinho 
amarrotado.
- Ele apertou-me a mo  despedida - disse ele a Milda. Ento alisou o papel e 
leu o que Mulanov 
tinha escrito, com uma caligrafia grosseira:
Apresentem-se a Saveli Jefimovitch Dronov, Tunguska 17, 2.0 andar. E mandem 
cumprimentos 
do revisor dos correios ferrovirios. No posso fazer mais nada por vocs. - 
Bons Fedorovitch.

Captulo dcimo quarto

Pal Viktorovitch Karsanov parecia ter uma natureza de urso. Forster e Milda 
obtiveram disso 
a primeira prova assim que deixaram a grande estao de Vadivostoque e se 
encontraram do outro lado 
da rua, na extremidade da enorme praa.
Contemplavam os edifcios imponentes e procuravam com os olhos um txi que os 
pudesse levar 
at Tunguska. Mas os txis pareciam estar todos ocupados.
Estavam ali h dois minutos quando surgiram, ruidosos, por uma avenida larga, 
cinco carros do 
exrcito da milcia e travaram com grande alarido  porta do edifcio da 
estao. Um peloto quase 
completo de milicianos saltou para o pavimento, formou imediatamente um cordo, 
bloqueou todas as 
sadas laterais da estao e fez recuar todos os passageiros para o grande 
trio.
Houve um barulho infernal. Ouviram-se protestos em voz alta, todos gritavam numa 
grande 
confuso... mas, em poucos segundos, a estao ficou como que deserta, vista do 
exterior.
No interior reuniu-se toda a gente no amplo trio central como um rebanho de 
carneiros 
obstinado.
- Chegaram cinco minutos atrasados! - murmurou Forster, e ps o brao  volta 
dos ombros de 
Milda. - Que diabo, foi por pouco! Menosprezei Karsanov, mas apesar disso, ele 
perdeu!
- A partida ainda continua por decidir, Werner - disse Milda. - Agora ele vai 
cercar o aeroporto 
e o porto.
- Isso  certo Mas no precisamos de esconder-nos como raposas perseguidas. 
Agora temos uma 
morada...
- Sabes quem  esse Dronov?
- Em breve iremos conhec-lo. Se Mulanov nos deu a sua morada,  porque ele no 
 dos que vai 
a correr chamar a KGB assim que nos vir.
Continuaram ali na extremidade da praa e observaram o que se passava na 
estao.
Os passageiros iam saindo a pouco e pouco, praguejando, gesticulando e numa 
aflio 
desesperada. Em frente das sadas
formavam-se grupos que discutiam.
Skarnejkin foi arrastado, entre dois milicianos, para dentro de uma carruagem. 
Continuava em 
pegas, gritava em voz estridente e exortava todo aquele ambiente a ajud-lo 
contra as autoridades.
Claro que ningum o ajudou - todos estavam satisfeitos por no terem nada a ver 
com a milcia.
Dementi Michailovitch Skarnejkin no estava completamente inocente da sua 
deteno. Assim 
que o transiberiano parou e as malas de Skarnejkin foram desembarcadas, ele 
subiu para cima de uma 
das maiores e proferiu um veemente discurso ao seu povo:
- Camaradas! Ouam a histria de um homem cujos sapatos foram roubados, primeiro 
por um 
assassino e depois pela polcia!
Aproximem-se, aproximem-se, cidados! O abuso da prepotncia espalha-se como uma 
lcera...
Era evidente que face a este ilcito orador do povo, a milcia tirou-o de cima 
da mala e levou-o 
consigo. Ainda por cima veio a indicao do revisor Mulanov de que este camarada 
enraivecido no tinha 
comprado bilhete at Vadivostoque!
Depois reuniram-se perto da locomotiva todos os revisores, que responderam 
unanimemente ao 
inqurito da milcia sobre o desaparecimento de Werner Antonovitch Forster e 
Milda Tichonovna Lipski 
e disseram que nunca mais os tinham visto. Teoricamente, opinaram os revisores, 
os dois ainda deviam 
encontrar-se no interior do edifcio da estao.
- Fantstico, camaradas! - disse Mulanov hipcrita.
- Vieram muito depressa! Mesmo na hora certa! Como? Os dois esto a ser 
procurados? Ah, como as 
pessoas podem enganar! Desejo-vos muito boa sorte, valentes soldados...

Finalmente apareceu um txi e deu uma volta  praa. Forster fez sinal, o 
motorista correspondeu 
e parou  beira do passeio. Abriu-lhes a porta.
- Agora tens de falar tu - disse Forster baixinho para Milda. - Qualquer russo 
percebe que sou 
estrangeiro.
Ele deu o papelinho a Milda e deixou-a entrar no txi. Colocou ele prprio a 
mala no porta-
bagagens.
O motorista esperou sentado.
Um verdadeiro socialista conduz outro socialista, embora no seja seu criado! 
Muito menos 
quando a companheira est vestida como Milda Tichonovna. Uma campnia! E o 
homenzinho? Vestiu-se 
a preceito para vir  cidade - j se sabe como !  a primeira vez que vm a 
Vadivostoque... e depois de 
volta  sua vida, contam a aventura solitria no extremo da taiga...
Vamos, entrem, camaradas!
- Tunguska, dezassete - disse Milda, que se tinha sentado ao lado do condutor. - 
 longe?
- Quem fala de distncia, camarada? - O motorista
sorriu ironicamente. "Vem  cidade e faz-se fidalga! Se 
longe... Uh, uh! L na vossa terra medem as distncias
em centenas de quilmetros e na cidade grande... "
O carro arrancou, deu a volta  praa e passou em frente da estao. O motorista 
deitou uma 
olhadela para o lado.
- O que  que se passa ali?
- Esto  procura de algum, sabe-se l de quem! Mas que esto  procura de 
algum, isso esto!
O condutor voltou a sorrir, agora afirmativo. No era preciso muito para 
compreender...
Aqui, em Vadivostoque, havia um conceito singular de liberdade... a extenso do 
mar que se via 
permanentemente era uma grande tentao. Aqui acabava a Unio Sovitica, e quem 
estivesse sempre 
a olhar, sem limites, para outro pas, tinha os seus prprios pensamentos.
- Esto de visita? - perguntou o motorista.
- Sim, viemos visitar um tio - respondeu Milda. Estamos muito contentes por 
isso...

A Tunguska no ficava propriamente no porto, mas tambm no era muito distante. 
Ainda se 
podiam ver os guindastes enormes; a maresia pairava nas ruas, mas o barulho e o 
mau cheiro do porto 
no chegavam at aqui.
A casa nmero dezassete era um edifcio de pedra de trs andares, construdo no 
virar do sculo, 
com os frisos a desfazerem-se e a pintura das janelas a cair. Antigamente devia 
ter sido um edifcio 
bastante aceitvel, onde se podia viver. No rs-do-cho da casa alojava-se um 
lugar de distribuio de 
po, que pertencia ao Estado, e uma agncia funerria... Uma vizinhana 
estranha, mas perfeitamente 
involuntria.
- O nmero dezassete! - disse o motorista. - Cumprimentem o vosso tio por mim!
Milda pagou, Forster tirou as suas malas do porta-bagagens e acenaram ao 
condutor at que ele 
desapareceu na prxima esquina.
Saveli Jefimovitch Dronov morava no andar do meio,  direita do lano de 
escadas. Uma pequena 
tabuleta pintada  mo indicava naquela direco. No havia campainha, mas havia 
um batente que fazia 
um barulho sonoro na porta.
Dronov era um homem talvez de sessenta e cinco anos, com cabelos brancos e 
ralos. Os seus 
quatro filhos, j casados, estavam espalhados por toda a Unio Sovitica; tinha 
at uma filha em Orel. 
A mulher de Dronov morrera, havia dois anos, de uma operao  vescula, e desde 
essa altura ele vivia 
no seu apartamento com um gato chins
amarelo-dourado e um papagaio, num medo permanente de que lhe roubassem a casa 
por ser to grande 
para um homem solitrio.

Sempre que batiam  porta, benzia-se s escondidas, porque no tinha amigos que 
o visitassem. 
Quando algum dos filhos o vinha visitar, avisava sempre antes.
Portanto, desta vez, s entreabriu a porta e espreitou para o patamar. O seu 
olhar recaiu 
primeiro em Milda e isso sossegou-o. Uma rapariguinha to simptica no poderia 
ter sido enviada pela 
junta de habitao.
- Trago-lhe cumprimentos do revisor de correio, Lumeneff, paizinho - disse Milda 
amigavelmente. 
- Ele est bem...
Dronov abriu a porta e respirou aliviado.
- Entra, minha querida! - disse, satisfeito. - Que
boa notcia! O bom Lumeneff! Um funcionrio exemplar!
 filho de uma prima minha em segundo grau, sabes. Teve
o faro certo... tornou-se funcionrio dos correios! Quando
for velho no precisa de preocupar-se! Venham, sentem-se! Vou fazer um ch para 
ns...
Era um homem muito amvel, este Saveli Jefimovitch. Correu l para dentro como 
uma doninha, 
recebeu as suas visitas, mandou vir bolos de manteiga e de ovos da padaria do 
rs-do-cho e estava 
visivelmente satisfeito por poder quebrar, por algumas horas, a monotonia da sua 
vida.
- Gostaramos de ficar aqui por um tempo, paizinho
- disse Milda, depois de ter bebido o ch. - Talvez trs dias.  possvel?
- Os amigos de Lumeneff meus amigos so! Claro que podem ficar. O tempo que 
quiserem...
Olhou para Milda, pensativo, e fez um sinal com a cabea em direco ao 
silencioso Forster.
At agora, Forster s tinha dito algumas palavras e explicado ao velhote que era 
natural da 
regio do Bltico. Da o sotaque esquisito que tinha ao falar russo...
- Digam-me os vossos nomes outra vez, por favor! No meio de toda esta alegria, 
j me esqueci!
- Ele  Wanj a Antonovitch Forsterev e eu chamo-me Milda Tichonovna Forstereva.
Dronov mostrou-lhes o quarto. Um espao muito estreito, com janelas ainda mais 
estreitas, no 
saguo. Estava pouco mobilado, com um armrio, uma mesa, duas cadeiras, um 
lavatrio e uma cama 
simples.
- Espero que se sintam confortveis - disse Dronov.
-        Eu no sou rico, Wanja Antonovitch. Houve tempo em que tive pena de no 
ser um funcionrio 
pblico como Lumeneff. Mas estou satisfeito.
- Que mais  que se pode querer? - respondeu Forster. -
Agradeo-lhe, Saveli Jefimovitch!
Por fim ficaram sozinhos no quarto apertado com as malas entre eles e ento 
olharam um para 
o outro.
Cada um sabia o que o outro estava a pensar.
- Disseste que te chamavas Forstereva... - disse Forster baixinho. - A minha 
mulher...
- Teve de ser - respondeu Milda, e os seus olhos escureceram. - Querias que ele 
desconfiasse?
- S por isso, Mildaschka?
Ela calou-se, curvou-se, ps uma das malas em cima da cama e comeou a desfaz-
la.
 noite, Dronov foi cedo para a cama. Tinha bebido demasiado vodca, que Forster 
lhe havia 
oferecido; tambm contara sobre a sua vida e estava completamente esgotado por 
aquela alegria 
repentina de ter hspedes to simpticos, que em breve partiriam.
- Durmam bem! - disse ele ainda, e cambaleou para dentro do seu quarto. - No se 
incomodem 
comigo. Um velho como eu aproveita a noite... levanto-me muito cedo. Mas vou 
andar em pegas para 
no vos acordar...
Forster ainda se lavou na pequena casa de banho de Dronov - era, como se dizia, 
uma boa e 
honesta casa -, e depois regressou ao quarto.

Milda estava sentada a um canto da cama. Tinha tirado a colcha, colocado as 
almofadas ao lado 
uma da outra e corrido as cortinas. Perto da colcha bamboleava uma lmpada 
elctrica turva e sem 
proteco.
E, tal como ele, tambm Milda se sentia desamparada... Tinha-se despido e ficado 
s com uma 
camisa curta, apertando os joelhos um contra o outro, e puxara a camisinha para 
baixo at s ancas. 
Pousara as mos no colo e tremia nitidamente.
Forster viu, pela primeira vez, quase a descoberto, os seus bonitos seios de 
jovem, a simetria do 
corpo, as suas longas e esbeltas pernas com ps pequenos. Era inexplicvel como 
as grosseiras botas de 
camponesa se conseguiam ajustar a uns ps assim.
A luz da lmpada solitria atingia com intensidade o rosto de Milda. Era um 
rosto cheio de 
perguntas e expectativas, nsias, e, naturalmente, defesas. Os olhos cinzento-
azulados brilhavam e as 
lgrimas esperavam o momento certo para saltar...
Werner Forster ficou parado  frente dela.
- Se quiseres, pe-me fora, Milda - disse ele com voz sumida. - Posso muito bem 
dormir no sof 
do quarto. No precisas de ser forada a nada...
- Eu amo-te, Wanja. Para que  que ests a dizer essas parvoices?
Ela deixou-se cair na cama, encolheu as pernas e encostou-se  parede. A camisa 
enrolou-se  sua 
volta, mas ela no voltou a pux-la para baixo, pelo contrrio, deixou-a ficar 
como estava. Sorriu para 
Forster e pegou-lhe na mo.
- Sou Milda Forstereva? - perguntou ela.
- At ao fim dos teus dias... - Ele inclinou-se sobre ela,
tirou-lhe a camisa ridcula pela cabea e atirou-a para longe.
Quando ele se encostou a ela, o cu caiu-lhe em cima e cobriu-a.

Amaram-se durante trs dias e trs noites, deixando-se levar por uma paixo 
ardente.
Abriu-se em Milda Tichonovna a entrega e o fervor da eterna Rssia... s uma 
russa podia amar 
assim, porque tinha nascido com a nostalgia de milhares de anos...
Durante o dia, Forster passeava muitas vezes por Vladivostoque e, de caminho, 
procurava uma 
maneira de deixar a Rssia.
Quando ele saa, Milda fazia o mesmo, mas sem ele saber.
O que se esperava, aconteceu:
O alerta de Karsanov provocou uma onda de bloqueios. O aeroporto estava 
rigorosamente 
vigiado como se por ali houvesse terroristas.
No porto controlavam-se todos os navios estrangeiros, principalmente os 
japoneses, mais 
severamente do que antes. Ningum entrava a bordo sem que os seus documentos 
fossem minuciosamente 
examinados.
Werner Forster observava tudo de uma taberna do porto.
No segundo dia tinha comprado a um comerciante de roupas usadas um srdido 
uniforme de 
marinheiro. J no se barbeava. Dronov notou-o com espanto, mas Milda tinha uma 
explicao para isso:
- Wanj a Antonovitch procura um lugar de pescador, - disse ela. - Estamos fartos 
de viver na 
taiga.
- Ele quer ir para o mar? - O velho riu-se. - Ah, ah, quer saber o que  enjoar 
a srio! Da floresta 
para o mar? O estmago dele vai dar uma volta!
No terceiro dia passaram uma hora bastante crtica. Dronov trouxe consigo o 
jornal.
Na primeira pgina havia duas fotografias... retratos-robs, tal como Karsanov 
os tinha mandado 
fazer. Deveriam representar Milda e Forster, mas eram to pouco parecidos com os 
originais que Forster 
respondeu, com toda a calma, a Dronov, quando este disse:
- No pode ser possvel! Procuram duas pessoas perigosas! Olhem s para estas 
caras! 
Verdadeiras caras de criminosos! Mas assim no apanham ningum, digo-vos eu! Por 
causa destas 
fotografias j no podem esconder-se por mais tempo... vo ser reconhecidos! At 
tm nomes parecidos 
com os vossos!  tudo uma corja que anda por a, uma corja!

Uma hora depois, o perigo passou. Dronov cortou o jornal, com uma faca de 
cozinha, em 
pequenos pedaos e pendurou-os na casa de banho num gancho de ferro.
- Foi por pouco! - disse Forster a Milda naquela noite.
Voltaram para a cama, corpo a corpo, e o seu calor invadiu-os um ao outro.
-        Talvez seja depois de amanh, Mildaschka. Hoje conheci um comandante 
japons, Tojo 
Namamura  o seu nome. Tem um cargueiro ancorado no porto, que parte depois de 
amanh. Amanh 
vou encontrar-me com o comandante outra vez. Quando ele carregar o navio, vou 
trabalhar como 
estivador e  num desses caixotes que eu vou levar-te para bordo. A milcia s 
controla as pessoas e no 
as mercadorias.
-        Depois de amanh... - disse Milda baixinho. Deslizou para mais prximo de 
Forster e de 
repente atirou-se para cima dele e
gritou-lhe mesmo na cara:
- Depois de amanh! Oh, depois de amanh! Amo-te... amo-te...
Ele considerou isso como uma alegria fruto de um mpeto de felicidade exuberante 
e entregou-se 
completamente a toda a sua ternura.
Mais tarde, quando Forster dormia no seu ombro, com a mo esquerda pousada no 
seu peito, 
Milda chorou em silncio encostada a ele, imvel e impassvel, para no o 
acordar.
"Depois de amanh...", pensava ela sem parar.

Tudo estava esclarecido com o comandante Tojo Namamura.
Forster encontrou-se com ele num caf que era principalmente frequentado por 
oficiais de 
marinha estrangeiros e no qual se podia falar bastante  vontade, apesar de aqui 
tambm ser possvel 
haver olhos mais atentos.
- Trouxe-lhe um carto de identidade - disse Namamura e estendeu a Forster um 
pedao de papel, 
por cima da mesa, com muitos carimbos oficiais. - Desde ontem que todos os 
trabalhadores do porto tm 
este bilhete de identidade. Meu caro, isto foi uma trabalheira!
Falavam em ingls um com o outro, beberam bourbon americano e agiram como se 
fossem amigos 
h anos.
- Karsanov nunca ir esquecer-se disto!
Forster olhou l para fora, para os depsitos do porto. A milcia patrulhava por 
todo o lado.
Tanto trabalho para um s homem e uma rapariga magra e meio esfomeada! Karsanov 
parecia 
estar sentado em cima de um vulco a cuspir fogo...
- Tudo certo com o caixote, comandante?
- No armazm nmero oito. O caixote tem o nmero mil setecentos e um. Consegue 
fixar?
- Neste caso at pode dizer-me um nmero para eu achar a raiz quadrada que eu 
fixo! Mil 
setecentos e um!
- Dos lados est escrito: "Peas de maquinaria para locoama." Perto do caixote 
encontra um 
carrinho. Deve levar o caixote no carrinho para bordo... as peas de maquinaria 
no podem ser 
transportadas por um homem sozinho.
Forster fez um sinal com a cabea.
- Como  que eu alguma vez poderei agradecer-lhe, comandante?
- No pense nisso. - Namamura olhou para Forster muito srio. - Se der nas 
vistas, eu tambm 
corro o perigo de perder a minha patente! E porque  que eu fao isto? Por causa 
da sua Milda...
- Mas o senhor no conhece Milda, comandante!
- Eu tenho uma filha, que tambm tem vinte e dois anos. - Namamura levantou-se 
abruptamente. 
- Se alguma vez ela tiver necessidade de ajuda, tambm desejo que haja algum 
que possa
valer-lhe. At amanh, sir. De manh cedo, s seis horas, carregamos o ltimo 
caixote...
- At amanh, comandante.
Saram juntos e separaram-se em frente ao caf.
Amanh cedo, s seis horas!

Forster limpou a sua cara barbada. O fato de marinheiro tresandava a leo e a 
suor.
"Amanh, Mildenka! Amanh posso afirmar que sou o homem mais feliz do mundo... "
Dronov no estava em casa quando Forster regressou do porto, doido de alegria. 
Tinha 
comprado uma garrafa
de champanhe, um frasco de caviar levemente salgado, um po de trigo fresco e 
aromtico e um pedao 
de carne assada fria.
- Vamos festejar! - gritou Forster j  porta e fechou-a com o p, j que tinha 
os dois braos 
cheios de cartuchos. - Saveli Jefimovitch! Mildaschka! Merecemos uma festa!
Mas Dronov no estava ali - era estranho. Milda Tichonovna tambm estava 
ausente, o que nunca 
acontecera.
"Devem ter ido passear", pensou Forster. "Um dia de veludo, se no estivesse 
tanto frio. Um cu 
to infinito como a minha felicidade! Tudo se ajusta... "
Ela podia muito bem levar o velho Dronov para apanhar um pouco de ar... j 
ningum a 
reconheceria em Vadivostoque. Os jornais com os retratos j h muito tempo que 
estariam pendurados 
em ganchos de ferro nas casas de banho, como o de Dronov - ou ento embrulhavam 
cigarros com eles.
Forster ps a mesa, procurou os copos, colocou o caviar do lado de fora da 
janela - nesta poca 
do ano era o melhor frigorfico - e desembrulhou o ramo de flores. Estas foram 
um pequeno luxo, 
importadas do Japo e  venda em lojas estatais para turistas, porque s 
realmente os estrangeiros se 
podiam dar a esse luxo.
Depois foi ao quarto para mudar de roupa.
A cama estava feita e com uma colcha especial.
Aos ps da cama estavam as malas de Forster, feitas e alinhadas como soldados. 
As portas do 
armrio encontravam-se fechadas - e Forster soube, naquele segundo, que as 
gavetas do armrio estavam 
vazias.
Sobre a colcha estava uma folha de papel dobrada. Cinzenta, papel barato. Desde 
quando  que 
Dronov escrevia cartas?
Forster sentou-se na cadeira perto da mesa estreita e olhou fixamente para a 
cama.
- Isto no  verdade - disse ele baixinho para si mesmo.
- Milda, no podes fazer isto... no  possvel que faas isto... De manh cedo 
s seis horas... no 
caixote mil setecentos e um... Milda, no podes fazer isto...
Precisou de muito tempo para se levantar e poder ir buscar a carta em cima da 
mesa.
Ainda demorou mais um bocado com ela nas duas mos, at que desdobrou o papel.
Uma caligrafia pequena e infantil... to pequena, to delicada, to carinhosa 
como a prpria 
Milda...
Ela escrevera o seguinte:

Meu amor
Tu s o nico sol do meu corao, que me pode aquecer. Sei que esta felicidade 
que vivi contigo 
no voltar nunca mais  minha vida, e apesar disso, tenho de partir...
Tenho medo da tua Alemanha, de todos os estranhos, desse mundo distante, onde eu 
s te tenho 
a ti e nada mais do que solido. Como  que eu posso viver sem a Rssia, meu 
amor?
Uma vez disseste: "Eu no compreendo a vossa alma!" Quem  que pode, se no  
russo?
Vive feliz, meu amor. Eu vou chorar at ficar vazia... mas as lgrimas tombam em 
solo da Rssia 
e se com elas crescer uma flor vou dar-lhe o teu nome, Werja... Mais uma vez, 
vive feliz...
Mildenka


Quando Saveli Jefimovitch Dronov regressou  noite, o seu apartamento estava 
vazio, as malas 
j no estavam l, s havia uma garrafa de champanhe em cima da mesa.
Depois encontrou po de trigo fresco e carne assada fria e do lado de fora da 
janela um grande 
frasco com caviar.
Havia um desconhecido ramo de flores numa garrafa, porque Forster no tinha 
conseguido 
encontrar nenhuma jarra. Eram flores lindas e certamente japonesas...
"Ele vai sobreviver e ela tambm", disse Dronov consigo mesmo. "No, como  que 
 possvel 
iludir-me!"
Sentou-se  mesa, lanou um olhar rpido a todas aquelas delicias e pensou em 
como ele tinha 
levado Milda Tichonovna para longe dali, para uma horta de uns conhecidos seus, 
na outra ponta de 
Vladivostoque. Deram-lhe um quartinho e ela tinha-se atirado para cima da cama e 
chorado bastante, 
como se quisesse dissolver-se em lgrimas.
"Um homem deve deixar-se arruinar?", perguntou-se Dronov e agarrou na garrafa de 
champanhe. "Quem deixa secar o po  um patife! Quem deixa a carne ganhar bolor, 
merece ser 
apanhado por um raio!"
Uma hora depois, Saveli Jefimovitch Dronov estava bbedo e dormia, empanturrado 
e feliz, 
debaixo da mesa.

s seis horas e dezanove minutos da manh, um trabalhador do porto levantou-se e 
empurrou um 
carrinho com o caixote nmero mil setecentos e um pela rampa do armazm. Estava 
sujo e com a barba 
por fazer, com os olhos vermelhos e inchados e tresandava a vodca.
Um posto da milcia inspeccionou-o, lanou um olhar rpido ao carto de 
identificao carimbado 
e disse:
- Passe!
No convs, o trabalhador arrumou o caixote leve, sentou-se em cima de um monte 
de cordas e 
olhou para o comandante Namamura, que se tinha aproximado dele.
-        Est tudo em ordem, sir? - perguntou Namamura.
Werner Forster fez um sinal com a cabea, como s um homem completamente 
embriagado 
consegue fazer.
- Tudo em ordem... comandante!
-        Ento conseguiu, sir.
-        Sim, consegui.
Namamura voltou costas e regressou  ponte. No viu quando Forster cobriu a cara 
com ambas 
as mos e chorou.

Fim
